Holanda, 1972.


Formação:
- Jan Akkerman / Guitarra elétrica, Violão, Alaúde.
- Bert Ruiter / Baixo
- Pierre van der Linden / Bateria e Percussão
- Thijs van Leer / Vocal, Órgão Hammond, Piano, Cravo, Flauta transversal, Pícolo


Lista de músicas:
1. Round Goes the Gossip (5:12)
2. Love Remembered (2:50)
3. Sylvia (3:31)
4. Carnival Fugue (6:09)
5. Focus III (6:05)
6. Answers? Questions! Questions? Answers! (14:03)
7. Anonymous Two (Part 1) (19:28)
8. Anonymous Two (Conclusion) (7:30)
9. Elspeth of Nottingham (3:15)
10. House of the King (2:23)

Duração total: 67:09


Focus

Focus 3

 
Dados da resenha:
Autor: Anderson Ziemmer (Ziemmer); recebida em: 17/12/2005.
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No período de 1970 a 1975, o Rock Progressivo mundial viveu seu mais esplêndido, coeso e produtivo período de existência, e mesmo ainda estando em desenvolvimento naquela época, foram feitos naqueles anos a maioria dos discos de progressivo que se tornaram obras-primas do estilo. Aqueles tempos eram de mudança (já que o mundo todo sofria descobertas e alterações políticas, religiosas, ideológicas e mesmo econômicas), e talvez graças a isso, os músicos que procuravam inovar em sua arte encontravam apoio das gravadoras, do público e até mesmo dos críticos. Ou seja, o período era favorável ao bom uso da arte, e muitos grupos souberam aproveitar sua chance para nos brindar com obras que com certeza sobreviverão à passagem do tempo. E o Focus 3 não é uma exceção ao caso. A banda passava por um período transitório, já que (por motivos que desconheço) a cozinha sofria alterações, onde o baixista Cyriel Havermans (aquele competente músico que fez as inconfundíveis linhas de baixo de Eruption no disco anterior) tinha sido substituído por Bert Ruiter. Apesar disso, o lendário Pierre Van Der Linden ainda manobrava as baquetas, e como o novo baixista era tão competente quanto o anterior, a banda se manteve muito bem entrosada e dinâmica, o que se percebe já numa primeira audição, mesmo que superficial. Enfim, vamos às músicas!!

O disco é aberto com Round Goes the Gossip, que começa com uma introdução simples, mas inteligente na bateria. Aos poucos a melodia vai surgindo, com aquele estilo incomum e bem atípico do Focus, com todos os membros se mostrando ativos, mas de maneira mais comportada. Digo mais comportada porque ao compararmos Round Goes The Gossip com a “porrada” ensurdecedora que foi a abertura do disco anterior, o hino Hocus Pocus, podemos notar uma boa diferença de peso. Após um tempo a música fica mais leve, com Van Leer cantando notas agudas e sutis, com efeito de eco, sendo acompanhado pelo baixo e por acordes leves no órgão. Mais pra frente a música surpreende, quando de repente, como depois de uma injeção de adrenalina, ela toma um andamento rápido e agressivo que dá o fundo para surpreendentes solos de Thijs Van Leer e Jan Akkerman (se pronuncia Ian, pois o sujeito é holandês, ok?). A cada “rodada”, Van Leer mostra sua competência nas teclas do Hammond, e Akkerman apavora com solos apuradíssimos na guitarra limpa, num estilo bem jazzístico, semelhante ao do “monge” inglês John Mclaughlin. Após esse tapa na lata de qualquer um, a música retoma o andamento do começo e termina num padrão melódico que sobe de tom em tom, com Van Leer gritando cada vez mais agudo “Round Goooooeeeess”... Loucura total!!

A faixa Love Remembered introduz aquele lado mais “balada” do Focus, que neste disco está simplesmente único. Nesta música, a flauta é que exerce o “papel principal”. Thijs entra com uma linda e triste melodia na flauta, acompanhado por Akkerman dedilhando o violão com classe. Uma faixa calma e mais acústica, com uma estrutura semelhante a da belíssima Janis do disco anterior. Love Remembered com certeza nos mostra que uma banda de Rock pesado pode sim fazer baladas e músicas lentas com qualidade e categoria, pois mesmo sendo curta ouso dizer que ela é capaz de despertar sentimentos profundos, como se nos relembrasse de um amor passado.

Sylvia é um dos grandes clássicos do Focus, e sempre é pedida nos shows da banda. E não é à toa que muitos a pedem!! Os primeiros acordes de guitarra, com um ritmo contagiante, já “avisam” o ouvinte que coisa boa está por vir. Outra vez, o Focus nos mostra que é possível e viável fazer músicas não tão “porradas” e mesmo assim envolver e tocar o ouvinte, pois Sylvia ao mesmo tempo em que tem um andamento rítmico bem marcado, apresenta belas e atípicas progressões de acordes no órgão (em escala menor melódica, pra quem entende o que é isso, hehehehe), acompanhadas por uma melodia simples de guitarra, mas que se encaixa perfeitamente no contexto. Aliás, tudo nela parece se encaixar de um modo maravilhoso, mesmo perante o fato de ela ter uma complexidade musical considerável. Uma faixa única, que deve ter deixado lisonjeada a tal Sylvia que era amiga da banda. Ao menos eu, se fosse Sylvia, ficaria no mínimo emocionado com tal homenagem!!

