
Kevin
Gilbert - Vocais,
Guitarra, Piano, Teclado, Programação,
Sequenciamento, Percussão. Nick D`Virgilio
- Bateria, Percussão, Baixo, Guitarra, Teclados,
backing Vocals. Brian MacLeod - Bateria.
Backing Vocals: Robert Ferris, Jennifer
Gross, Skyler Jett, Claytoven, Sandy Sawyer, Jon
Rubin, Tommy Dunbar
Guitarras adicionais: Tommy Dunbar, Russ
Parish, David Levita, Bill Bottrell.
Faixas:
1. Parade (3:44)
2. The City of the Sun (5:55)
3. Suit Fugue (Dance of the A&R Men) (2:24)
4. Imagemaker (3:38)
5. Water Under the Bridge (5:29)
6. The Best Laid Plans (5:38)
7. Certifiable #1 Smash (7:20)
8. Staring Into Nothing (5:51)
9. Fun (5:33)
10. From Here to There (2:11)
11. Ghetto of Beautiful Things (4:53)
12. A Long Day's Life (7:28)
13. The Way Back Home (4:55)
14. Johnny's Last Song (2:15)
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Kevin Gilbert - The Shaming of the
True (2000) Por
Kotzen
No ano de 1996, o rock perdeu um de seus mais
promissores talentos da década. Kevin Gilbert, 29,
havia cometido suicídio. De lá pra cá, não foram
poucos o que sonharam e imaginaram onde a sua
carreira poderia ter chegado, principalmente após o
lançamento, em 2000, do seu grande legado, a
ópera-rock intitulada “The Shaming of the True”. A
história deste álbum e de seu brilhante idealizador
é absolutamente grandiosa, e poderia render
tranqüilamente um ótimo livro, e talvez até mesmo um
filme. Fico, portanto, com a difícil de missão de
tentar resumir o que está por trás desta que pode
ser considerada uma das maiores obras primas do rock
de todos os tempos, e um grande álbum conceitual da
década de 90. Nesta primeira parte farei uma
compilação/tradução dos artigos que contam a sua
história, enquanto em um segundo momento descreverei
as minhas impressões sobre o cd.
Quando Gilbert levou a sua namorada, chamada Sheryl
Crow, para um grupo musical informal que se reunia
as terças de noite, mal podia imaginar que teria um
papel crucial na composição de um hit milionário e
no álbum que ia desencadear o sucesso da cantora:
Tuesday Night Music Club. Para ela, este trabalho
rendeu três grammys e o estrelato. Para Gilbert, a
únicas parcelas de fama remanescentes para a
posteridade foram os créditos de co-autor das
canções e de pianista no cd.
Gilbert, antes de tudo, era um prodígio. Era capaz
de tocar praticamente qualquer instrumento, e era
classificado por seus colegas como o “músico mais
talentoso” que eles já haviam encontrado. Para este
grande talento, o sucesso do Tuesday Night Music
Club, não significou um passo adiante na carreira.
Seu diário, na verdade, dizia: "I don't know if I
can ever forgive her," (…)I don't hate her - I'm
just soooo disappointed." Ele, juntamente com seus
companheiros de banda, foram deixados a ver navios.
Sua carreira teve início na década de 80, quando ele
gravou com a sua banda de rock progressivo chamada
Giraffe. Em 1988, foi o campeão mundial de um
concurso mundial de novos talentos promovido pela
fabricante de teclados Yamaha. Um dos juízes, Pat
Leonard, um dos produtores da Madonna, o convidou
para gravar um álbum em Los Angeles. Este álbum veio
a ser o cult Toy Matinee (1991), que vendeu cerca de
200.000 cópias graças em boa parte à vinculação de
um clipe na MTV. Para quem tiver curiosidade,
recomendo uma versão ao da música Last Plane Out
gravada em um show de natal de uma dupla de
radialistas americanos, que foi a primeira
performance do Toy Matinee ao vivo. Kevin ainda
realizou uma pequena turnê de divulgação, contando
com a sua então namorada, Sheryl Crow, nos backing
vocals.
Na produção deste álbum, ele encontrou outro
produtor, chamado Bill Bottrell e que se tornou uma
espécie de mentor, o levando inclusive para seções
com nomes com Michael Jackson e Madonna. Trabalhando
no estúdio deste produtor, Gilbert iniciou um árduo
trabalho perfeccionista em cima de um álbum solo.
Em agosto de 1992, Bottrell promoveu uma reunião
entre Gilbert e o um grupo de músicos que teria o
simples objetivo de tocar e divertir a cada noite de
terça feira. Um clima descompromissado predominava,
até que Brottell surgiu com um projeto mais
objetivo: a cantora Sheryl Crow acabara de finalizar
um álbum pela Atlantic Records, mas apesar da
fortuna investida, o pessoal da gravadora não estava
muito satisfeito com o trabalho final. Com o
lançamento já agendado, vieram a Kevin Gilbert
solicitando uma rápida remixagem. Brottell havia
sido contratado também.
