Inglaterra, 1982.


Músicos:
Adrian Belew – Guitarras, vocal principal
Robert Fripp – Guitarras elétricas, órgão, Frippertronics
Tony Levin – Stick, baixo, vocal de apoio
Bill Bruford – Baterias e percussão acústica e eletrônica


Músicas:
1. Neal and Jack and me - 4:21
2. Heartbeat - 3:54
3. Sartori in Tangier - 3:35
4. Waiting man - 4:22
5. Neurotica - 4:42
6. Two hands - 3:22
7. The Howler - 4:10
8. Requiem - 6:30


King Crimson

Beat

 
Dados da resenha:
Autor: Ricardo (Steve Hillage); recebida em: 08/11/2005.
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“Beat” é o segundo álbum do “King Crimson” que mantém a continuidade da nova etapa do grupo e continuando a seqüência a uma espécie de trilogia da banda, a segunda inclusive (a primeira é formada pelos 4 primeiros álbuns que representam os elementos do planeta: o fogo, a água, a terra e o ar). Depois de finalizada as suas atividades em setembro de 1.975, Robert Fripp reformula o grupo que em 1.981 sai o primeiro da segunda série desta trilogia entitulado como “Discipline” (a banda inclusive seria chamada assim ao invés de “King Crimson”, mas no final Fripp manteve o nome original do grupo juntamente com o apoio do baterista Bill Bruford que foi o único integrante que fazia parte do “King Crimson” antes que fossem encerradas as atividades naquele ano de 1.975).

“Beat” foi lançado no ano posterior em 1.982 pelos selos da EG Records (a mesma que a banda fez a sua estréia) e Polydor Records sendo observado até em edição nacional e resultando em um único compacto na época (importado, por sinal); o colecionador neste caso deve ter um tanto de paciência na procura, pois, é possível encontrar algumas poucas unidades que saíram com o encarte das letras das músicas. Em disquinho saiu pela primeira vez em 1.989 e posteriormente masterizado em 2.001 numa edição especial comemorativa contendo um dizer “Beat: 30th Anniversary”, ou seja, seria o pelo lançamento dos 30 anos de “Beat” (!?). Aqui existe um mal entendido, pois a gravadora DGM Records (Discipline Global Mobile) tinha a intenção de realizar os 30 anos em função do aniversário do lançamento do álbum de estréia, “In the court of the Crimson King” (1.969), e conseqüentemente a discografia da banda também sai toda remasterizada a partir daquele instante na época; entretanto a frase valeria para o “Beat” apenas no ano de 2.012. Em 2.004 foi realizado no Japão uma caixa chamada “Beat box” que nada mais é a trilogia do grupo que foi realizado nos anos 80. Com um disco já na estrada naquela década, o “King Crimson” não perde muito tempo e entra em estúdio para gravar este segundo da trilogia e retornar as apresentações ao vivo.

Pela primeira vez a banda realiza um acontecimento jamais ocorrido durante a carreira da banda: o line-up é o mesmo do álbum “Discipline”, uma surpresa muito grande que os fãs da banda podiam perceber no lançamento de créditos ao fundo da capa do álbum isso devido ao fato de que a banda estava sempre com uma formação completamente diferente de álbum por álbum até o ano de 1.975 com o lançamento de “Red”. Portanto os componentes e também os compositores das 8 faixas do disco são: Robert Fripp (o único membro restante desde a fundação da banda em janeiro de 1.969) nas guitarras elétricas, efeitos sonoros como o “frippertronics” (um sistema musical desenvolvido por ele mesmo) e órgão; Tony Levin no baixo stick e vocais de apoio, Bill Bruford nas baterias e percussão e Adrian Belew nos vocais principais e guitarras sem contar que passou a ser o letrista do conjunto. Alias falando em letristas, o “King Crimson” sempre tinha um que acompanhasse e escrevesse nos discos que foram lançados durante a carreira da banda: o primeiro foi Peter Sinfield (também fundador da banda) e o segundo Richard Palmer-James (fundador do “Supertramp”, outra banda muito importante que teve atuação no rock progressivo, embora não muito diretamente em termos de categoria do estilo sinfônico como foi o caso do “King Crimson”).

