Inglaterra, 1980.


Phill Collins: bateria, vocais, bateria eletrônica
Mike Rutherford: baixo, guitarra e vocais de apoio
Tony Banks: teclados, vocais de apoio e guitarra de 12 cordas


Músicas:
1-Behind the Lines (Banks/Collins/Rutherford) 5:43
2-Duchess (Banks/Collins/Rutherford) 6:25
3-Guide Vocal (Banks) 1:21
4-Man of Our Times (Rutherford) 5:34
5-Misunderstanding (Collins) 3:13
6-Heathaze (Banks) 4:57
7-Turn It On Again (Banks/Collins/Rutherford) 3:46
8-Alone Tonight (Rutherford) 3:54
9-Cul-de-Sac (Banks) 5:06
10-Please Don’t Ask (Collins) 4:00
11-Duke’s Travels (Banks/Collins/Rutherford) 8:39
12-Duke’s End (Banks/Collins/Rutherford) 3:08


Genesis   

Duke

 
Dados da resenha:
Autor: Rômulo Garcia (Blackflame); recebida em: 01/04/2005.
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Há quem diga (principalmente os fãs do Genesis) que a banda começou a simplificar seu som e torná-lo mais acessível, ou seja, mais pop, com a gravação do álbum anterior a esse que está sendo aqui analisado, ...And The There Were Three...(1978), somente por causa do hit "Follow You, Follow Me" e de outras que denunciam esse tipo de posicionamento musical, como "Undertow" e "Many Too Many". No entanto, a meu ver, deste álbum de 78 até o fraquíssimo Abacab (1981), eles ainda continuam elaborando músicas que ainda podem ser consideradas progressivas de fato, com a famigerada fase exclusivamente pop do grupo começando com o lançamento do álbum Genesis (1983) (mesmo com a excelente suíte "Home By The Sea", o álbum é todo composto de hits radiofônicos como "That's all" e "Illegal Alien") e atingindo seu auge com Invisible Touch (1985). É dessa época a tão escandalosa frase de Phill Collins, na qual ele anuncia morrer de amores pelo rock progressivo, mas que o importante agora é sustentar a família, com isso demonstrando o Genesis como uma das primeiras bandas de rock que "se vendeu para a mídia".

É no álbum Duke que começa o flerte entre o pessoal do Genesis, agora de fato liderado por Collins, com a música pop, elaborando hits um atrás do outro. Se com "Follow You, Follow Me" já denunciava isso, a evidência se torna mais clara a partir desse álbum, com as canções "Turn It On Again" e "Misunderstanding" atingindo o topo das paradas de sucesso nos EUA e na Inglaterra. Ressalto essa questão da posição de Collins como o líder da banda devido ao fato de que a música feita em sua carreira solo, que só começaria em 1981 com o álbum Face Value, é bastante parecida com a proposta musical da banda nesse momento, se diferenciando que essa liderança não era algo imposto, com os outros membros da banda participando da composição das músicas. Porém, não é só Collins que influenciava: Mike Rutherford também estava envolvido em projeto solo relacionado com uma sonoridade mais acessível, com sua banda Mike & The Mecanics, lançando, no mesmo ano de Duke, seu disco de estréia Smallcreeps Day. Com isso, a situação na banda seria a de 2x1, prevalecendo mais o lado pop da carreira desses dois músicos, porém sem abrir mão do talento de Tony Banks que, através de seus teclados e suas composições, transmitem um ar de nostalgia e saudosismo, chegando até a relembrar os dias de glória da banda, seja na fase com Peter Gabriel, seja no período entre o Trick Of The Tail (1976) e o Wind & Wuthering (1977), em que Steve Hackett ainda estava presente. Por isso esse caráter diverso das composições, diferente do período com Gabriel, em que todas as canções eram consideradas composições coletivas.