Até o final daquele ano Brottell, Gilbert e o
pessoal da terça-feira remodelaram e refizeram todo
o álbum. No espítito de cooperação, os créditos para
as composições foram igualmente divididos. Kevin
compôs, em conjunto com outros, 7 das 11 músicas,
além de ter cantado e tocado guitarra, baixo, piano
e bateria. O relacionamento com a cantora era
mantido a parte. Insegura sobre si mesma, Crow
escutava Gilbert reclamar das falhas da indústria
fonográfica.
Enquanto não estava trabalhando neste projeto,
Gilbert continuava incansavelmente a tocar seu álbum
solo. Mesmo sofrendo o revés com o cancelamento de
um acordo com uma grande gravadora, ele persistiu
com outra de pequeno porte.
Após um ano trabalhando juntos, o pessoal do Tuesday
Night Music Club se surpreendeu ao descobrir que não
figuravam nos planos da cantora. Assim que entregou
o master final, Brottell descreve, "ela basicamente
disse que era pra eu sumir".
Existe também uma questão de que Gilbert não teria
recebido o crédito adequado pelas canções. Com a
dificuldade que ele vinha encontrado para encontrar
uma gravadora expressiva para o seu trabalho solo,
atribui-se que havia um grande ressentimento com a
negligência da cantora, que segundo alguns afirmam
chegou a dizer que ele “não tinha nada a ver com as
músicas”. Com a relação com a cantora se
deteriorando rapidamente (dizem que ela já estava
com as atenções voltadas para um executivo da
gravadora), Gilbert se lançou intensamente na
produção de seu próprio álbum.
Seu diário dizia: "I think I'm a tinge jealous over
her upcoming release (…)It's probably going to be
huge, so I have to prepare myself mentally for that.
If she gets what she wants after behaving this way,
she'll be absolutely intolerable". Gota d´água para
ele veio com a presença dela no programa do
apresentador David Letterman, cantando “Leaving Las
Vegas”. Ao ser perguntada se a música era
autobiográfica. O detalhe é que ao que constava ela
não tinha sequer contribuído muito para a composição
desta música em particular.
Enquanto o álbum da cantora decolava, o trabalho
solo de Gilbert, Thud, finalmente lançado por uma
gravadora pequena não recebeu nenhuma divulgação e
passou despercebido. Ironicamente, um cover de
Kashmir (Led Zeppelin), que foi retirado do álbum de
última hora, estorou nas rádios de Los Angeles, sem
que a gravadora pudesse capitalizar.
Enquanto isso, a gravadora do Tuesday Night Music
Club deixava claro que eles estavam fora de
cogitação para a turnê. Apesar da tensão, a banda
compareceu para se apresentar na entrega do Grammy
em março de 1995, onde Sheryl levou o prêmio de
álbum e música do ano (All I Wanna Do).
Kevin Gilbert então passou a se dedicar a outros
projetos menores, como o não muito expressivo
Kaviar. Na época de sua morte, estava trabalhando em
um álbum com a cantora Linda Perry, ex-4 Non
Blondes. Surpreendentemente, porém, Kevin Gilbert
teria um teste marcada para uma semana após a sua
morte para substituir o Phill Collins no Genesis,
segundo amigos próximos.
Gilbert tinham imenso gosto pelo rock progressivo,
em especial pelo Genesis da fase Peter Gabriel. Um
show clássico de Kevin Gilbert se deu quando ele
executou o Lamb Lies Down on Broadway em sua
totalidade, na edição de 1994 do Progfest. Ele
também participou, por exemplo, dos cds tributo do
Genesis e do Yes lançados pela Magna Carta. Por
curiosidade, o site da gravadora, na descrição dos
álbuns, diz que “é uma grande honra para Magna Carta
estar associada a um imenso talento como Kevin
Gilbert”.
Foi também exatamente este em gosto em comum que o
levou a desenvolver uma grande amizade com o
baterista Nick D´Virgilio, após se conhecerem em uma
estação de ski. Gilbert é considerado uma espécie de
sexto integrante do Spock´s Beard, sendo o grande
incentivador da banda nos dois primeiros álbuns (The
Light e Beware of Darkness), pelos quais foi
responsável na parte da produção. Nick é quem acabou
fazendo um teste para o Genesis, tendo participado
do álbum Calling All Stations.
Kevin Gilbert, ao morrer, deixou a melhor parte do
seu trabalhado sem lançamento. E, infelizmente, uma
parte deste material estava inacabado. Neste caso,
se trata justamente da genial ópera-rock chamada The
Shaming of the True, que ele vinha escrevendo e
gravando há mais de 10 anos (!). Embora ela
estivesse inteiramente e escrita e a maioria dos
vocais, teclados e guitarras estivessem gravados,
não havia uma ordem clara e grandes partes ainda não
haviam sido efetivamente gravadas. Com muita
consideração e dedicação, o amigo Nick D´Virgilio
abraçou o projeto de finalizar a obra.