Curiosamente naquele ano de 1.982 ocorreram as seguintes gravações: o líder da banda, o guitarrista Robert Fripp, se reúne com um dos fundadores do “The Police”, o guitarrista Andy Summers gravando um duo resultando num primeiro disco neste projeto chamado “I advanced masked”. Belew também realiza uma façanha interessante realizando seu primeiro álbum solo entitulado “Lone rhino”. Tony Levin embora não havia lançado nenhum disco próprio, em contrapartida estava gravando “Peter Gabriel 4” (conhecido também como “Security”), o quarto álbum solo de Peter Gabriel, fundador do “Genesis” e que também se tornou uma banda concorrente do “King Crimson” durante os anos 70. Detalhe: tanto Fripp como Levin estreiaram no primeiro álbum solo de Peter Gabriel em “Peter Gabriel 1” (1.977). Este seria inclusive um dos membros que teria sua agenda muito carregada porque ao mesmo tempo estaria fazendo turnê com o “King Crimson” e com o Peter Gabriel durante boa parte de 1.982. O único membro, portanto que estava um tanto mais tranqüilizado em termos de gravações era Bruford, a única coisa que fazia durante os momentos ociosos era aprimorar-se consigo mesmo em estudos de baterias (eletrônicas especialmente e em conjunto com teclados) e percussão.

Esta é uma das formações admiradas, respeitadas desde a sua então formação original de 1.969 e ora adorada inclusive por adeptos da música punk, uma das tendências que desestruturou boa parte das bandas de rock progressivo a partir de meados e finais dos anos 70. O Robert Fripp durante esta ausência de quase 6 anos investiu-se consigo mesmo procurando se relacionar um tanto ao meio punk e o new wave (outra tendência musical que surgia nos finais dos anos 70) estando ao lado de outros artistas que também inovaram sua música dentro destes contextos musicais como Peter Gabriel, David Bowie, Daryl Hall, “Blondie” e entre outros e gravando inclusive seu primeiro álbum exclusivamente solo chamado “Exposure” (1.979) que tem fortemente a presença destas tendências musicais citadas anteriormente (deve ser também devido a este aprendizado que surgiu a então trilogia da década de 80 para o “King Crimson”).

Um tanto diferente de “Discipline” este é considerado um álbum que não possuiu um gigantesco impacto musical ao “King Crimson” de lançar uma nova proposta musical naquele início da década de 80. Por que a diferença ? Um deles pode ter sido devido ao grupo na época ter apenas o “Discipline” para ser divulgado nas apresentações ao vivo e outrora tinha uma diferença musicalmente relativa com relação aos álbuns que foram gravados durante a década de 70. Imagine por exemplo, que durante 6 anos aproximadamente a banda ficar parada, possuía uma identidade musical própria e foi mudada radicalmente, isso porque o grupo também acompanhou tendências e tecnologia com o passar do tempo, procurar se modernizar conforme eles estavam entrando nos anos 80. O “King Crimson” não foi a única banda que por um tempo ficaram distantes tanto do público como dos palcos e terem notáveis diferenças musicais: o “Genesis” já ficou também 6 anos sem gravar do “Invisible touch” (1.986) para o “We can´t dance” (1.991), o “Pink Floyd” ficou 7 anos sem gravar algo do “A momentary lapse of reason” (1.987) até o “Division bell” (1.994), o “Emerson, Lake and Palmer” esteve 14 anos sem gravar juntos do “Love beach” (1.978) até o “Black moon” (1.992) e o “Van Der Graaf Generator” recentemente há 28 anos (!?) sem gravar coisa alguma do “The quiet zone/The pleasure dome” (1.977) até o “Present” (2.005). Essa divulgação com apenas o “único” álbum proposto da trilogia naquela década de 80 necessitou que Fripp junto com os seus outros companheiros entrassem em estúdio e fazer rapidamente este segundo álbum da trilogia, e talvez da forma apressada como foi feito o trabalho acabou ficando meio que “descaracterizado” do anterior.

Alguns fãs da banda consideram que o “Beat” seria uma espécie de “cópia” do “Discipline”, ao mesmo tempo em que ocorreu no álbum de estréia da banda em 1.969 com o lançamento de “In the court...” e logo em seguida com o “In the wake of Poseidon” (1.970). Segundo uma grande maioria dos admiradores da banda, “Beat” é considerado como um dos mais fracos álbuns desta trilogia possivelmente porque tem algo que se caracteriza com a sonoridade do “Discipline” e ao mesmo tempo com o “Three of a perfect pair” (1.984), álbum posterior de “Beat” finalizando essa trilogia. “Beat” seria como se fosse algo sendo uma junção e um “interligamento” (algo como um link) entre o álbum “Discipline” e o “Three...”, o mesmo que teria acontecido numa situação semelhante igual ao artista Peter Gabriel (fundador do “Genesis” em que Robert Fripp colaborou em seus álbuns solos) onde o álbum “Peter Gabriel 2” (1.978) (detalhe: Fripp foi o produtor deste disco alem de tocar as guitarras elétricas) seria a junção entre o “Peter Gabriel 1” (1.977) e o “Peter Gabriel 3” (1.980). Aqueles admiradores da banda que possuírem o encarte de “Three...” observará Fripp dizendo em um dos artigos que ele sentia como se estivesse do lado mais certo de determinado equilíbrio (algo como que fosse uma balança) de acessibilidade e excesso e provavelmente. “Beat” pode ser o álbum que o ouvinte possa de fato perceber este equilíbrio.

