Alemanha, 1971.


Holger Czukay, baixo.
Michael Karoli, guitarra.
Jaki Liebezeit, Bateria.
Irmin Schmidt, teclados.
Damo Suzuki, vocais.


Faixas:
1. Paperhouse (7:29)
2. Mushroom (4:08)
3. Oh Yeah (7:22)
4. Halleluhwah (18:32)
5. Aumgn (17:22)
6. Peking O (11:35)
7. Bring Me Coffee Or Tea (6:47)


Can

Tago Mago

 
Dados da resenha:
Autor: Igor Molina (Tago Mago); recebida em: 21/04/2006.
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Tago Mago é o terceiro disco lançado do Can, e o que 3 anos após o surgimento da banda viria a se tornar um clássico do Krautrock.
No que vem a ser estes 3 anos antes, 1968, vale citar algo. Simplesmente é a era que precede o apogeu do psicodelismo, psicodelismo este de Mr. Syd Barret, Sgt. Pepper's dos Beatles, Jimi Hendrix, Velvet Undergorund e por aí vai. E na música isto foi algo importantíssimo, pois quase todas as bandas de rock da época beberam dessa fonte, marcando um estímulo muito alto para uma nova música, de também novas bandas.
E foi o que aconteceu com o Can. Irmin Schmidt e Holger Czukay, alunos de Karlheinz Stockhausen (um mago da música eletrônica) escutaram todas essas bandas, além de Miles Davis, The Stooges, James Brown e outras, e se entregaram definitivamente a esta nova onda da música experimental.

Junto com as demais importantes bandas do estilo, marcaram algo inusitado no final de 60's na Alemanha, um novo genêro auto-intitulado Krautrock.
As outras bandas não vem ao caso agora, portanto farei uma breve análise dos discos que antecedem o Tago Mago.

Apesar do Delay ter sido o primeiro disco gravado da banda, em 1968, ele só foi apenas lançado em 1981, então também não vem ao caso.
Monster Movie sim, com Malcolm Mooney nos vocais tem petardos como 'Yoo Doo Right' e 'Outside My Door', composições criativas e de puro improvisos, notório também são as influências do rock primitivo e da música percussionista negra, que aliás é uma de suas principais armas. Estas seriam as principais marcas que também se destacariam nos discos posteriores da banda, além da música eletrônica.
Certo tempo depois, nas ruas de Munique, os caras da banda descobriram o japonês Damo Suzuki, o indivíduo fazia música nas ruas com a pretensão de ganhar dinheiro para voltar pra casa, no Japão. Não foi o que aconteceu.
Soundtracks, de 1970, foi usado por alguns diretores de vanguardas alemães. No que os materiais destes filmes foram reunidos, surgiu este segundo trabalho do grupo. É um excelente disco, tão bom quanto o anterior, e já conta nos vocais com o Suzuki, mas nunca cantando na mesma música com o Mooney, este que foi o seu último trabalho na banda em virtude de problemas de saúde. Ressalto que a faixa 'Mother Sky' é uma das melhores coisas feitas pela banda.

Agora sim, finalmente o Tago Mago.
Este álbum é tido por muitos como o ápice da banda, a fase mais madura e experimental, se apropriando sobretudo da música eletrônica, além de manipular as próprias gravações usando os conceitos aprendidos com Stockhausen. O Can foi talvez quem melhor aplicou esses conceitos da música eletrônica e de manipulação sonora na época, num rock free que se interessava mais nos timbres de guitarra do que em fraseados de impacto deveras frágil e fácil.
Penso que o Tago Mago é como se fosse um trabalho dividido em 3 partes.
Na primeira Paperhouse, Oh Yeah e Halleluhwah que são as músicas relaxantes, oscilam entre as mais digeríveis e de maior predileção a primeira vista, constituem entre as faixas de maiores mantras hipnóticos que a banda já fez, trabalham sobretudo com a repetição buscando deixar o ouvinte em profundo transe. Um lado absurdamente genial, ambas músicas são lindas e estão entre as mais clássicas de todo o universo Krautrock.
Na segunda as faixas Mushroom, Aumgn e Peking O. Todavia Mushroom a meu juízo não chega a ser similar as outras duas no quesito experimentalismo, porém tem seu lado sombrio e é sinistra quase na mesma proporção. Desse lado destaco Aumgn, que em alguns momentos me é digna de lembrar as melhores cenas do filme (também alemão e sombrio) Nosferatu, de 1922, parece ser sua outra trilha sonora, stoned total. Enfim, um lado inovador, criativo, free, e de uma imensa insanidade.
Por fim, Bring Me Coffee Or Tea. É uma boa música, mas sempre pensei que ela se encaixaria melhor na proposta do Ege Bamyasi, no entanto não deixa de ser uma interessante faixa de encerramento desse que é na minha opinião o melhor disco de tão maravilhosa vertente.

