Inglaterra, 1981.


Adrian Belew - vocal principal, guitarras, letras.

Robert Fripp - guitarras elétricas e acústicas e efeitos sonoros.

Tony Levin - baixo, stick, vocal de apoio.

Bill Bruford - baterias, percussão.


Faixas:
1. Elephant talk - 4:47

2. Frame by frame - 5:08
3. Matte Kudasai - 3:45
4. Indiscipline - 4:31
5. Thela Hun Ginjeet - 6:25
6. The sheltering sky - 8:22
7. Discipline - 5:02


King Crimson   

Discipline

 
Autor: Ricardo (Steve Hillage);

"Discipline" é um album que inicia sem sombra de dúvidas uma nova etapa do King Crimson, mas não foi feito tão a toa. Em setembro de 1.975 quem acompanhava o King Crimson talvez não imaginaria que Robert Fripp decretasse o "fim" da banda e boa parte do público sendo surpreendido por tal efeito. "Red" (1.975) seria o último album de estúdio lançado pelo grupo que era até então um quarteto (e não um trio como muitas pessoas afirmam, pois se Peter Sinfield o letrista original da banda era um integrante a partir da fundação do King Crimson e do album "In the court of the Crimson King" (1.969), por que então Richard Palmer-James letrista a partir de "Larks´ tongues in aspic" (1.973) também não seria?) com alguns convidados sendo Ian McDonald até um deles e o violinista David Cross.

Cada um foi para um canto, mas dois deles retornariam no início dos anos 80, mais precisamente no final do ano de 1.980 e início de 1.981: Robert Fripp e Bill Bruford, ou seja 50% do album "Red". Mas o que estes fizeram durante estes 5, 6 anos de ausência da banda? Estiveram mantendo contato com trabalhos diferenciados e pelo visto esta ausência foi muito boa para ambos, especialmente Fripp, considerado ao decretar as "férias" do King Crimson nada menos que o comandante do grupo. Fripp esteve ocupado trabalhando com artistas de nome como Peter Gabriel, David Bowie e Daryl Hall e além disso se dispôs em efetuar sua carreira exclusivamente solo o qual determinava o nome "The Drive to 1.981". Muitas pessoas pensam que albuns como "The cheefully insanity of Giles, Giles & Fripp" (1.968) com os irmãos Giles e "No pussyfooting" (1.973) numa parceria com Brian Eno são trabalhos solos, de fato este último talvez, mas o primeiro album solo do guitarrista é "Exposure" (1.979).

"The Drive to 1.981" compreendeu o período de 1.977 até 1.984, segundo o próprio Fripp durante o momento em que estivesse no mercado musical sem ser manipulado apresentando um punhado de idéias de sua disciplina musical, entre outras palavras, Fripp estava preparado para uma nova etapa de sua carreira musical em sua vida. Este período de 7 anos abrange desde suas participações musicais com outros artistas assim como as gravações iniciais de "Exposure", indo mais longe gravando albums como "God save the Queen/Under heavy manners" (1.980), "Let the power fall" (1.981), a banda "The League of Gentlemen" que gravou um album entitulado no mesmo nome no ano de 1.981 (Detalhe: na metade dos anos 60 Fripp já tinha formado uma banda com este nome antes mesmo do "Giles, Giles & Fripp") e a trilogia do King Crimson pertencente nos anos 80. A idéia do "The Drive..." era se finalizar segundo o guitarrista em 11 de setembro de 1.981 (repare que em justos 6 anos atrás desta data o King Crimson encerraria suas atividades nos anos 70) coincidindo com um evento astronômico que ocorreria em relação ao alinhamento de todos os planetas do sistema solar que preparariam o despertar da humanidade na época, mas acabou não ocorrendo porque o King Crimson já estava com o album "Discipline" pronto naquele ano próximo daquele período se extendendo até a metade de 1.984.

Este album "Discipline" (assim como a trilogia dos anos 80 do King Crimson) é bem possível que Fripp premeditou aquilo que foi gravado durante a sua carreira de artista solo anos antes porque se o ouvinte que já conhece o artista pode prestar com muita observação os trabalhos solo do guitarrista verá como tem muito a ver na música do King Crimson em seus anos 80 (e a partir dos anos 90).