Mas ainda sim, porque considerar o Duke como sendo um álbum progressivo? Tanto ele como o seu antecessor merecem crédito dentro da lista de bons álbuns de rock progressivo da banda, pois possuem canções que se apresentam com características que os denunciam como tal, como "quebradas" e variações de ritmo, recriação de temas instrumentais antes colocados dentro de outra ou na mesma música, letras reflexivas (mais no que diz respeito às composições de Banks), o aspecto conceitual da ordem das canções, linhas melódicas bem elaboradas (tal como manda a tradição do bom e velho progressivo sinfônico) e média de tempo de 6 minutos, pelo menos, em cada música. Exemplos é que não faltam: "Deep In the Motherlorde", "The Ballad Of Big", "Burning Hope", a dobradinha "Behind The Lines/Duchess/Guide Vocal", "Heathaze", "The Lady Lies", "Cul-de-Sac" e a estupenda instrumental "Duke's Travels" mostram que, nesses dois discos destacados, a banda não esqueceu suas raízes e mostram uma sonoridade coesa e magistral, coisa que iria diminuir no álbum seguinte, Abacab, em que somente a suíte "Dodo/Lurker" demonstra todas essas características que colocam o Genesis ainda como banda progressiva. É certo que esse posicionamento nunca foi esquecido, vide a já citada suíte "Home By The Sea" mais "Fading Lights" e "Domino", de álbuns posteriores; porém, aquele brilhantismo e aquela espontaneidade de tempos atrás não existiria mais, representando essas canções apenas a fagulha de um passado que não pode (e nem deve) ser desprezado.

Voltando ao álbum aqui analisado, a produção está impecável. A capa do álbum, mais os desenhos presentes em cada letra da música no encarte, foram feitos pelo desenhista Lionel Koechlin, mas não especialmente para ele: tudo foi retirado do livro infantil "L'Alphabet D'Albert" (O Alfabeto do Alberto), com a devida autorização, claro, do autor. O tal Albert do título desse livro é o sujeito colocado como Duke pela banda; na capa, é o rapaz parado na frente da janela, pronto para a "viagem" com sua Duchess, tal como o título de uma das músicas do disco. A produção foi feita pelo próprio conjunto com David Hentschell, que está no lugar de John Burns desde Wind & Wuthering. Duas curiosidades sobre a produção desse álbum: Hentschell também atuou no disco, mas como backing vocal; e as gravações foram feitas no lendário estúdio do conjunto pop Abba, o Polar Studios, na Suécia. Mas os ensaios continuaram sendo feitas na chamada "A Fazenda", um rancho utilizado pela banda para os ensaios e composições das músicas desde a época do Foxtrot (1972) e pertencente ao empresário deles, Tony Stratton-Smith. Mas, em breve, "A Fazenda" se tornaria o estúdio fixo da banda; prova disso é que as gravações do disco posterior a esse foram feitas lá.

Quanto à performance da banda, sem comentários: tudo está na perfeita ordem do dia. Phill Collins ainda surpreende os incrédulos e acéticos com sua técnica forte na bateria, mostrando que é bom não só no gogó; Mike Rutherford melhorou significativamente na guitarra, mostrando-se capaz de fazer bons solos e riffs, como em "Behind The Lines", "Duke's Travels" e "Misunderstanding"; e Tony Banks ainda continua fazendo climas intimistas e solos cósmicos com seus teclados, agora tudo se resumindo apenas em um órgão, um piano elétrico, um sintetizador ARP e Polymoogs (ou sintetizadores polifônicos), deixando definitivamente o bom e velho mellotron de lado (a última vez foi durante a excursão do "... And The There Were Three...", prova disso são as apresentações de 78 contidas no box Genesis Archives 2:1976-1992).

Sobre o disco em si, é certo que ele possui altos e baixos, porém existe um equilíbrio saudável entre músicas de qualidade e as músicas de apelo mais comercial, mais pop, como mostra cada uma das canções nele contidas:

"Behind The Lines": o disco abre com um choque: uma introdução da pesada, com todos os músicos dando tudo de si. A guitarra de Rutherford ganha destaque, com seus solos econômicos e precisos. Após esse momento, vem a parte mais calma, com Collins cantando letras que introduzem a "viagem musical" feita por Duke, quando ele encontra um livro falando sobre sua Duchess e, inesperadamente, como num passe de mágica, recebe dela um convite para esta jornada incerta. A parte instrumental, enquanto Phill está cantando, é cheia de "quebradas" de ritmo, que vão se dando na medida em que a letra é entoada. Ao final, a música fica mais calma, repete-se o riff da introdução e a percussão feita na bateria eletrônica vai se dando até que começa a próxima música, que é