Lançado finalmente em 2000, o álbum conceitual foi
recebido e aclamado como o grande coroamento do
talento de Kevin Gilbert, recebendo unânimes
críticas positivas.
A estória gira em torno de uma espécie de alter ego
de Kevin Gilbert, chamado Johnny Virgil. Trata-se da
ascensão e queda de um rock star. No início, um
ilustre desconhecido tocando violão solitariamente
em seu quarto, cheio de aspirações e ambições.
Johnny embarca em uma surreal viagem rumo ao núcleo
da hipócrita indústria do entretenimento. Para ser
bem sucedido, percebe que seus ideais devem ser
sacrificados em favor do imediatismo e do dinheiro
rápido. No final, ele deixa tudo isso de lado e
retorna a uma vida comum. O álbum não pode ser
considerado propriamente rock progressivo. As
influências são diversas, como The Who, Peter
Gabriel, Gentle Giant, Queen, Genesis e Pink Floyd.
Parade é iniciada por um calmo violão, que permanece
durante toda a faixa. Logo, os vocais anunciam: “My
name is Johnny Virgil, I play this here guitar...” É
uma introdução muito marcante, e a letra é
fantástica. Na seqüência, City of the Sun é um dos
números mais prog e variados do álbum. Em Suit
Fugue, Gilbert atinge a perfeição. Em um dos
momentos de maior criatividade já vistos neste
planeta, ele sobrepõe mensagens deixadas na
secretária eletrônica de Johnny por gravadoras
interessadas, montando uma peça a capella no melhor
estilo Gentle Giant.
Imagemaker é a primeira de três músicas vindas dos
tempos do Giraffe, sendo uma música bem pop rock com
traços de anos 80. Gilbert volta a brilhar
intensamente na belíssima Water Under the Bridge,
uma balada um tanto prog influenciada pelo Genesis
da fase Peter Gabriel e Pink Floyd. O guitarrista
Tommy Dunbar dá aqui a sua magnífica contribuição
fazendo um lindo solo no estilo George Harrison.
Best Laid Plans é também uma das minhas favoritas no
álbum, e já ruma para influências mais roqueiras
tais como The Who e Bad Company.
A parte ofensiva começa com a excelente guitarra
base distorcida da hard Certifiable #1 Smash, onde
Johnny expõe um roteiro infame para um clipe para os
executivos da gravadora. No final ele diz: “All
right well, if you don’t get that you’ll get
this…when those receipts start tearin’ in from all
over the world you’re gonna kick the almighty god
ass my friends because sixty billion flag waving
fans in every stadium in the fucking planet are
gonna be yellin’!…”
Em Staring Into Nothing (do Giraffe) Johnny já se
sente profundamente angustiado, o que se reflete na
parte musical. Com um imenso sentimento de vazio,
Johnny abandona a turnê que vinha batendo recordes
de público, deixando milhares de fãs desapontados e
os patrocinadores desesperados. Fun retoma as letras
agressivas, mostrando o personagem desorientado,
recorrendo a prostitutas, drogas e bebidas e se
relacionando com outras pessoas do meio artístico.
Na curta e calma From Here to There Johnny conclui
que precisa de um caminho de volta. Na
experimental/psicodélica/alternativa Ghetto of
Beautiful Things, ele se revolta com os rumos que a
sua música tomou e exclama: “Fuck ‘em all this is
art”. O prog volta na A Long Day´s Life, onde Johnny
reflete sobre ter abdicado do amor naquilo a que se
dedica e descreve alguns de seus sonhos. A última
música da época do Giraffe é a The Way Back Home,
que transmite a sensação de que a estória está
encaminhando para o fim, obviamente também por causa
do título.
Em Johnny´s Last Song, uma bela mensagem fecha o
álbum de forma magistral e emocionante e vale a pena
colocá-la para ilustrar a grandeza deste album: “My
name is Johnny Virgil/ I used to be a star/It was a
long long time ago/ Sometimes I hear my records/ In
the wee hours of the night/ On the oldies radio/
People sometimes ask me/ For the secret of success/
I tell them what I know/ Believe in what you're
doing/ Remember who you are /And who knows where
you'll go.
Reflexo das próprias frustrações de seu autor, The
Shaming of the True é um primor em todos os
sentidos. Foi concebido e desenvolvido com uma
sinceridade e paixão absolutamente rara para os
padrões de qualquer época. Perfeito na execução e
produção.
Digno de sua memória, hoje em dia existe o Kevin
Gilbert Memorial Fund, destinado a fornecer apoio
financeiro a jovens músicos que não teriam meios
próprios para se dedicar integralmente ao seu
potencial. Como eu disse, do início ao fim esta é
uma história grandiosa.
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