Associado desde 1.973 na banda a partir do album "Larks´ tongues in aspic", o segundo músico, Bill Bruford, a grande verdade é que Michael Giles, fundador do King Crimson durante o final dos anos 70 manteve contato com Fripp sugerindo ao guitarrista mudar o som e o tipo da banda (pois só mudavam as formações de album por album nos anos 70) e possivelmente ocuparia pela sugestão o lugar de Bruford antes mesmo até a banda se chamar de "Discipline", também no início dos anos 80. Giles inclusive partiu da idéia de Fripp elaborar uma banda que fosse um duplo-trio, que foi o surgido a partir dos anos 90 em "Vrooom" (1.994), mas a decisão partiu de Fripp convidar novamente recrutando o profissionalismo de Bruford em "Discipline" que durante sua ausência esteve em bandas como o "Genesis" (participa do "Seconds out" (1.977), mesma banda que tem a participação de Fripp na estréia do fundador do "Genesis", Peter Gabriel, gravando "Peter Gabriel I" (1.977)), "Gong", posteriomente inicia sua então carreira solo estreiando no album "Feels good to me" (1.977) e fundando o "UK" em 1.978 junto com outro ex-crimsoniano presente também no album "Red", o vocalista e baixista, John Wetton, o guitarrista Allan Holdsworth e o tecladista/violinista Eddie Jobson.

Bruford se identificou com o jazz-fusion o que mais tardar adotaria o estilo de vez com a banda "Bill Bruford´s Earthworks" na metade dos anos 80 após a segunda dissolução do King Crimson em 1.984. Com o King Crimson dos anos 80 o baterista soube perfeitamente mesclar as baterias e percussão eletrônica (que estão fortissímamente presentes) com a acústica. O mais curioso é que durante a boa parte desse tempo se dedicando com outras atividades as baterias e percussão eletrônicas estão quase que praticamente ausentes.

Buscando ao andamento da formação Fripp chega a convidar o ex-crimsoniano John Wetton, mas naquela época no início dos anos 80 o músico se engaja num projeto muito ambicioso fundando o "Asia" junto com outros profissionais renomados na formação com Steve Howe, nas guitarras e Geoffery Downes, nos teclados e ambos do "Yes" que também originaram o "fim" da banda na época no início de 1.981 tendo o último album gravado "Drama" (1.980) e associados os três com o excelentíssimo baterista e percussionista Carl Palmer que era fundador e integrante do "Emerson, Lake & Palmer" finalizando a banda numa etapa no ano de 1.980. Wetton é substituído por Adrian Belew que já tinha gravado com "Talking Heads", "David Bowie" e os jazzista de fusion Frank Zappa e Herbie Hancock substituindo também um segundo integrante em "Red" que no caso seria Richard Palmer-James e se encarregaria de fazer as guitarras, efeitos sonoros e seria o novo letrista da banda agora com letras hilárias e bizarras. Belew não surgiu por acaso, ele possuia uma banda que se chamava "Gaga" e fez pelo menos 5 apresentações junto com a banda de apoio de Fripp "The League of Gentlemen" que excursionaram no ano de 1.980 e Belew era muito versátil na guitarra além de ser jovem e estando com uma geração nova de músicos como era o caso dos "Talking Heads".

Antes que surgissem como King Crimson, se denominaram "Discipline" e até então faltava o baixista sendo o primeiro nome a ser indicado foi Jeff Berlin sugerido por Bruford já que este havia estado com o baterista em seus trabalhos solo, Fripp se entusiamou com o mesmo mas o seu estilo não era o que Fripp ainda desejava; ele queria se certificar de ter uma qualidade certeira pessoal com relação ao baixista escolhido e daí no terceiro dia de audiências da escolha do profissional, surgiu Tony Levin. Levin era um ativo músico de estúdio e sessões e um de seus últimos trabalhos na época era do ex-The Beatles, John Lennon junto com a companheira Yoko Ono em "Double Fantasy" gravado em 1.980 e o último por sinal da carreira de Lennon antes que ele sofresse o atentado de um fanático que lhe causou sua morte em dezembro daquele ano nos Estados Unidos. O baixista também não era desconhecido por Fripp porque curiosamente estreiou no mesmo trabalho de estréia de Peter Gabriel em 1.977 e no solo de Fripp "Exposure" e sua experiência ainda contava com músicos muito conhecidos desde o jazz até o pop como Judy Collins, Deodato, Herbie Mann, Carly Simon, Paul Simon e Alice Cooper, uma experiência sem fronteiras para muitos.

