
Alemanha, 1973.
Músicos:
Arnulf Meifert / bateria, voz
Werner Dermeier / bateria, voz
Hans-Joachim Irmler / órgão elétrico, voz
Gunter Wusthoff / sintetizadores, saxofone,
voz
Rudolf Sosna / guitarra elétrica, teclados,
vocais
Jean-Herve Peron / baixo elétrico, vocais
Faixas:
01) Exercise 1 (0:52)
02) Exercise 2 (0:21)
03) Flashback Caruso (4:01)
(aka
Silver Machine / Flashback Caruso)
04) Exercise 3 (1:48)
05) J'ai Mal Aux Dents (7:14)
(aka
Party 2, Schempal Buddah)
06) Untitled 1 (1:03)
07) Untitled 2 (1:42)
08) Dr Schwitters #1 (0:25)
09) Exercise 4 (1:11)
10) Untitled 3 (1:18)
11) Untitled 4 (0:50)
12) Dr Schwitters #2 (0:49)
13) Untitled 5 (1:03)
14) Untitled 6 (0:47)
15) Untitled 7 (1:33)
16) Untitled 8 (2:18)
17) Untitled 9 (0:34)
18) Untitled 10 (0:51)
19) Untitled 11 (1:15)
20) Untitled 12 (2:28)
21) Untitled 13 (0:20)
22) Untitled 14 (1:13)
23) Untitled 15 (0:59)
24) Stretch Out Time (1:35)
(aka Do
So, Stretch Out)
25) Der Baum (3:49)
26) Chère Chambre (3:07)
(aka Viel
Obst, Viel Obst)
|
Faust
The Faust
Tapes
Dados da resenha:
Autor:
Alfredo RR de
Sousa (Steve
Albini);
recebida em:
24/03/2006.
Comente e veja outras opiniões
aqui.
Já declarei amiúde neste
fórum minha predileção especialíssima pelo Faust,
mas creio que ainda não detalhei a razão
principal de meu sempre crescente fascínio pela
banda. Pois bem: tal encantamento se deve
sobretudo ao facto de que a lendária formação
germânica logra conjurar, sempre com
naturalidade e fluência, o mais perfeito
equilíbrio dinâmico entre RUÍDO e POESIA, CAOS e
LIRISMO, TERROR e HUMOR. Assim sendo, temos, por
exemplo, em
Miss
Fortune (que encerra o
Clear Album),
ao fim e ao cabo de violenta tempestade sonora
de microfonias elétricas, cânticos sinistros e
pirações eletrônicas, um lírico recitativo a
duas vozes em compasso de trovar medieval,
rematado de forma evocativamente enigmática
pelos belíssimos versos "...and
at the end realize that/ nobody knows/ if it
really happened";
So Far,
emanação mais freneticamente
acid rock
da banda, culmina com
...In
the Spirit, número a um só tempo cômico e
poético, em ritmo de
cabaret/music
hall lisérgico;
Faust Tapes,
por seu turno, apoteose da desorientação
fragmentária
kraut, apresenta peças como
Der
Baum, cíclica paisagem de tambores
esparsos, cordas minimalistas e vozes em
superposição entoando, em mesmerizante hipnose,
uma apologia a um só tempo plácida e inquietante
à tranqüilidade doméstica.
Há que salientar que um disco tão brilhante e
emocionante quanto
Faust Tapes
realmente desafia minha capacidade de análise:
não sei bem o que dizer sobre ele, e temo
perpetrar um aluvião de asneiras em quaisquer
tentâmenes que venha a levar a cabo; não
obstante, consoante estabeleci antes, o álbum em
tela é sem dúvida o ápice da banda em termos de
desconstrução metalingüística não somente do
rock’n’roll,
mas do próprio parâmetro de linearidade inerente
à música ocidental. Assim sendo, não importa
para nossos admiráveis terroristas sônicos
estabelecer um fluxo discursivo contínuo e
coerente, mas sim conjurar caóticas miríades de
micro-narrativas musicais transfigurando vozes
abissais, desvario eletrônico, ruídos
ambientais, pastiches variados e anarquia
infrene, para então fundi-las, subvertê-las,
desintegrá-las e reconstituí-las numa espécie de
nebulosa em permanente metamorfose.
Isto posto, alguns bons anos de atenta e
apaixonada audição das epifanias faustianas me
levaram a compreender melhor aquele que talvez
seja o grande 'segredo' desses teutônicos
geniais, mormente do álbum em tela: a beleza
extraterrestre que emana de suas passagens
melódicas. Se antes me fascinavam sobretudo os
momentos de dadaísmo sônico dos arcanos
kraut,
isto é, o terrorismo fragmentário das colagens
noise e
das justaposições imprevisíveis, hoje constato
quão importante é para o efeito global da banda
o contraponto onírico de seus momentos mais
serenos, justamente pelo facto de que o
ethos
alienígena que caracteriza o Faust neles se
processa de uma forma sutil e envolvente.
Tomemos em consideração, por exemplo, a faixa
Flashback Caruso, uma sedutora balada de
modulações
psych folk gradativamente pervertida por
drones
agônicos de moog, num magistral efeito de
estranhamento progressivo; ou então a
maravilhosa
Chére
Chambre um surreal monólogo em
stream of
conciousness de Jean Hervé Peron,
embalado por bucólicas tramas de violões, onde a
críptica, alucinatória ambiência do poema em
prosa colide / irmana-se com o caráter
meditativo e plácido da música que o acompanha.
* capa original da primeira edição em vinil,
pela Virgin na Inglaterra.
|