Alemanha, 1971.


Werner Diermeier - bateria.

Hans-Joachim Irmler - órgão elétrico.

Jean-Hervé Peron - baixo, efeitos sonoros.

Gunter Wüsthoff - sintetizador e saxofone.

Rudolf Sosna - guitarra elétrica e teclados.

Arnulf Meifert - bateria.


Faixas:
1. Why Don't You Eat Carrots? - 9:31
2. Meadow Meal - 8:02
3. Miss Fortune - 16:35


Faust

Faust (ou Clear Album)

 
Dados da resenha:
Autor: SemNick; recebida em: 01/02/2006.
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Tentar descrever musica por música desse álbum, é tarefa sobremaneira aquém das capacidades de um insignificante indivíduo como eu. Então tentarei expor aos caros leitores uma impressão geral dessa obra magnânima da liberdade e criatividade.

Faust é a banda mais significante e exuberante de todas as vertentes progressivas, e quiçá a melhor banda de rock que o nosso planeta já produziu.

Aqueles que já ouviram algo relacionado ao krautrock, música moldada nas formas sulfúricas de uma Sister Ray e da peça Interstellar Overdrive, espacial, kozmiche, totalmente caótica da excelência em pscicodélia, o arcano Barret. Das influências fora do âmbito do rock estão os free jazz envenenados de magma à 100000 de graus de figuras como Coltrane, Coleman e Albert Ayler. Sem contar com as influências figuras totalmente livres e fora de qualquer rotulação como Cage e Stockhausen.

Imaginem tudo isso sendo forjado nos confins do universo, em alguma forja dentro de um planeta em permanente caos, a temperaturas além do que podemos imaginar, e assim terão um paramêtro dessa fusão única que o ocorreu na alemanha setentista.

Sobre o álbum, pouco sou capaz de descrever, somente falarei que é uma das maiores obras da liberdade, criatividade, freak musical. Faust rompe todas as barreiras conhecidas na composição e execução de um rock, metais distorcidos, letras dadaístas, sons do dia a dia, efeitos eletrônicos, microfonias, enfim, o caos musical organizado.

Se acharam essa resenha difícil de assimilar, assimétrica, irregular, é que assim é a música do Faust, porém não ousarei fazer comparações entre minha vulgar resenha e a obra magnânima desses germânicos. Ouçam para entender o que vos falo, that is the way, dudes.
 

Autor: Alfredo RR de Sousa (Lindhorst);

Gostaria muito, confrades, de que vos dispusésseis à magnanimidade de dedicar uma fração de seu tempo ao 'depoimento-experiência' que, neste momento, começo a vos apresentar. Estou cá sentado em meu espectral gabinete, fones aos ouvidos; propagando-se cineticamente através de mim, como se fosse uma incomensurável autobahn elétrica em direção ao Infinito, o Clear Album (1971), disco de estréia do Faust... e vos digo, com plena sinceridade: me é impossível escrever uma resenha a propósito desta obra.
Reparai, confrades, que uma resenha é se configura como procedimento textual de caráter mormente descritivo. O que se pretende, portanto, é dar conta do conteúdo de uma dada manifestação artística ou intelectual, sumariar-lhe as intenções, esboçar suas linhas de fuga, inventariar-lhe os elementos constitutivos; pois é este exato mister que não consigo realizar, prezados amigos, tendo em vista não tratar-se de uma obra que revoluciona um Universo já estabelecido, ou que então o define em magnífica síntese adamantina, mas d'objeto ainda mais inefável: d'algo que INSTAURA um novo Universo, primo mobile que estabelece as leis fundamentais de uma cosmovisão a um só tempo nascente e final; e não sói ser factível, creio, a 'descrição' de um kósmos, o 'inventário' d'uma epifania.

Eis o que, portanto, vos tenho a propor: convivo com o referido Universo há 8 anos, e ao longo deste tempo, senti-me propenso, por diversas vezes, a escrever alguns textos fragmentários, sem qualquer relação direta ( notai bem: direta...) com o disco em pauta, formados por devaneios, epigramas, enquanto as galáxias faustianas precipitavam-se em espirais flamejantes por meus neurônios; tenho ainda de vos confessar, meus caros, o mau costume de não datar o que escrevo, o que significa que as peças abaixo estão em absoluta DESordem cronológica; quero aqui, pois, disponiblizar tão somente alguns destes escritos, à guisa de testemunho 'estético-transcendente-existencial' sobre a obra em tela. Espero contar com a indulgência e generosidade dos senhores.