Com a formação completa esses quatro músicos se apresentam como "Discipline" mas ainda entre eles estavam um tanto incomodados com este nome porque Belew e Levin sendo americanos não se sentiam bem com um nome destes no país de nascença e Bruford ainda tinha a emoção da época quando estava na banda nos anos 70 com o que tocava naquela banda; por outro lado Fripp (o "chefe" do grupo) batia os pés no chão para ter algo inovador em sua nova fase de carreira que não fosse o nome de King Crimson, mas atende ao pedido dos outros companheiros e eis que então surge a imprensa e ao público na metade de 1.981 o esperado grupo depois de anos de ausência separado por duas palavras: King Crimson.

Em setembro de 1.981 o nome da "ex-banda", o "Discipline" se torna título do album da trilogia e se torna em 1.993 o nome de uma banda americana de estilo Neo-prog lembrando "Marillion" e "IQ". O album conta com a participação do produtor Rhett Davies que trabalhou com diversos artistas como "Roxy Music", "Camel", "Brian Eno" e na época com "The B-52´s", teve auxílio de Nigel Mills.

A capa foi feita pela coordenação do artista plástico Peter Saville que trabalhou muito com músicos dos anos 80 especialmente como "New Order", "Joy Division" e outros como "Roxy Music", "Pulp" e "Suede". Mesmo sendo com a EG Records, o desenho da capa que no caso um emaranhado de cordões serviu futuramente como um símbolo de elaboração da gravadora DGM, além de é claro o próprio nome do album neste caso (Discipline Global Mobile, sendo Robert Fripp inclusive um dos fundadores). Outro detalhe da capa, a cor, pois o último album de estúdio da banda era "Red", que significa "vermelho" e neste trabalho a cor é totalmente em vermelho, e o mais curioso ainda é que na trilogia dos 3 albums dos anos 80 do King Crimson, as capas foram projetadas completamente com simples desenhos frontais e com frentes e versos de cores vermelho, azul e amarelo respectivamente, ou seja as cores primárias utilizadas na arte de colorir algo.

O King Crimson fez certeiramente uma música que retrata o que seria os anos 80, graças a filosofia pensada por Robert Fripp durante a época em que manteve a banda ociosa ocupado com sua carreira solo. Este trabalho inicia uma das formações mais respeitadas e admiridas pelos fãs do King Crimson que inclusive consideram uma das melhores até então feita desde o album de estréia "In the court..." por mais que este citado anteriormente tem uma das formações mais marcantes de uma outra época, mas "Discipline" é de fato uma marca registrada de música inovadora que em alguns casos de pessoas que até são adeptos da música punk se cativam pelo King Crimson neste período sem ter um conhecimento sequer do que a banda fora nos anos 70 o que com o tempo esses admiradores acabam adorando a banda mesmo no início de carreira, mas tendo centralizado a época desta trilogia sendo a melhor impreterivelmente pois a sonoridade está muito relacionada entre um período após o punk e o new wave.

Apesar de possuir apenas pouco mais de 35 minutos de duração com músicas simples, são muito bem estruturadas, elaboradas, criativas, interessantes e dançantes. Para aquelas pessoas que conhecem o termo rock progressivo estranharia serem dançantes, mas realmente é possível em quase todas as faixas assimilar o que acontecerá na trilha inteira durante os primeiros 30 segundos o que praticamente a sonoridade permanecerá até o encerramento da mesma razoalvelmente repetitiva e justamente o que faz tornar o King Crimson é a inovação especialmente da percussão de Bruford, um dos pontos fortes dos anos 80 no King Crimson pois o baterista foi um dos primeiros bateristas de bandas progressivas sinfônicas da época a utilizar o kit de baterias e percussão eletrônica e deve ser ressaltado que esses instrumentos não são o mesmo que percussão eletrônica que existem em samplers e teclados sintetizadores pois neste caso algum músico (que é no caso Bruford) toca os instrumentos (e ainda assim tem sonoridade ao fundo das faixas com a presença de baterias e percussão acústicas, embora fortemente presente as do tipo eletrônicas) e não simplesmente alguém que aciona botoeiras e não exista fisicamente um baterista.