"Duchess": a parte calma continua, agora com o piano e os teclados dando um clima intencional "new age", tendo em vista que é o início da jornada de Duke pelos caminhos de sua amada Duchess, cuja música sempre o agradava. Eis aí a questão: seria esse um meio que a banda encontrou para falar do declínio do rock progressivo na época? Na letra, falava-se que essa "duquesa", antigamente, entoava canções em que todos ficavam maravilhados, mas que, conforme o tempo foi passando, sua música foi se tornando tediosa e ninguém mais a apreciava com a mesma admiração de antes. Com isso, pode-se levar a conclusão de que a "duquesa" é a música progressiva, ou o próprio movimento do rock progressivo em si. Quanto à parte musical, se dá a mesma lentidão do começo, com os teclados proporcionando um clima ambiente, porém com a bateria conduzindo o ritmo da música. E assim vai se dando até que somente o piano elétrico reste solando no final, emendando com a próxima música,

"Guide Vocal": uma música bem curta, apenas para dar uma impressão de que a viagem de Duke continua mais adiante. A letra trata apenas do convite propriamente dito da Duchess para seu admirador Duke para a tal jornada. A parte músical é bem calma e intimista, apenas contendo os teclados de Banks e a voz de Collins, que atua realmente como guia vocal devido a tranqüilidade e a emoção passada pela sua voz.

"Man of Our Times": música totalmente predominada pelos riffs de guitarra de seu principal compositor, Rutherford, mais a batida firme e pesada de Collins e as "acrobacias tecladísticas" de Banks. Porém, é uma canção simples, centrada em um ritmo linear e no refrão de impacto. Mas a letra possui um atrativo interessante, pois ela busca retratar o "homem do nosso tempo", em que, de dia, uma pessoa completamente individualista e preso ao corre-corre do cotidiano, mas que, à noite, é outra pessoa, que pensa somente em curtir a vida o máximo que puder. São os anos 80, a década dos yuppies, do mundo descartável e da simples busca por diversão, isso ficando mais evidente dentro do cenário musical da época, salvo algumas bandas como U2 e Talking Heads, por exemplo, em que, apesar do aspecto simples de suas composições, ao mesmo tempo eram capazes de demonstrar complexidade.

"Misunderstanding": um cara que toma um tremendo "bolo" da sua paquera em pleno dia de chuva, enquanto de um orelhão tenta ligar para a casa dela, porém sem nenhum resultado, pois o telefone dela toca e ninguém atende: eis um belo começo para que a banda pudesse trilhar, de modo bem sucedido, o caminho do reconhecimento e do sucesso comercial e mundial. Hit absoluto na Inglaterra e nos EUA, "Misunderstanding", juntamente com "Turn It On Again", iria lançar o Genesis rumo ao estrelato. É uma música bastante simples e pretensiosa (financeiramente falando), porém é aonde o talento de Rutherford de elaborar bons riffs de guitarra fica mais evidente.

"Heathaze": segue a linha reflexiva e contemplativa típica das composições de Banks, que trata aqui sobre as desilusões da vida, em que sempre há situações da realidade que vão de encontro com os nossos planos e idealizações de vida, com isso resultando sempre em amargura e depressão caso não estejamos preparados para esses fatos. Os teclados e o piano elétrico é que predominam em toda a música, mas começando com a belo andamento do violão dedilhado, velha marca registrada da banda.

"Turn It On Again": mesmo com "Misunderstanding" nas paradas de sucesso, é essa música que mais se fixou no mercado e considerado o primeiro grande hit da banda. A história do rapaz apaixonado por sua musa televisiva preferida e que todos os dias sempre fica ansioso para vê-la na TV fez com que o grupo tivesse maior projeção mundial e decolasse rumo ao estrelato. O destaque fica por conta pelo refrão de impacto e contagiante e do riff principal de guitarra de Rutherford.

"Alone Tonight": começa aqui a seção "dor de cotovelo", em que melodias que nos remetem àquelas músicas românticas começam a dar as caras nesse álbum. A exemplo de sua correspondente anterior, "Follow You, Follow Me", essa música é mais para os casais apaixonados; nas letras, um sujeito que vive implorando por sua amada porque passa suas noites muito solitário e carente. Apesar de ser uma composição de Rutherford, o que mais predomina são os teclados de Banks, com suas frases melódicas de impacto.