Igor
21/04/2006.
 

Autor: Roberto Lopes (bobblopes);

O grupo alemão Can, talvez o principal (ou mais conhecido) expoente do movimento Krautrock, algumas vezes tem sua carreira comparada ao do Soft Machine, principal expoente do Cantebury. Se a sonoridade dos dois grupos tem um enorme abismo de diferença, podemos ver a carreira de ambos com semelhanças bastante interessantes.
Ambos os grupos se iniciaram bebendo na fonte pscodélica deixada por Syd Barrett, no caso do Can em seus dois primeiros trabalhos, Monster Movie de 1969 e Soundtrack de 1970 (sem contar as primeiras gravações do grupo em 1968, lançadas somente 15 anos depois), onde percebia-se o tom lisérgico do gênio floydiano em sua sonoridade, porém somadas as diversas outras influências como o free-jazz, pitadas de musica conteporênea e clássica e até mesmo traços minimalistas. Ou seja o grupo já dava sinais do que iria ser seu som, porém ainda com influências piscodélicas tão vigentes da época.
Ambos os grupos também decidiram embarcar num caminho totalmente diferente, ousado, radical e definitivo em seu terceiro trabalho, colocando suas idéias num disco duplo. No caso do Can, sua formação contava na época com um Vocalista (que na verdade pouco apareceu neste trabalho) o japonês Damo Suzuki e a formação que iria fazer a base da banda até meados dos anos 80, com destaque para os virtuosos Holger Czukay e Irmin Schmidt. Nesse disco a viagem (como a banda definiu esse trabalho) se daria misturando diversas influencias sonoras, somadas a um som obsessivo, um vocal distante e um senso de improvisação que as vezes beirasse ao extremo (utilizando até os erros de gravação ou de tempo durante a produção do álbum). E em meados de 1971, lançava-se um marco para o genero, talvez com a mesma importância e impacto que Third teve para com o Canterbury, Tago Mago.
O disco impõe de forma radical o que realmente o krautrock queria brindar ao ouvinte: melodias sombrias, bem-humoradas, maníacas, obsessivas, ou seja, tudo o que quem aprecia um prog fora dos padrões convencionais aprecia e que recebe em doses cavalares nesse trabalho. Temos Paper House, mushroom e Oh Yeah, que variam do experimental ao suave sem uma ordem específica, onde experimentos da guitarra e dos teclados se misturam a uma batida desordenada e as vezes com pitadas de funk e soul (sim isso mesmo!) que somem no mar de efeitos e improvisações das faixas. Já Halleluhwah e Aumgn talvez sejam as faixas centrais do álbum. Em sua longa duração, o improviso, os efeitos de guitarra baixo e bateria, o virtuosismo as vezes exacerbado no estilo ornette coleman são usadas ao extremo, e nelas o vocal de Suzuki quase não se percebe, mas quando o mesmo se faz presente, não se entende o que é cantado, se é que se consegue diferenciar sua voz no emaranhado sonoro que essas musicas apresentam. Já Peking O mostra Suzuki numa performance vocal no mínimo sombria, porém excelente, onde o mesmo parece estar numa espécie de oração, ou melhor, numa espécie de transe, onde o mesmo procura exorcizar, ou chamar quem sabe, demônios ou espíritos, soltando (ou melhor suspirando) palavras quase indecifraveis . A banda nessa faixa ajuda a dar um clima sinistro, jorrando mais uma vez efeitos e improvisos que dão um tom ameaçador na faixa. Bring me cofee or tea, no qual parece que a banda irá terminar o álbum de forma tranqüila, nos brinda de novo com um caos sonoro, diversos estilos musicais misturados com uma performance insana, terminando de forma esquizofrênica e genial esse ótimo trabalho.
Se diferente do Soft Machine, o grupo manteve uma formação mais ou menos estável, a banda como seus colegas ingleses não escapou de ver seus álbuns com o decorrer do tempo caírem no mal da irregularidade, onde belos trabalhos (Future days de 73 e flow motion de 76) se juntariam a trabalhos fracos ou sem a mesma qualidade (como em can de 1979 ou em Rite Time de 1989).
Um disco maravilhoso, um clássico e talvez o grande precussor do movimento kraut alemão.