Existe uma possibilidade de que parcialmente também teria alguma sobra de material da época para dar continuação de “Discipline” e ao mesmo tempo uma prévia apresentação do que poderia ser o álbum seguinte e somado isso tudo com uma boa presença da música pop, tornando este trabalho inclusive praticamente como o único disco da carreira até mesmo da banda com a identificação da pop music (isso tenha facilitado ao “King Crimson” chegar ao Top 50 das paradas americanas em termos de vendas), e também um tanto mais acessível com relação àquelas pessoas que ainda não conhecem a banda e gostam de sonoridades mais simples em seus ouvidos, embora aqui ainda está presente algumas raízes desde o surgimento do grupo. Ao mesmo tempo em que o pop tem presença, temos também alguns momentos de jazz, improvisação e experimentalismo, baladas, técnicas de percussão e ritmo e também rock progressivo em meio de faixas que na grande maioria estão entre a casa dos 3-4 minutos de duração (bem como manda a estrutura musical da música pop).

Dentro tudo isso comentado certamente este não seria um trabalho muito apropriado para aquelas pessoas que querem conhecer a banda logo de cara, a salvo daquelas que gostam de música de nível mais acessível em termos de audições sonoras. Um outro aspecto um tanto negativo é semelhante ao do “Discipline” do qual o álbum alcança míseros 35 minutos de duração totais (curiosamente o “Discipline” também tem esta coincidência). A inovação relativamente diferente do álbum anterior é que ao invés do ouvinte poder já ter uma noção em assimilar em meio minuto quase que todas as faixas, em “Beat” fica um pouco mais difícil porque nas músicas que representam este álbum fazem variações de temas musicais.

Inovação que ainda se mantém com Bruford investindo consigo mesmo com baterias eletrônicas em meio das acústicas, a competência de complexidade de Levin no baixo, o espírito musical ressonante, provocativo e acessível de Belew, que aqui está um tanto mais poeta que no disco anterior (“Beat” é um dos trabalhos que possuem mais a presença de letras desta trilogia feita pelo grupo durante este período na década de 80) e mantendo um pouco seus tempos memoráveis quando colaborou com o “Talking Heads”, antes que se associasse ao “King Crimson”. Já o membro fundador da banda ? Aparentemente embora tinha em mente essa trilogia, não deve ter hesitado em mudar um “pouquinho” a característica pioneira que sempre ele teve desde que fundou o grupo: estar se diversificando musicalmente o que ele sempre fez até então em todos os discos lançados mesmo nesta trilogia e a sua marca registrada sonora de suas guitarras dissonantes que sempre soaram completamente diferente de muitos excelentes guitarristas que surgiram no mundo musical até em momento.

O outro segundo fator inédito da banda é no que compete as atividades de produção musical da banda que foi produzido por Rhett Davies. Inédito porque desde que o “King Crimson” lançou o seu primeiro álbum a produção ora era feita pela própria banda ou então a banda juntamente com mais um profissional neste quesito, isto significa que “Beat” pela primeira vez tem a exclusividade de apenas alguém que é costumeiro a fazer este tipo de serviço musical. Será que o motivo da banda permitir que ela mesma ficasse independente desse fator possa também ter influenciado nessa diferenciação que “Beat” está entre esse 2 álbuns desta trilogia da década de 80 ? Será que houve alguma manipulação musical em cima dos músicos da banda por parte do produtor de “Beat” por ele coordenar este trabalho sozinho na finalização do mesmo ? São perguntas que talvez só a banda poderia responder ou o produtor da mesma desse álbum. E olha que Davies é um conceituado profissional do ramo da cultura musical e um detalhe interessante é que ele cooperou no “Discipline”. Nascido em Londres no ano de 1.950, seu pai, Ray Davies (não é a mesma pessoa do grupo dos anos 60 “The Kinks”!!! E tão menos parente do Rick Davies do grupo “Supertramp”!!!!) era um trompetista do meio jazz inglês e então desde sua infância escutava muitos instrumentistas de sopro como Miles Davis, Dizzy Gillespie, Chet Baker, Clark Terry e entre outros. Seu primeiro envolvimento na música profissional de estréia foi com o álbum “Selling England by the Pound” (1.974) do “Gênesis” (e que estréia !!!!!). A partir deste disco Davies iria cooperar com uma série de artistas de grosso calibre como Brian Eno, Jim Capaldi, “Camel”, “Roxy Music”, “The B´52s”, “Dire Straits” e entre outros.