O que ajudou a música se tornar dançante também foi Levin que quase sempre pela experiência vivida antes da banda possuia uma complexa capacidade competente de fazer ritmos dançantes de uma forma muito discreta especialmente nas apresentações com seu baixo e Chapman Stick (é um instrumento elétrico com 5 cordas superiores tocadas pela mão direita e 5 cordas inferiores tocadas com a mão esquerda envolvendo técnicas que envolvem elementos de sonoridade tanto de guitarra e teclados quando os dedos do músico direcionam contato com as cordas fazendo notas dobradas, osciladas como da técnica de um violão sendo capaz de produzir uma ordem extensa e ampla de timbres).

Isso sem mencionar Belew que parece resguardar aquilo que a banda "Talking Heads" teve em sua colaboração em "Remain in light" (1.980) num dos últimos albums do qual participa.

E quanto a Fripp? O ouvinte confirmará que as tentativas de mudanças na música do King Crimson sempre lhe valeram a intenção. Apenas imagine alguém que conheceu a música na época que a banda estreiava em 1.969 e outro alguém que só conheceu a música na época que o King Crimson ressurgiu em 1.981.


"Elephant talk" - em 1.968, Fripp gravou uma faixa com o GGF no album "The cheerful insanity of Giles, Giles & Fripp" chamada "Elephant song" e o mais curioso o nome das faixas retratarem o animal elefante no caso do GGF é o trombone que induz o ruído do animal; aqui Belew é o responsável que retrata ruídos com efeitos sonoros lembrando também um elefante. Diferente da música sim daquela ocasião que obviamente era muito acústica e esta já em seus primeiros segundos de duração o ouvinte pode começar a acostumar com a estréia da música do King Crimson que irá começar uma outra era, um novo tempo, uma nova marca registrada da banda é só reparar no baixo de Levin e a bateria de Bruford. A letra de Belew é interessante pois ele cria vários sinômimos da palavra "talk" e em cada refrão (que no caso são 5) ele recita palavras que no primeiro refrão iniciam com a letra "A", no segundo refrão iniciam com a letra "B" até o quinto e último que iniciam com a letra "E", isso sem contar que parece que ele dita as letras como se estivesse conversando normalmente em 5 situações diferentes. Destaque para os acordes da guitarra de Fripp, são muito bizarros.

"Frame by frame" - se tornou o nome da caixa de uma coletânea da banda em 1.991. Robert Fripp não abriu mão de trazer algo que foi feito em seus trabalhos solos e os rápidos acordes (que parecem ter sido de uma forma programada) são quase os mesmos que estão na faixa "The Zero of the signified" no album "God save..." (1.980) e regravado em "God save the King" (1.985) como a faixa-título pelo "The League of Gentlemen" e os ritmos simultâneos e a constante mudança de notas da guitarra de Fripp entre 6 e 7 tempos com os acordes tocados em 7/8 de Belew além de se alterarem, crescem a cada compasso. Alguns críticos técnicos da arte da guitarra consideram que Fripp se incentivou com a experimentação da arte feita por Robert Reisch. Detalhe: o guitarrista Steve Hillage (ex-Gong) também gravou uma faixa com este mesmo nome no album "For to next and not or" (1.983) embora seje também gravada numa sonoridade eletrônicamente, mas um tanto diferente desta que possui minúsculas letras e tem o apoio dos vocais de Levin.