Carnival Fugue começa com belos e incomuns acordes de piano, acompanhados pela guitarra e a bateria que surgem em curtos momentos, como se respondessem à frase do piano. Em seu começo, a música se resume a isso, algo até que simples, mas belo. Mas logo em seguida, os acordes de piano se tornam “instáveis” e atonais, mudando a cada tempo. Agora a banda toda toca junta em ritmo lento, dando fundo para os acordes malucos de Van Leer, num movimento que lembra uma caminhada ou marcha. Logo após, o andamento acelera um pouco e a melodia muda, assumindo um caráter mais festivo e alegre, onde se pode ouvir de fundo o som agudo do pícolo (uma flauta mais aguda, que lembra um assovio), seguindo assim até o final. Mais uma faixa que demonstra versatilidade e criatividade dos músicos do Focus.

Focus III, a música título do disco, é uma obra pelo menos incomum. Seu início apresenta uma melodia sutilmente séria, porém bela. Nesta viagem, quem dirige é a guitarra limpa de Jan Akkerman, que através de efeitos de volume consegue sons que lembram um instrumento de sopro. O órgão e o baixo fornecem indispensável apoio à guitarra, formando harmonias muito interessantes que mudam aqui ou ali a cada vez que são tocadas. Algo importante a ser citado, é que a música tem um caráter rítmico quase dançante, mais ou menos como se fosse um tango adaptado às diferenças de uma banda de rock. Mas leitores, peço a vocês que usem suas capacidades de interpretação, pois a comparação com o Tango é simplesmente uma mera comparação, já que é praticamente impossível transcrever uma música e os sentimentos que ela proporciona em palavras ditas ou escritas; e posso lhes garantir que não terão vontade de dançar um tango ao ouvi-la!! Enfim, Focus III é uma música bela, mas séria, triste, mas contagiante, que só músicos com criatividade, capacidade de adaptação e um amplo conhecimento de sua área saberiam fazer.

Answers? Questions! Questions? Answers! apresenta um outro lado bastante memorável do Focus: a improvisação. Em seus quase 14 minutos de duração, é possíveis perceber loucura, plenitude, tempestade, calmaria, e uma série de opostos em meio as constantes mudanças que há nela. Pode-se notar que há um “planejamento” na música, pois há partes distintas nela, cada uma com melodia, ritmo e caráter diferentes. No começo há uma frase tocada no baixo, que “arrasta” os outros instrumentos, que fazem variações em cima dessa frase, alternando solos improvisados. Depois de um tempo o andamento muda, se tornando um Blues melódico e belo, que vai se tornando mais denso e pesado aos poucos, com os improvisos de guitarra, flauta e órgão, fazendo um “zigue-zague” de melodias e frases. Próxima do fim, a música volta a ser mais leve e calma, com Jan Akkerman mais uma vez usando os efeitos de volume na guitarra. Enfim, uma faixa bastante interessante e que nos mostra um outro Focus, dessa vez mais voltado para o Jazz.

Em Elspeth of Nottingham, somos praticamente transportados para um passado distante, como se fôssemos trovadores tocando para um Rei em seu castelo, ou como se fôssemos aldeões vivendo em algum lugar campestre do interior da Europa, há centenas de anos atrás. Digo isso, pois nessa faixa é que Jan Akkerman usa um instrumento medieval chamado Alaúde, que é considerado um dos ancestrais do violão, embora tenha mais cordas e possua um formato diferente. O alaúde possui também um timbre maravilhoso, mais grave e mais aveludado que o do violão. A flauta de Van Leer aparece em poucos momentos, traçando uma melodia que se encaixa muito bem no contexto “pastoril”. Talvez por isso, ouvir essa faixa é quase como se sentir em meio aos animais do campo, às arvores e montanhas, ou seja, numa situação incomum em nossos dias. Enfim, essa música chega a ser bucólica, e mais uma vez um músico de rock mostrou ser criativo e autêntico para introduzir um trabalho com moldes medievais em um disco que era moderno para a época. Vale ressaltar que ninguém até então tinha realizado tal proeza (gravar uma música tipicamente medieval num disco de Rock Progressivo) e por isso mesmo, Jan Akkerman merece ser devidamente lembrado e bendito.