A capa do álbum foi elaborada por Rob O´Connor que atuou com a sua arte e design em artistas como “The Jimi Hendrix Experience”, “Siouxsie and the Banshees”, John Cale, Eric Clapton, Grace Jones e entre outros. A capa tem a permanência de fundo azul pode ser encontrado em determinadas situações: em 2 tons de cor clara (no caso da edição nacional) e média (geralmente em edições importadas). Além disso, pode ser observado que existem (em cor de rosa) um símbolo de uma nota musical denominada como colcheia; em determinadas edições (mais especialmente em CD) este símbolo musical foi redesenhado de uma maneira que ocupa boa parte da capa. Observe também que por se tratar de uma trilogia de 3 discos realizados nesta década cada um representa uma das 3 cores primárias. A mesma capa pode ser encontrada em vídeo VHS lançado em 1.984 com o título “The noise” (existe também uma outra capa diferente com o mesmo título e que tem uma fotografia da banda saindo ao longo do tempo) que é de uma apresentação feita para promocionar o álbum “Beat”. O título do disco é na verdade a representação da banda retratado sobre a forma de poemas e que foi sensibilizado baseado em cima das letras de Adrian Belew, a partir dos anos 80 em diante sendo o letrista do grupo (o terceiro letrista do “King Crimson” desde a fundação da banda).

“Neal and Jack and me” – a primeira faixa do álbum parece fazer na sua introdução uma espécie de “recapitulação” do “Discipline” em especial na “Frame by frame” em meio de guitarras entrelaçadas uma sobre a outra de Fripp e Belew e tão logo Belew começa a cantar. Mas aos poucos e no primeiro minuto da música o ouvinte pode perceber que há realmente uma diferença entre sonoridades e estruturas musicais entre o “Beat” e o “Discipline” (já que este último citado o ouvinte pode nos primeiros 30 segundos já ter uma noção do restante de cada faixa, em sua boa maioria). A música em si é meio que rock-n-roll, apesar de ser relativamente complexa estruturalmente a melodia em si e até que delicada, e aparenta ter como Belew ser o destaque desta música, não existe inclusive um solo instrumental propriamente de algum dos membros da banda; na seção mediana parece que os acordes que acompanham os músicos são de teclados já que há a presença de 2 guitarristas. O nome da faixa foi retirado através do nome de 2 escritores romancistas (ambos americanos) e que valem uma ressalva: um deles é o americano Neal Cassady nascido em 1.926 e que durante sua infância viajou com os pais rumo a Califórnia para montar uma barbearia, mas o negócio não deu muito certo e além de ter seus pais separados. Ele foi crescendo em meio da malandragem e arruaça sempre estando em reformatórios infantis e juvenis, mas nunca se envolvia em sérios problemas que envolvessem atributos gravíssimos a sua conduta de malandro (ele costumava a furtar veículos) até que ele conhece um sujeito chamado Jack Kerouac (o verdadeiro nome é Jean Louis Lebris de Kerouac). Kerouac nasceu em 1.922 já na infância tinha um hábito de escrever contos, mas na verdade ele se dava bem no futebol americano. A difícil vida de jovem teve que lhe fazer exercer muitas atividades que pareciam distanciar seus sonhos na escrita quando ele tem este encontro com Cassady (no meio destes estava também o escritor Willian Borroughs). Com a habilidade de um em conhecer estradas americanas e o outro em escrever contos, Kerouac é agraciado pela ajuda de Cassady resultando no romance chamado “On the road” (1.957), o titulo em português “Pé na estrada” e então fazendo um bom sucesso de vendas. Com o passar do tempo Cassady foi entregando sua vida com as drogas até que ele é encontrado morto ao lado de uma linha férrea mexicana em 1.968, enquanto que Kerouac se entrega no alcoolismo falecendo em 1.969. As letras praticamente sugerem, algo relacionado a uma viagem (de automóvel) como se percebe nas primeiras frases “I'm wheels, I am moving wheels; I am a 1.952 studebaker coupe” que significa “Eu sou rodas, eu sou rodas em movimento; Eu sou um coupê Studebaker 1.952” em inglês (veja que o ano faz parte do cenário dos 2 personagens antes que saísse o livro “On the road”). Há uma característica que Belew exerce nesta faixa: uma delas é a de citar palavras tanto em inglês como em francês e a outra de cantar de forma espontânea muito naturalmente e de cantar meio que num tom de voz baixinho. Ao mesmo tempo em que ele canta destas maneiras, faz também algo como uma declamação à não ser pela voz serena, séria, confirmada e confiante quando Belew cita, por exemplo, a seguinte frase “No sleep no sleep no sleep no sleep and no mad...”, que significa “Sem sono, sem sono, sem sono, sem sono e sem loucura” em inglês e o que acaba tornando ora uma canção um tanto melancólica. Todo o enredo e narrativa relaciona ao que se passa numa viagem que inclui a hospedagem em hotel, as paradas para fazer refeição, os lugares por onde se passa conhecendo lugares e pessoas e entre outros como, por exemplo, em frases “With hands-full of autographed napkins, we eat apples in vans with sandwiches” que significa “Com mãos repletas de guardanapos autografados, nós comemos maçãs em vans com sanduíches” em inglês ou “Hotel room homesickness on a fresh blue bed” que significa “Nostalgia em quarto de hotel numa cama fresca e azul” em inglês. A palavra “Me” (“Eu” em inglês) no nome da faixa ao que subentende é uma analogia de que no meio da realidade dos verdadeiros personagens (Neal e Jack) exista um convidado que servirá de testemunha (seria o Adrian Belew ?) nos momentos que eles tiveram quando escreveram o livro em referência. Observe que no final das letras Belew cita algumas vezes as palavras “Absent lovers” e que futuramente serviria de título de um álbum ao vivo do “King Crimson” lançado em 1.998, correspondendo a última apresentação da banda em 1.984 antes que fossem encerradas as atividades pela segunda vez na carreira do grupo. Existem versões ao vivo desta faixa que saíram nos álbuns “Live at Cap D´Agde, 1.982” (1.999) e “Live in Berkeley, CA 1.982” (2.001), fora uma outra versão de um tributo feito pela banda fusion “Brand X” (fundada pelo genesiano Phil Collins) no álbum “Schizoid dimension” (1.997).

