Bratko Bibic – acordeom, gaita, órgão Faninger, voz. Bogo Pecnikar – clarinete, ocarina, voz. Boris Romih – guitarra elétrica, guitarra acústica, percussão, voz. Nino de Gleria – baixo elétrico, contrabaixo, voz. Ales Rendla – bateria, violino, congas.


Faixas:

1. Romanticna - 4:29
2. Pjanska - 3:09
3. Bo Ze (Ce Bo) - 4:11
4. Cosa Nostra - 7:10
5. Narodna / Kmetska - 5:51
6. Cocn Rolla - 5:31
7. Zvizgovska - 5:00
8. Jo di di Jo - 0:25
9. Tazadnatanova - 8:22


Begnagrad - Konzert For a Broken Dance (1982)

Por Lindhorst

Uma das características mais fascinantes do chamado Rock in Opposition é sua capacidade ímpar de absorver não apenas formações de diferentes partes do mundo, mas sobretudo de integrar tradições musicais autóctones no âmbito da música de vanguarda. Desde o início do movimento, bandas como Univers Zero (Bélgica), Samla Mammas Manna (Suécia) ou Stormy Six (Itália) trabalharam, com extraordinários resultados artísticos, texturas sonoras de seus países num contexto 'avant-garde'; o mesmo ocorre com o trabalho desta banda eslovena que agora iremos examinar.

O Begnagrad iniciou suas atividades em 1976 na cidade de Ljubljana, capital da Eslovênia; seu primeiro disco, intitulado Tastare (gravado em 1977-78, mas lançado apenas em 1992), mapeia o trabalho desenvolvido pelo grupo entre 76 e 78, se caracterizando por uma sonoridade complexa e melódica, com farta presença de elementos da música folclórica eslovena, numa abordagem que lembra bastante os álbuns do Samla Mammas Manna e do Stormy Six. Todavia, em Konzert For a Broken Dance (lançado originalmente na Eslovênia em 1982, pela gravadora local Zalozba), percebem-se nítidas mudanças: a banda ganha bastante em peso e agressividade, com fortes traços de free-jazz e música erudita contemporânea, num contexto que se aproxima dos trabalhos mais radicais do Henry Cow. Os elementos étnicos continuam tendo ampla e significativa presença, mas agora inseridos num contexto sombrio e muito mais complexo. Uma instrumentação mais elétrica, com guitarras distorcidas e bateria, contribui para uma atmosfera algo caótica, numa curiosa mescla com o caráter celebratório e espirituoso da tradição musical balcânica.

O disco abre em alta voltagem com a stravinskiana 'Romanticna', que se caracteriza por um intrincado dueto de clarinete e acordeom, emoldurado por uma bateria descompassada e golpes percussivos de contrabaixo; seguimos com 'Pjanska', bem agressiva, que principia numa atmosfera frenética e espirituosa e evolui numa caótica levada de free-jazz, acabando por desembocar num velocíssimo solo combinado de clarinete e bateria; a terceira faixa, 'Bo Ze (Ce Bo)', transfigura o contexto de uma etílica festa camponesa, com muitos ruídos desconexos, irônicas intervenções vocais e um rítmo fragmentário; a ambiência etílica pemanece em 'Cosa Nostra', só que agora num registro mais sombrio e pesado, de ressonância bartokiana, com destaques para o acordeom de Bibic e o contrabaixo de Gleria, ambos ótimos; a orgia campestre prossegue, cada vez mais ensandecida e violenta, nas duas músicas seguintes: 'Narodna / Kmetska' se caracteriza por súbitas e inusitadas mudanças de andamento, com magníficas tramas de sopros, acordeom e vocais alucinados, enquanto 'Cocn Rolla', mais turbulenta, explode na violência rítmica da bateria de Rendla e na potência da guitarra maníaca de Romih. O clima torna-se mais suave na sétima faixa, 'Zvizgovska', com belos arpejos de guitarra acústica, sofisticadas harmonias de assovios e o sempre marcante acordeom de Bibic. 'Jo di di Jo', uma breve vinheta vocal em clima tirolês, prepara o terreno para a fantástica música de encerramento, 'Tazadnatanova': em seus 5 minutos iniciais, o Begnagrad nos presenteia com um magnífico tema fusion, com grandes passagens de sopros e bateria, tema esse que irá se transformar, nos 3 minutos finais, em mais uma lisérgica e caótica festança celebratória destes campônios pós-modernos da Eslovênia.

Em suma: Konzert For a Broken Dance é uma obra-prima, uma fusão sublime entre a genial psicose vanguardista do R.I.O e um sério trabalho de recuperação das tradições musicais centro-européias, numa eloquente e autêntica demonstração de como o velho e o novo podem se conjugar para estabelecer o ETERNO.



Resenha de Alfredo RR de Sousa