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VARIATIONS VALÉRYENNES...

Un Coup des Dés Jamais n'abolira le Hasard............ .......Toute Pensée émet un Coup des Dés........, escreveu ( ou entreviu ) ( ou entressonhou...) um ínclito haríolo e vate transmental, Stéphane Mallarmé.............. se todo pensamento e, portanto, todo conceito, inferência, raciocínio ou cavilação emitem um lance de dados (e tal assertiva é veraz, egrégios confrades, pois jamais equivocou-se ou equivocar-se-á um sábio transmental...), o que então denominamos como PHILOSOPHYA, este prístino, iridescente labirinto de lúcidos sonhos, nada mais é que um incomensurável, inefável fanal aleatório de intercadentes devaneios, que se deslindam em inexoráveis progressões em direção ao INFINITO de nossas quimeras espectrais............................................... .....................................................................................................
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IMPERATIVOS CATEGÓRICOS

- Tudo já decorreu, e ora apenas rememoramos espectros, ou tudo que Foi é tão somente evasnecente encenação do que Será?

- Qual é o privilégio dos mortos?

- A Realidade é a dimensão sensível do Sonho, ou serão as cavilações oníricas mero fruto de frívolas distrações da Realidade?

- POR QUE ?????????????????????????????????????????????????


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A Oeste de Kandahar...

O que emerge na sibilina fímbria de horizontes espectrais a oeste de Kandahar...? As da Sierra Morena hipnóticas veredas com denodo acolheram-me e, no entanto, minh'alma atormenta-se com o fragor das estrondosas borrascas transfinitas, a oeste de Kandahar... nas infindas elipses de suas epifanias sensoriais, Emina e Zibedea enovelam-me, mas a cavilar continuo, vagando pelos miasmáticos planaltos oníricos a oeste..., sim, a oeste de Kandahar... à sombra cinérea de diáfanos, evanescentes fragmentos de remotas batalhas, Amir ul-Momineem, áureo Senescal das Legiões Quânticas, abençoa e inspira nossos devaneios a oeste de Kandahar... o severo Ten. Drogo, venerável confrade nas colossais refregas Transfinitas, contempla, outonal, os fosfóricos crepúsculos que se dissolvem nas planícies tartáricas, e da policromia de sombras nos contrafortes do Bastiani, sonha com rutilantes miríades de Shantaks, a oeste de Kandahar...

(continuará...?)


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Envoltos nas metíficas emanações das sulfurosas madrugadas afegãs, nossas brumosas efusões de quimeras e solilóquios se espargem numa rutilante policromia de caleidoscópios oníricos, e as veredas labirínticas da Sierra Morena se dissolvem nos miasmáticos contrafortes do Bastiani, os delíquios sinuosos de Emina e Zibedea evocam a melancolia evanescente de Maria Vescovi, e as espectrais hordas tartáricas precipitam-se em sua cavalgada cinérea sob a égide de Zoto, o Enforcado...

A meu lado, em austero silêncio, o crepuscular Ten. Drogo entrega-se, creio, a cavilações do mesmo jaez; cientes, ambos, de que, célere, de nossa jornada o termo final se aproxima, e de que, no da Eternidade abismal oceano, imersos logo est.....a........rem..............................