“Heartbeat” – esta é praticamente a “balada” principal do álbum, em estilo próximo da “Matte Kudesai” do álbum anterior (embora a “Heartbeat” é um tanto mais dançante por ter uma forma ritmada mais agitada do que esta do álbum “Discipline”), e da qual foi a que originou o único compacto lançado na época de “Beat” e conseqüentemente se tornou um dos “hits” da banda naquela época alcançando o posto número 38 das paradas inglesas; é possível até hoje escutar em algumas circunstâncias essa música nas rádios FMs, além do vídeo na MTV. Talvez seje a faixa mais que contém música pop desta trilogia lançada pelo conjunto em plenos anos 80. Qual seria o problema que fosse inclusa uma faixa igual a essa neste álbum ? O “King Crimson” gravou outras “baladas” que se identificavam muito em determinados álbuns como, por exemplo “I talk to the wind” no álbum de estréia “In the court...”, “Cadence and cascade” no “In the wake of Poseidon” (1.970) ou “Book of saturday” no “Larks tongues in aspic” (1.973) e entre outros., o “King Crimson” aqui neste caso estava em plenos anos 80 onde a tendência dos grandes grupos em confeccionar a música pop também permitiria espaço para eles. O experimentalismo musical que o “King Crimson” costuma fazer em seus trabalhos de uma maneira geral não aparece quase nesta faixa, talvez nos momentos em que Fripp faz alguns riffs antes que Belew inicie os versos da faixa. A mesma sonoridade também já foi apresentada em faixas como “Prince Rupert awakes” do “Lizard” (1.971) ou “Ladies of the road” do “Islands” (1.972). Robert Belew pode ser considerado como o destaque desta faixa, tanto é que futuramente em seu álbum solo “Young lions” (1.990), o mesmo iria regravar esta faixa sem os outros 3 integrantes do “King Crimson” (alguns fãs do musico consideram que ficou até melhor do que a original, embora sem muitas diferenças), versão perfeita para que fosse inclusa neste seu álbum solo que tem bem a ver com Belew. Liricamente é uma faixa pobre que possui pouquíssimas frases, além delas serem repetidas. O assunto é notoriamente dizendo sobre amor “I need to feel your heartbeat heartbeat so close, feels like mine all mine” que significa “Eu preciso sentir a batida de seu coração, batida de seu coração muito próximo, sinta igual ao meu inteiramente meu” em inglês. É uma faixa que o grupo inclui até hoje no set list da banda em algumas ocasiões. Algumas versões ao vivo da banda estão nos álbuns, “Live at Cap D´Agde, 1.982”, “B´Boom: Live in Argentina” (1.995), “Absent lovers: Live in Montreal 1.984” (1.998). Existem algumas versões do vinil que foram impressas onde na contracapa está escrito a seguinte palavra “Heartbeal” o que pode causar um pouco de confusão no nome para os ouvintes.

