
EUA, 1984.
Músicos:
Bruce Loose / baixo elétrico, vocais
Will Shatter / vocais, baixo elétrico
Ted Falconi / guitarra elétrica
Steve De Pace / bateria
Faixas:
1) Way Of The World (4:33)
2) The Lights, The Sound, The Rhythm, The Noise
(4:59)
3) Shed No Tears (5:59)
4) Love Canal (5:41)
5) Ha Ha Ha (4:03)
6) In Your Arms (5:25)
7) Life Is Cheap (5:44)
8) In My Life Friend (4:34)
9) Get Away (4:40)
10) Life (4:28)
11) Sacrifice (4:20)
12) If I Can't Be Drunk (6:36)
13) Ice Cold Beer (4:29)
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Flipper
Blow’n Chunks
Dados da resenha:
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aqui.
Os norte-americanos do
Flipper não foram a primeira banda a elevar a
insuportabilidade latente desde os primórdios do
rock’n’roll
a seu state of
the art; tampouco foram os que a tal
mister imprimiram maior radicalismo. Podemos,
todavia, afirmar que foram decerto os que
lograram tal feito com menos recursos, bem como
também desprovidos de qualquer pretensão
‘artística’(os avantêsmicos Electric Eeels, de
Cleveland, poderiam ser citados como pioneiros,
mas a meu ver seu
protopunk
‘grandguignolesco’ envolvia, ainda que por vias
transversas, uma certa dose de arrogância e
pretensão). O facto é que entre 1979 e 1985
Bruce Lose (vocais, baixo), Will Shatter (baixo,
vocais), Ted Falconi (guitarra elétrica) e Steve
de Pace (bateria) subverteram completamente os
postulados do
punk hardcore norte-americano: num
cenário onde a não raro improfícua busca pela
maior velocidade era a grande meta, a banda
deliberadamente desacelerou ao máximo sua música
em compasso de mórbido pesadelo
slowcore,
soterrando-a sob toneladas de microfonia num
charco de areia movediça formado por
mastodônticos
drones de baixo, assim forjando uma
espécie de
noise rock brutal, inclemente e
hipnótico; para usar a irônica analogia de um
crítico do NME, um “Black Sabbath para machos”,
trocando afetação teatral por descargas
concentradas de agressão serial. Não obstante,
uma porção significativa de sua
insuportabilidade advinha do caráter intratável
de seus integrantes, que cultuavam um
ethos
existencial pejado de niilismo auto-destrutivo
numa relação simbiótica com o fascínio / repulsa
da audiência. Flipper sempre jogou com extremos,
com o irresistível impulso de 'desarrumar o
arrumado', 'deixar o vagão correr solto', sempre
encontrando mórbido prazer em violar todos os
parãmetros do 'bom senso' estético, alojando-se
com misantrópica disposição numa dimensão
paralela violenta e inóspita, esfera de
extravagante alienação voluntária e
desorientação militante, encarnando destarte a
'grande recusa', para lançar mão aqui de um
termo de Marcuse.
Fõssemos optar por um caminho racional, o álbum
a ser resenhado seria o genial
Generic Flipper
(1982), onde o avassalador
sludgecore
noise rock dos caras encontra sua mais
rigorosa e sólida manifestação; todavia, ao
falar sobre um fenômeno como o Flipper, não há
como adotar o caminho mais plausível sob
hipótese alguma! Ademais, como não é difícil de
se imaginar no âmbito da tortuosa lógica que
rege all
things Flipper, o contexto ideal para que
o Théâtre de
la Cruauté flipperiano pudesse florescer
com maior impacto era o palco: nossos heróis já
entravam em cena invariavelmente ‘chapados’ e
agredindo a platéia; e para piorar as coisas (ou
melhorar, who
knows...
),
de propósito ralentavam o andamento de suas
canções, irritando ao máximo uma platéia
habituada ao esquema habitual do
hardcore.
Álbuns como
Public Flipper Limited Live 1980 - 1985
(1986) e Blow’n
Chunks (1984), que será o objeto desta
nossa resenha, felizmente conseguem nos
transmitir uma idéia do que foram tais rituais
de caos sonoro e devastação existencial, no caso
em tela registrados a 18/11/1983 no CBGB'S, um
dos clubes mais mitológicos de Nova York.
Consta que no primeiro
set da
noite o Flipper apresentou-se ‘normalmente’,
muito embora com uma agressividade e descaso
pelo que estava sendo tocado ainda mais
desafiadores que o habitual; brigas eclodiram na
platéia, ofensas foram trocadas entre
espectadores e membros do grupo, o que no
entanto já era mais do que costumeiro em seus
shows. Com o retorno para o segundo
set
(prática comum em concertos
underground)
horas mais tarde, entretanto, a coisa mudou de
figura, assumindo contornos a um só tempo
macabros e fascinantes: inacreditavelmente
bêbados, drogadaços e exaustos, bem como tocando
divinamente mal, os dementes arrojaram sobre a
audiência uma espécie de
jam
atonal, caótica e informe, onde a muito custo
poderiam ser identificados trechos de
Ice
Cold Beer,
Love
Canal,
Sacrifice,
Ha Ha
Ha e quiçá da clássica
Louie
Louie, dos Kingsmen. A massa sonora
tornava-se a cada minuto mais lenta, arrastada e
catatônica (like
a cassette player with dying batteries,
na brilhante descrição d'uma testemunha), em
níveis absurdos de distorção e barulho, e o
grupo não parecia nada disposto a encerrá-la. O
público, por seu turno, entre furioso e
embevecido, esbravejava horrores, arrojando um
maremoto de objetos sobre o palco, até que um
punhado de
punks mais indignados/alucinados decidiu
descer o cacete na banda; com o pugilato rolando
solto na ribalta e na platéia, poucos notaram
que o baixista Will Shatter, por acaso recolhido
a um canto, continuou despejando aterradores e
ultra-saturados
riffs
de baixo. Quando a ‘tempestade’ amainou, com
corpos a nocaute para todos os lados, alguém
enfim notou a arrasadora performance de Shatter,
e bradou: hey,
folks, look at that fucking bastard up there!.
Alguns então começaram a aplaudir, e logo o
clube inteiro foi abaixo numa tonitruante salva
de palmas, causando espanto ao próprio músico,
que enfim despertou de sua
trip
particular.
Caos, aventura, risco, anarquia,
imprevisibilidade, loucura, agressão, epifania,
êxtase: eis, meus caros confrades, a vera e
incandescente matéria em que se forja a essência
maior do
rock'n'roll, ilustrada à perfeição pelo
Flipper; ou, como nos diz lapidar
slogan
da formação californiana:
Flipper
suffered for their music - now it's you turn.
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