"Matte Kudasai" - além de ser a menor faixa do trabalho com pouco menos de 4 minutos, é a "balada" do album, muito bela e bonita, com uma melodia também suave e tranquila ao longo da faixa inteiramente num estilo bem blues e geralmente na grande maioria das apresentações não fica de fora do set-list. Os arranjos e a sonridade desta faixa foram descaradamente baseados na faixa "North star" do album solo de Fripp em "Exposure" (1.979), mas até ai que é que vai se incomodar com este detalhe? Para quem não sabe o nome da faixa quer dizer "Por favor, espere" em japonês. A guitarra de Fripp parece mais do que "celestial" e "flutuante" enquanto que o vocal pop de Belew procura se "enganchar" nos ouvidos dos ouvintes como por exemplo, na frase "she waits in the air, matte kudasai" algo jamais até então naquele momento feito pelo King Crimson (e olhe que isso já é nos anos 80 !!!!!). Belew fez inclusive as letras especialmente se baseando numa composição poética com intenção de ser recitada para a sua esposa. A edição em CD possui uma outra versão.

"Indiscipline" - é a faixa que mais se diferencia de todas as demais. Diferencia porque como citado anteriormente, o ouvinte não consegue ter noção de adivinhar no que ocorrerá por 30 segundos porque a faixa está dividida em outros temas. É uma das faixas mais agressivas inclusive do trabalho e novamente tem alguns momentos que foram retirdados também do album "Exposure" de Fripp em faixas como "Breathless", "Disengage" ou "NY3" e facilmente chama atenção daquelas pessoas que gostam de uma sonoridade hard-rock em especial, claro que baseado com a tecnologia que o King Crimson investiu naquele início de anos 80 e por outro lado mostra o lado um tanto "dramático" da sonoridade como um todo e especialmente a de Belew ao recitar as letras; no que será que ele estava preocupado conforme citava as letras? Claro que tem algumas etapas da faixa que são muito tranquilas, mas repentinamente se tornam muito selvagens. Alguns fãs do King Crimson também não entendem porque esta faixa até está neste album e não no "Three of the perfect pair" (1.984) que tem um pouco a ver, além de ser posteriormente da faixa "Matte Kudasai" que é mil vezes mais tranquila do que esta, mas isto são coisas mesmo de músico quando gravam e deixam seus "rastros" de mistérios e polêmicas. A resposta fica por conta da opinião do ouvinte que não conhece esta música e encerra repentinamente a faixa de vez com uma seguinte frase sendo citada: "I like it".

"Thela Hun Ginjeet" - esta é talvez considerada uma das faixas mais "dançantes" e com a melodia exclusivamente repetitiva do início ao fim com aproximadamente 6:30 de duração e um destaque sem sobra de dúvida para Bruford que mesmo sendo editada pela percussão eletrônica dá uma leve impressão que existem 2 bateristas tocando. Para aquelas pessoas que só adoram dançar em disco-clubs sem se preocupar quem é o artista que toca no momento, provavelmente iriam adorar uma faixa que no fundo tem ainda o seu lado acústico como música, sem ter noção inclusive de uma banda que é no caso o King Crimson, e que fez adeptos entregarem seus ouvidos desde o final dos anos 60 dando uma atenção muito grande com o grupo. Esta faixa também foi baseada certamente quando Robert Fripp lançou na época em 1.981 o album com a banda new wave, "The League of Gentlemen" em faixas como "Heptaparaparshinokh" ou "Eye needless" e foi baseada num anagrama de "Calor na selva", mas de uma maneira geral a música tem bem um estilo étnico. Belew canta letras muito sem significado e a parte do qual durante o trecho solo da faixa as letras são citadas de maneira em forma de conversação normal que aparenta dizer uma anedota estranha sobre a sua própria gravação dos sons numa rua e um policial o prende por um movimento suspeito. Durante a parte solo Fripp faz efeitos sonoros com a guitarra que lembram os idênticos feitos na faixa "Lead a nomral life" do vocalista Peter Gabriel em "Peter Gabriel III" (1.980).

"The sheltering sky" - é a maior faixa do album com quase 8:30 minutos de duração e a maior inclusive da trilogia dos anos 80 do King Crimson. Instrumental, é considerada uma das mais tranquilas melodias deste trabalho e muito difícil de encontrar alguma banda que gravou uma melodia do tipo parecida. Alguns fãs do King Crimson acredita que esta faixa tem mais a ver com o album seguinte, "Beat" (1.982). O King Crimson cria um ambiente sonoro muito bonito e por outro lado um tanto misterioso como se parecesse que é um passeio numa canoa passeando num rio muito calmo e silencioso. Bruford se manteve o mais discreto possível para que faixa saisse da maneira como foi finalmente editada e o que está presente é mais a percussão do que as baterias. Levin também cria impressionantes melodias sonoras com o Stick ao longo da faixa sendo que se não bastasse temos Fripp que curiosamente com sua guitarra cria uma melodia que lembra muito o som feito por um trompete e fazendo a música tornar-se mesmo com toda a sua tranquilidade desde o início ao fim tendo uma sonoridade também jazzística.