“Sartori in Tangier” – instrumental é uma faixa até que adorada pelo público da banda nesse álbum. O destaque parece ser dedicado ao Tony Levin (observe como ele faz toques no baixo ora precisos, selvagens e agressivos como se fosse para chamar a atenção dos ouvintes propositalmente), e mesmo com a presença de Frippertronics do fundador da banda, Robert Fripp, além do órgão que é também tocado por este músico. Os Frippertronics resguardam aquilo que o guitarrista fez em “The sheltering sky” lembrando um trompete e as percussões de Bruford resguardando a “Thela Hun Ginjeet”, ambas do “Discipline”. Considerada como uma das faixas mais dançantes do álbum (tem ritmo lembrando o funk), um tanto próximo da boa maioria das composições que o “King Crimson” desenvolveu no álbum anterior e aparenta seguir a um estilo da tendência do New Wave. Ao mesmo tempo em que a “Sartori inTangier” é dançante é também um dos momentos que faz o ouvinte meditar e pensar por alguns instantes. O começo da mesma é um tanto estranha não é o que permanece em maioria em ritmo de dança e sim lembrando algo como a introdução assustadora de “Fallen angel” do “Red” (1.975), mas nesse caso sem o violino de David Cross e sim a permanência das guitarras e o baixo. A faixa do título segundo inspirações de Belew veio através da obra literária chamada “The naked dance” (1.959) do escritor William S. Burroughs. Observe inclusive que a palavra “Sartori” aparece nas letras de “Neal and Jack and me” na frase “Des visions du Cody...Sartori a Paris...”. Existem versões ao vivo que estão registradas no “Absent lovers...”

“Waiting man” – considerada uma das favoritas do álbum (alguns admiradores da banda acusam esta faixa de ser o ponto ápice do trabalho, outros, porém acusam de também ser outra faixa com elementos de música pop), embora todos os integrantes trabalhem em conjunto como sempre de uma maneira puramente muito profissional, o destaque aparenta ser em favor do Bill Bruford com uma precisão muito aprimorada dominando as percussões e baterias eletrônicas. Bruford declarou em uma entrevista que a Simmon Drums está presente inteiramente nesta música e a única razão de existir melodia nesta canção é devido graças à tecnologia da marca deste equipamento e, além disso, o baterista acreditava e apostava que seria esta a maneira de como o “King Crimson” seguiria seu rumo daí à frente a partir desta experiência musical – diga-se que foram utilizados 11 kits destas baterias!!! Primeiramente ele inicia numa levada inicial em percussões e lembrando algo como se fosse uma tribo africana que vai ficando intenso a cada segundo tendo este comportamento musical até que mais ou menos próximo da metade da faixa quando Belew cita a frase “And so I wait so I wait so I wait so I wait” as baterias entram em conjunto com as suas próprias percussões feitas desde o início da música até que ele cessa todos os seus movimentos quando Belew finaliza a última palavra das letras desta faixa. Detalhe: Belew também reforça um pouco as percussões junto com Bruford e mais para Bruford era importante que o “King Crimson” abusasse em explorar as percussões “duelando” com as sonoridades dos resultados das guitarras de Robert Fripp. A introdução do vocal de Belew é outro momento que os ouvintes gostam muito quando na frase “I come back”, ele estende a primeira palavra por alguns segundos e entre outras palavras no meio da música. Observe que na parte solo instrumental existe uma presença de guitarra glissando feita por Belew e antes dele voltar nas letras na frase “I return face is smiling”, é uma maneira de tocar muito comum presenciada numa banda como o “Gong” realizado por guitarristas a exemplo de Steve Hillage, Stefan Sharptrings e Daevid Allen. Liricamente também é algo relacionado em ansiedade no resultado de esperar e apressar, o que diariamente ocorre na vida do ser humano. Belew esclareceu que era uma escrita quem em sua origem tinha tudo aquilo que qualquer um pudesse começar a somar ou personalizar. As batidas de percussão caracterizam o sentido de um fluxo de uma imagem na qual se reflete e depois é separada pelo conforto do indivíduo e espaços que representam os seus lares. Existem versões ao vivo que foram gravadas nos álbuns “Live at Cap D´Agde, 1.982”, “Live in Berkeley, CA 1.982” (2.001) e “Absent lovers” (imagine que a versão de estúdio é muito adorada pelos fãs do “King Crimson”, imagine esta versão ao vivo que é bem mais ainda !!!).