Anonymous Two... talvez o mais extenso e ambicioso trabalho feito pelo Focus até então. Extenso porque essa música tem ao total mais de 26 minutos de duração e toma quase 2 lados inteiros do segundo disco. E ambiciosa pois em suas 2 partes, ela é basicamente composta de improvisos de cada instrumento, enormes e repletos de mudanças e variações. Sua primeira parte, Anonymous two (part 1), começa com uma melodia bem parecida com a de House of king, embora mais acelerada e pesada. Esse andamento continua semelhante por bastante tempo, onde começam a surgir sessões de improviso dos talentos de Thijs Van Leer. A flauta é a primeira, onde nosso amigo multifuncional mostra conhecer uma técnica semelhante àquela famosa de Ian Anderson: fazer uso da voz para conseguir notas mais graves que a da flauta, e com um efeito assoprado. O curioso é que Van Leer se usa dessa técnica para fazer também alguns gritos e ruídos engraçados, como se estivesse com falta de ar.
Logo depois surge o órgão Hammond, com seu som inconfundível e aconchegante. Van Leer mostra estar mais afiado do que no disco anterior, “andando” por todo o instrumento e fazendo maluquices de todo o tipo, como por exemplo, uma variação rítmica chamada de “loco”, onde durante certo tempo, o músico toca fora do tempo.
Quando chega a vez do baixo, tudo muda. A banda literalmente pára, e Bert Ruiter começa com solos lentos no baixo. Mas aos poucos, juntamente com a banda que vai voltando à tocar, melodias e frases vão surgindo, e Bert Ruiter mostra porque mereceu substituir Cyriel Havermans.
Como a banda já voltou à tocar num ritmo diferente, chega a vez de Jan Akkerman (que se “preparava” para entrar em ação à pouco, fazendo bases bem marcadas). Solos, solos e mais solos são tocados pelo nosso holandês de nome estranho, que passeia por toda a extensão do braço da guitarra, fazendo tudo que lhe dá na telha. Ele também nos mostra que sabe alternar velocidade e “feeling” muito bem.
A primeira parte da música termina com uma mudança drástica de ritmo e melodia, já dando início ao improviso de bateria. A segunda parte, Anonymous two (conclusion) começa com as loucuras de Van Der Linden na bateria. Ritmos quebrados, velocidade, mudança constante de dinâmica e efeitos múltiplos, que fazem Pierre parecer um polvo!! Aos poucos a velocidade vai diminuindo, mudando de andamento e revelando mais insanidades na percussão do Focus, agora em ritmos ternários. Ao fim da loucura, a banda volta a tocar toda junta, num andamento semelhante ao tocado antes do solo de bateria. Quando tudo se acalma, a melodia principal volta mais uma vez, com curtos solos de guitarra. A melodia vibrante continua por mais um pouco, quando a música finalmente acaba.
Por fim, Anonymous two mostra uma competência incontestável dos músicos do Focus no quesito improviso, pois mesmo sendo gigantes, os improvisos têm sentido e não cansam, nem enjoam.

House of the King é na verdade uma faixa gravada e lançada no 1° disco do Focus, mas que foi relançada no Focus 3. Os integrantes não eram todos os mesmos, pois o baixista ainda não era nem Cyriel Havermans, e as baquetas na época não eram dominadas por Van Der Linden. Por tanto é possível perceber uma diferença no som, e mesmo no nível técnico dos integrantes. Mesmo assim, a faixa é bastante interessante. Van Leer inicia a melodia, com duas flautas fazendo um contraponto muito gostoso de se ouvir. Palmas aparecem aqui e ali, com um afeito de eco que as fazem “andar”, se a reprodução da música for em estéreo. Logo depois o violão entra com acordes rápidos, e a melodia da flauta continua semelhante, mas o ritmo muda, e a banda entra tocando junto. Tudo parece uma festa medieval, como se estivéssemos mesmo na casa de um Rei, em meio à uma celebração, e as palmas de fundo contagiam como se a música fosse uma dança típica. Logo depois, tudo fica mais “moderno”, e Jan entra tocando seu solo, que é muito bem bolado por sinal. Depois tudo volta à “festa”, para então acabar de vez. Uma faixa curta, porém interessante, mesmo por que ela nos dá uma idéia do que viria a se tornar o Focus uns três anos depois.

Minhas considerações finais são que: o Focus 3 é um álbum imprescindível para os fãs do Focus, e também para os fãs de progressivo em geral. Digo isso, pois neste disco duplo é possível encontrar música medieval, jazz, rock pesado, baladas, música erudita, entre outras coisas. Pode-se chamá-lo de megalomaníaco, belíssimo, pesado, sutil, carismático, tocante, audacioso, dissonante, romântico e outras coisas mais, de tão abrangente e ilimitado que ele é. Tudo banhado e complementado por categoria, criatividade, dinamismo e autenticidade. Infelizmente, o álbum acabou não gerando grande sucesso nas rádios, e o único single que obteve boa repercussão foi Sylvia. Mas cá entre nós, todos sabemos que um bom trabalho muitas vezes passa batido pelos críticos e pela mídia, mas não pelo público. Por isso mesmo o Focus 3 com certeza quebrou paradigmas em seu tempo, mas também com certeza enfrentou preconceitos e caras feias ao ser ouvido. Mas a ousadia sempre choca e perturba, e a competência também. Na minha opinião o Focus 3 faz parte da melhor fase da banda, e para mão dizer que se trata do melhor disco, com certeza é um dos melhores lançamentos do Focus nos anos 70. Ouça você também, surpreenda-se você também, viaje você também, e ame-o você também... vale a pena!!