"Discipline" - instrumental também, olhe o que virou essa palavra; a faixa-título do trabalho e o nome que seria a banda se não fosse com o nome de King Crimson. Nos anos 90 se tornaria o nome de uma outra banda de tipo Neo-prog. Fripp já tinha explorado uma melodia deste tipo em faixas dos albuns "Let the power fall" (1.981) e "God save..." (1.980), mas aqui neste caso foi incluso para "incrementar" a melodia a percussão de Bruford e os toques de baixo de Levin é só ouvir atentamente as referências. As guitarras de Fripp e Belew estão muito emparelhadas sobre o ritmo de 4/4 e 5/8 e por sinal muito unidas mas ainda assim percebe-se a complexidade estrutural do que ela acabou sendo editada na gravação podendo ser considerado para os guitarristas um excelente exercício técnico mesmo com toques dedilhados constantemente muito repetitivos.


Dados da resenha:
Autor: Marco Antônio Batalha (marco); recebida em: 02/02/2005.
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Após o fim abrupto do King Crimson em 1974, quando a banda estava no auge, Robert Fripp trabalhou com artistas como Peter Gabriel, Daryl Hall, Brian Eno e David Bowie. Em 1980, Fripp remontou quase que por acidente o King Crimson, chamando de volta o baterista Bill Brufford, que tocara na última formação da banda, o guitarrista e vocalista Adrian Belew, que tocara com Frank Zappa e Talking Heads, e o baixista Tony Levin, um músico de estúdio com grande experiência. Em 1981, essa formação lançou o primeiro dos seus três álbuns dos anos 80, "Discipline", em que, com suas sete faixas, criou e desenvolveu um novo estilo de progressivo, quase sem paralelo em sofisticação. A banda buscou inspiração em fontes tão díspares e improváveis como a música gamelã da Indonésia, o minimalismo e o industrialismo. As métricas eram complexas, com fraseados sobrepostos e não-sincronizados entre os instrumentos. Havia muitas mudanças de tons: por exemplo, em "Thela hun ginjeet" – um anagrama de "Heat in the jungle" – havia quatro delas; em "Discipline", nove. A principal contribuição dessa formação do King Crimson, contudo, veio dos experimentos de Fripp com os rápidos padrões estacatos, em que as passagens mais impressionantes eram aquelas em que dois, três ou quatro músicos tocavam a altíssima velocidade ostinatos que se entremeavam e se contrapunham em uma textura pontilhística que lembrava as orquestras gamelãs indonésias. A música gamelã envolve uma orquestra com cerca de 30 músicos tocando vários instrumentos de percussão, e sua característica mais marcante é o "coteque", ou "entrelaçamento", isto é, o compartilhamento de uma melodia por vários instrumentos. Dividindo-se uma melodia em segmentos entrelaçados, pode-se criar um andamento rápido. Na música gamelã, diferentes músicos tocam diferentes padrões curtos simultaneamente para criar uma frase musical completa. Tais texturas intricadas levam inexoravelmente à polimetria e, nesse álbum do King Crimson, isso pode ser encontrado nas faixas "Elephant talk", "Frame by frame" e "Discipline". O conceito do "roque gamelão" foi menos uma incorporação de timbres exóticos e mais uma internalização e transformação dos conceitos texturais e composicionais indonésios. O conceito e os experimentos feitos pela banda em "Discipline" continuariam nos outros dois álbuns que compuseram a trilogia dos anos 80 do King Crimson, "Beat" e "Three of a perfect pair".

Fontes: "Robert Fripp - from Crimson King to crafty master", Eric Tamm; "Indonesia: Bali: Gamelan & Kecak" e "Indonesia: Java: Court Gamelan vol. 3", CDs lançados pela série Explorer.