"Cul-de-sac": uma expressão francesa que significa a presença de um fato natural dentro de nossa condição de ser humano que todos nós somos. A letra dessa canção parece se referir àquelas pessoas maltratadas na canção "Get'em Out By Friday", do álbum Foxtrot: a palavra de ordem que inicia a música - "Acordem, esse é o momento que vocês estavam esperando" - e expressões como "o inimigo agora se encontra encurralado com suas próprias armas" são dicas que demonstram essa sintonia e justificam a relação que há entre o enredo dessas canções. Mas também pode se referir ao preço do progresso, tal como mostra o desenho da chaminé que está perto do título da música na capa interna do álbum. Se em termos de composição a música é uma beleza, o mesmo pode se dizer da parte instrumental, que nos remete aos bons tempos da banda, quando esta fazia realmente um som progressivo, com os desdobramentos e vôos melódicos incríveis dos teclados de Banks, as "viradas" de Collins e a guitarra econômica e discreta, porém atuante de Rutherford. Uma das melhores músicas do disco.

"Please Don't Ask": "seção dor de cotovelo" parte II - A Vingança!!! Mais uma do repertório romântico da banda, com direito a todos os clichês do gênero que já foram colocados nos comentários sobre "Alone Tonight". Aqui o que muda é somente o enredo da letra, que trata sobre um sujeito divorciado da mulher que ainda é loucamente apaixonado por sua esposa e que sente muita saudade tanto dela quanto do seu filho (há boatos de que Collins fez a música inspirado na situação conjugal que estava passando naquele momento, mas não é certeza; o próprio Collins não se manifestou oficialmente sobre isso). Em suma, apenas para os momentos mais calientes entre os casais apaixonados.

"Duke's Travels": eis aqui o "filé mignon" do disco, apesar das boas composições que há antes dessa instrumental magnífica. É a retomada daquilo começado pela dobradinha "Behind The Lines/Duchess/Guide Vocal", porém de forma mais triunfante e mais bem elaborado. Seu começo é bem "new age", semelhante ao feito na "Unquiet Slumbers For The Sleepers...", do álbum Wind & Wüthering, porém com mais impacto, com os violões em fúria, o piano elétrico e o ataque nos pratos da bateria. De repente, vem a batida tribal da bateria de Collins, vindo bem depois o baixo, a guitarra rítmica e os incríveis solos de teclado de Banks, tudo como nos velhos tempos! Depois de várias e inspiradas mudanças rítmicas repentinas, chega o clímax da música, com batidas frenéticas, clima de "surpresa" transmitida pelos teclados e os solo conjunto de Rutherford e Banks em seus instrumentos, mas em tons diferentes. Eis que, bem no meio do solo e no mesmo ritmo, aparece Collins retomando os vocais, entoando novamente a letra de "Guide Vocal" de forma cativante, e assim prosseguindo a melodia até uma batida mais lenta, finalizando com um solo emocionante de teclados e, bem depois, com a retomada do clima da introdução da canção. Mas quando todo mundo pensa que acabou, surge...

"Duke's End": anunciada através de um solitário teclado simulando sons de flauta (não é o mellotron, sabendo que este também é capaz de tal efeito) que entoa a melodia de um dos refrões de "Behind The Lines", essa instrumental nada mais é que uma exploração mais aprofundada de dois temas anteriormente apresentados, que são a introdução bombástica da mesma "Behind The Lines" e o riff de guitarra do refrão principal de "Turn It On Again" (porém, tocada de forma mais lenta, com improviso de teclados e baixo), mas que encerra o disco com chave de ouro, com a certeza de que Duke (e todos que escutaram o disco) presenciou uma das maiores aventuras musicais de sua vida. Quem deseja perceber como é o efeito dessa dobradinha instrumental é só recorrer ao já citado segundo box set da série "Genesis Archives", no segundo CD: é uma excelente experiência.

Os puristas sempre terão argumentos, dizendo que este disco não faz falta alguma e que o último disco realmente progressivo da banda foi Wind & Wüthering e ponto final. Mas como amante do bom e velho progressivo sinfônico que sou, digo: dêem uma chance a esse álbum! Tanto ele quanto "... And Then There Were Three..." merecem uma audição mais atenta e serem apreciados como álbuns regulares dentro do rock progressivo. Comparo esses discos com outros que, de certa forma, também fizeram barulho entre os fãs de progressivo: "Tormato" (1978) e "Drama" (1980), do Yes, que também há esse equilíbrio entre músicas mais simples e comerciais e músicas de qualidade. É certo que não há o mesmo esplendor da época com Peter Gabriel ou dos últimos álbuns com Steve Hackett, mas a competência daquele tempo ainda está aqui nesses discos, embora na forma de poucas ou quase todas as músicas. Duke é um disco muito injustiçado e que, realmente, vale a pena dar uma chance. Na opinião modesta deste que escreve, foi o último progressivo; daí em diante, realmente o grupo "se vendeu".