“Neurotica” – o outro lado do álbum começa com uma faixa que possui uma sonoridade característica de uma canção do tipo bem esquizofrênica, explosiva, endoidecida, nervosa e provocativa. A estrutura musical está bem próxima a elementos de jazz moderno e de rock progressivo com frases musicais extremamente complicadas lembrando até mesmo algo que o “King Crimson” já havia feito em seu passado como numa canção igual a “21st century schizoid man” do álbum de estréia “In the court...” (na forma que a música se expõe em estrutura musical) ou então em “Pictures of a city” do “In the wake...” (na forma que as letras esclarecem sobre palavras), porém há um reforço de instrumentos de cordas que foram investidos neste caso nesta década de 80. Quanto à canção “21st century schizoid man” observe que o “schizoid” é associado à doença “esquizofrenia”, sendo que a mesma coisa poderia ser dita no nome desta faixa que não deixa de ser também uma doença; há portanto um relacionamento entre ambas as faixas sobre o mesmo assunto em se tratando a doenças e comportamento humanos. A introdução de “Neurotica” é muito fácil perceber isso porque existem gritos, barulho do trânsito, sirenes, apitos e tudo isso ao mesmo tempo, evidentemente é um conjunto de elementos suficiente para endoidecer qualquer ser humano. Mesmo com um grande entrosamento de todos os integrantes nesta faixa, o destaque de presença notoriamente é de Robert Fripp, mas ao mesmo instante é também de Belew que recheou, floresceu e incrementou bem a música em letras chegando a ser muito próxima naquilo que ele executou em “Thela Hun Ginjeet” (na seção mediana desta música) do “Discipline”. Não existem dúvidas também de que liricamente é uma faixa que retrata a respeito de uma grande cidade como a de Nova York neste caso (embora ela sirva para qualquer cidade de grande tamanho no mundo) e o sentimento de alguém que vive por lá. Pode também servir numa situação na qual a pessoa esteja dentro de um veículo onde o mesmo estaria completamente dentro de um forno no meio a caos de um tráfego completamente parado em um dia muito calorento ou que as proximidades do local sofreram enormes alagamentos. Observe que Belew acrescenta um horário de madrugada nas letras em “Good morning, it's 3am in this great roaring city...” que significa “Bom dia, são 3 horas da manhã nesta ótima cidade rugindo...” em inglês; a primeira faixa de apresentação (coincidentemente ambas as faixas são as primeiras de cada lado do álbum!!!! ), a “Neal and Jack and me” também possui um horário de madrugada “I can't explain, the Seine alone at 4am, The (in)Seine alone at 4am” que significa “Eu não posso explicar, o Seine sozinho às 4 horas da manhã, O (in)Seine sozinho às 4 horas da manhã” em inglês. Detalhe: o trio canadense "Rush" também gravou uma faixa com este mesmo nome no album "Roll the bones" (1.991). Existem versões ao vivo desta faixa que estão registradas nos álbuns “Live in Berkeley, CA 1.982” e “Vroom vroom” (2.001).

“Two hands” – a menor faixa de “Beat” possui quase 3:30 minutos de duração sendo que é considerada a segunda “balada” do álbum e provavelmente a mais calma, tranqüila e transparente de todo o trabalho; pode ser considerada como uma das faixas acessíveis em termos de sonoridade muito distante do que o “King Crimson” sempre acostumou a fazer na boa maioria de seu material. É o único caso do disco que ocorreu uma parceria com Belew ao escrever as letras tendo a sua esposa Margareth Belew fazendo presença na época, já que ali mesmo na década de 80 após a trilogia do “King Crimson” eles se divorciariam. Detalhe: pela primeira vez desde a fundação do grupo uma pessoa do sexo feminino faz um registro sonoro na banda. Por mais incrível que pareça esta faixa tem Bill Bruford como o destaque, porque aqui ele discerne a percussão numa forma tratada tão delicadamente que cativa o ouvinte aos poucos e ainda como se não bastasse há também a presença de um solo de guitarra de Fripp que faz uma sonoridade bem do tipo “chorona” como se necessitasse que alguém prestasse atenção no dramalhão que este instrumento é executado pelo guitarrista; observe que tanto na introdução como na parte de finalização da faixa a guitarra de Fripp faz uma espécie de eco o que torna a pensar que os riffs são repetitivos. O grupo também realizou uma façanha um tanto incomum: posicionou esta faixa entre 2 outras que são extremamente “agitadas”, a “Neurotica” e a “The howler”. Embora as letras tem uma tendência de ser uma canção de amor, aparentemente retrata algo relacionado a claustrofobia e desejo, possivelmente um recado sobre seu futuro divórcio e Belew canta de uma foram como se estivesse apaixonado. Observe que todas as faixas deste álbum que contém letras (exceto a próxima chamada “The howler”) contém a palavra “Hand” que significa “mão” em inglês, tanto no singular como no plural. Pelo que se tem de notícias o “King Crimson” pouquíssimo apresentou esta faixa em apresentações ao vivo.