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MONÓLOGO CIRCULAR

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..?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?.......?......?...
....?........?........?........?......., ao longo destes largos corredores, plenos de luz e sombra, de terror e magia, destas torres silenciosas, destas salas desertas, seqüências intermináveis de eventos intermitentes, sucessão de vagos fragmentos de lembranças olvidadas..., destas ruínas helênicas, sóbrias, imponentes, vácuos onde a luz dos séculos se desintegra em reflexos crepusculares, desta miríade de gárgulas inumanos, destes átrios insondáveis, sim, vórtice abissal de muitos, milenares passos em direção ao infinito....., ao longo destes labirintos, espelhos, espectros, delírios, presságios, penumbras, epifanias, minha mente se vê emaranhada na armadilha da memória, sorvedouro cósmico de passados e futuros dissolvidos na eternidade do instante, Aleph caleidoscópico do Universo visto em um grão de areia, curvatura infinita do espaço-tempo onde a existência se contrai no espasmo de um segundo, entropia crescente que pulveriza o transitório em incontáveis partículas de eternidade, galáxias de luz, tempo e tempestade, eterno retorno de sombras imemoriais, sim, moléculas de Deuses extintos, fragmentados em sonhos, lembranças do futuro, vaticínios do passado, assim como ainda ocorre nos rios de Heráclito, nos labirintos do Bokari, na Escritura de Deus, e também nos majestosos palácios de Mariembad, e talvez, quem sabe, nos de Frederiksbad, onde as...............................................................

................... o re....t...o....rno. O longo e doloroso regresso. No início, apenas sons vagos e fluidos, ressonâncias longínquas de eras glaciais, murmúrios sussurrantes de vozes há muito esquecidas, o não-ser transformando-se no demoníaco enigma do existir, encarnação do "É", Caos da explosão inicial, caldo primordial dos aminoácidos da memória, tragédia tragicósmica-cosmicômica do ser encarcerado pela eternidade, tempo passageiro do que nunca existiu, prodígio das dimensões recônditas de um universo em vagarosa expansão, metamorfose múltipla do corpo do DEUS..., a seguir, imagens, íncubos das profundezas do tempo redescoberto, diáfana sinfonia de reflexos luminosos, etéreos vapores coloridos compondo um ballet translúcido de devaneios em forma de dríades, sílfides, naíades, orestíades, Ó dança sagrada das almas!!!......., DEPois............ gradual, pausada, lentamente, a consciência, a memória, prolongado retorno de um sono secular, profunda letargia do inconsciente, dimensão ignota do esquecimento humano, paradeiro ignorado do ser, sim, agora começo a lembrar-me de que houve algo, de que factos já aconteceram, efêmeros, fugazes, por vezes reais, eventualmente imaginários, pálidos efeitos da transcendência de um Topos Uranus inatingível, mas...., sim, houve algo, alguma vez houve olhares, acenos, sorrisos, gestos, afagos, ou ainda carícias, beijos, abraços, talvez até mesmo paixão, amor, amizade, lealdade, quem sabe pureza,justiça, solidariedade............. e houve, eu me lembro agora, porventura apenas uma vez, algum vislumbre de mudança, uma oportunidade, a alternativa real de uma possibilidade de.....................................................

..................., hoje, implacável, do desassossego a treva desvelou-se sobre mim, eterna melancolia ancestral, sem possibilidade de resgate ou redenção, a morte na alma irrealizada, o desejo compulsivo em sucessivas vagas que desagüam no caos, tudo inexprimivelmente morto, árido, desértico, silêncio da memória em busca de sementes que não germinaram, pulsão de vida desintegrada em milhares de pequeninas mortes que, infinitas, se prolongam, espírito fragmentado em lancinantes urros de dor que se desvanecem no vácuo do esquecimento, sim, vestígios das imemoriais borrascas do tempo, da do desalento interminável calmaria véspera sombria, eterno retorno de espectros que na alma não encontram perene sepultura, condenados a errar inclementes por intermináveis labirintos, a caminho da ruína transfinita, miríade de horrores na aurora das eras glaciais, desagüando, translúcidos, ao longo desses longos corredores, plenos de luz e sombra, de terror e de magia, dessas salas desertas, seqüências intermin ........?........?........?........?......
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* O disco, tal como foi lançado em 1971 na Alemanha, não possuía de facto nome algum; os entusiastas e a imprensa locais, no entanto, passaram logo de saída a denominá-lo Clear ou Clear Album pq a capa original da primeira edição era uma transparência feita a partir da radiografia de um punho (Faust = 'punho' em alemão). O título 'oficioso' tb foi adotado pelo grande historiador kraut Julian Cope, o que acabou, de certo modo, por consagrar esta denominação entre os faustianos viscerais, como este tresloucado escriba que vos 'escrevinha'.




Alfredo Rubinato Rodrigues de Sousa