“The howler” – é uma das faixas que aparenta conter elementos musicais associados em termos de avant-garde music tendo uma sonoridade musical completamente desestruturada, além de ser muito esquisita e fora que recebe um tratamento audível muito distorcido de todo o álbum, algo como alguma coisa dentro de um caracol ou caramujo; as guitarras se mantém muito entrelaçadas entre si. Repare que na parte do solo instrumental existe a presença de um teclado sintetizador, um instrumento um tanto incomum pelo tipo de álbum que o grupo gravou. Uma pequena ponte “dançante” na seção mediana aparenta chutar qualquer coisa que apareça a sua frente, observe também a forma de como Belew canta, é como se ele estivesse ora muito melancólico, ora muito alcoolizado, ou ingerido algum calmante forte, ou recém despertado da cama e em meio a desespero como na frase "No, no, not me, burn, I don't want to burn." que significa “Não, não, eu não, eu não quero queimar” em inglês. Repare inclusive que a palavra “howler” está presente no primeiro verso do segundo parágrafo “The stench and noise, yes, yes, the howler's” em “Neurotica”. Liricamente mais uma vez Belew defende suas letras baseado em romance e desta vez baseado no autor americano Allen Ginsberg na obra “Howl” lançada em 1.957 e valendo uma ressalva: nascido em 1.926 teve uma infância complicada devido a paranóia de sua mãe que acreditava que todas as suas pessoas a seu redor estavam contra ela. Na adolescência descobriu-se que tinha um talento para compor poemas, mas por ironia do destino como universitário pelo qual conheceu Jack Kerouac (relacionado na faixa “Neal and Jack and me”) acabou se aventurando nas drogas e homossexualismo chegando a ser internado num terapeuta e ao mesmo tempo que ajudava no desenvolvimento de sua arte para com outros escritores até que sai o romance “Howl” que retrata Ginsberg na pele da loucura de sua mãe fazendo um enorme sucesso. Com o passar do tempo ele se entrega ao budismo, funda uma escola de poesias, participa de movimento contra a guerra de Vietnã e definindo um lado muito voltado aos eventos multiculturais até falecer em 1.997. Existe uma versão ao vivo desta faixa em “Live in Berkeley, CA 1.982”.

“Requiem” – é a maior faixa do álbum com precisamente 6:30 minutos de duração e sendo também a segunda instrumental do álbum (veja que em cada lado do disco tem uma música instrumental). Notoriamente que o destaque é praticamente a presença de Fripp com sua guitarra sobreposta em meio de um órgão, mas o restante da banda também tem uma boa presença (parece que cada um disputa um espaço para fazer seu solo instrumental, às vezes imaginando-se que existe um conflito entre os membros da banda – por exemplo, Fripp interpreta as frases musicais enquanto que Belew interpreta o coro musical, Levin toca o fretless bass como se fosse alguém cantando). Mas antes que aconteça isso, existe uma espécie de “preparação” dos músicos no início da faixa em um clima muito calmo como se fosse a “Moonchild” do “In the court...” É um outro exemplo de faixa que tem uma estrutura completamente desordenada e muito bagunçada com muito barulho e jams improvisadas atonais (não deve ser esquecido que o “King Crimson” também teve uma razoável improvisação durante a sua carreira na década anterior de “Beat”). Repare que no final da faixa a banda parece não querer encerrar o álbum “Beat”. Aqui nesta música pode estar um dos aspectos positivos da banda e mantendo vantagem com relação ao álbum anterior, o “Discipline”: eles retornam de uma maneira que a sonoridade faz lembrar coisas que já foram exploradas no passado da banda como na faixa título do álbum “Starless and bible black” (1.974), ou “Providence” do “Red” (1.975). É uma faixa que estaria bem identificada com o grupo quando eles fossem ressurgir ao meio cultural musical pela terceira vez a partir da metade da década de 90. Segundo Bruford na época em entrevista citou que “Requiem”seria uma homenagem conjunta a todos os escritores que estariam em evidência ao longo do trabalho nas letras de Belew. Ele se surpreende de como movimentos já ocorridos durante ao longo de 3 décadas antes do “Beat” ora se enfraqueceram, como se dispersaram, assim como passaram de uma maneira muito rápida em meio de presença de pessoas que tiveram seus momentos, mas aos poucos foram sendo esquecidas, referindo o mesmo sobre a situação de gravadoras para com os artistas do meio cultural musical que já foram lançados, mas tiveram (e tem) dificuldades de conseguir um contrato com uma gravadora e poder tocar aquilo que tanto desejam. Repare que o que Bill Bruford pode estar se referindo com relação a esta perda e esquecimento é sobre a razão que envolve o nome da faixa, pois “Requiem” está associado à morte. Muitos compositores da música clássica/erudita como Wolfang Amadeus Mozart, Franz Schubert, Gaetano Donizetti, Franz Liszt, Antonin Dvorak, Igor Stravinsky e entre muitos outros registraram uma obra com este nome; o “King Crimson” garantiu o seu espaço com o nome deste título musical. Diga-se também que “Requiem” foi baseada fazendo um tributo para com o saxofonista jazzista John Coltrane, já que aqui temos de fato uma sonoridade que contém improviso musical.