
Inglaterra, 1981.
Adrian Belew
- vocal principal, guitarras, letras.
Robert Fripp - guitarras
elétricas e acústicas e efeitos sonoros.
Tony Levin - baixo, stick,
vocal de apoio.
Bill Bruford - baterias,
percussão.
Faixas:
1. Elephant talk - 4:47
2. Frame by frame -
5:08
3. Matte Kudasai - 3:45
4. Indiscipline - 4:31
5. Thela Hun Ginjeet - 6:25
6. The sheltering sky - 8:22
7. Discipline - 5:02
|
King Crimson
Discipline
"Discipline" é um album que inicia sem sombra de
dúvidas uma nova etapa do King Crimson, mas não
foi feito tão a toa. Em setembro de 1.975 quem
acompanhava o King Crimson talvez não imaginaria
que Robert Fripp decretasse o "fim" da banda e
boa parte do público sendo surpreendido por tal
efeito. "Red" (1.975) seria o último album de
estúdio lançado pelo grupo que era até então um
quarteto (e não um trio como muitas pessoas
afirmam, pois se Peter Sinfield o letrista
original da banda era um integrante a partir da
fundação do King Crimson e do album "In the
court of the Crimson King" (1.969), por que
então Richard Palmer-James letrista a partir de
"Larks´ tongues in aspic" (1.973) também não
seria?) com alguns convidados sendo Ian McDonald
até um deles e o violinista David Cross.
Cada um foi para um canto, mas dois deles
retornariam no início dos anos 80, mais
precisamente no final do ano de 1.980 e início
de 1.981: Robert Fripp e Bill Bruford, ou seja
50% do album "Red". Mas o que estes fizeram
durante estes 5, 6 anos de ausência da banda?
Estiveram mantendo contato com trabalhos
diferenciados e pelo visto esta ausência foi
muito boa para ambos, especialmente Fripp,
considerado ao decretar as "férias" do King
Crimson nada menos que o comandante do grupo.
Fripp esteve ocupado trabalhando com artistas de
nome como Peter Gabriel, David Bowie e Daryl
Hall e além disso se dispôs em efetuar sua
carreira exclusivamente solo o qual determinava
o nome "The Drive to 1.981". Muitas pessoas
pensam que albuns como "The cheefully insanity
of Giles, Giles & Fripp" (1.968) com os irmãos
Giles e "No pussyfooting" (1.973) numa parceria
com Brian Eno são trabalhos solos, de fato este
último talvez, mas o primeiro album solo do
guitarrista é "Exposure" (1.979).
"The Drive to 1.981" compreendeu o período de
1.977 até 1.984, segundo o próprio Fripp durante
o momento em que estivesse no mercado musical
sem ser manipulado apresentando um punhado de
idéias de sua disciplina musical, entre outras
palavras, Fripp estava preparado para uma nova
etapa de sua carreira musical em sua vida. Este
período de 7 anos abrange desde suas
participações musicais com outros artistas assim
como as gravações iniciais de "Exposure", indo
mais longe gravando albums como "God save the
Queen/Under heavy manners" (1.980), "Let the
power fall" (1.981), a banda "The League of
Gentlemen" que gravou um album entitulado no
mesmo nome no ano de 1.981 (Detalhe: na metade
dos anos 60 Fripp já tinha formado uma banda com
este nome antes mesmo do "Giles, Giles & Fripp")
e a trilogia do King Crimson pertencente nos
anos 80. A idéia do "The Drive..." era se
finalizar segundo o guitarrista em 11 de
setembro de 1.981 (repare que em justos 6 anos
atrás desta data o King Crimson encerraria suas
atividades nos anos 70) coincidindo com um
evento astronômico que ocorreria em relação ao
alinhamento de todos os planetas do sistema
solar que preparariam o despertar da humanidade
na época, mas acabou não ocorrendo porque o King
Crimson já estava com o album "Discipline"
pronto naquele ano próximo daquele período se
extendendo até a metade de 1.984.
Este album "Discipline" (assim como a trilogia
dos anos 80 do King Crimson) é bem possível que
Fripp premeditou aquilo que foi gravado durante
a sua carreira de artista solo anos antes porque
se o ouvinte que já conhece o artista pode
prestar com muita observação os trabalhos solo
do guitarrista verá como tem muito a ver na
música do King Crimson em seus anos 80 (e a
partir dos anos 90).
Associado desde 1.973 na banda a partir do album
"Larks´ tongues in aspic", o segundo músico,
Bill Bruford, a grande verdade é que Michael
Giles, fundador do King Crimson durante o final
dos anos 70 manteve contato com Fripp sugerindo
ao guitarrista mudar o som e o tipo da banda
(pois só mudavam as formações de album por album
nos anos 70) e possivelmente ocuparia pela
sugestão o lugar de Bruford antes mesmo até a
banda se chamar de "Discipline", também no
início dos anos 80. Giles inclusive partiu da
idéia de Fripp elaborar uma banda que fosse um
duplo-trio, que foi o surgido a partir dos anos
90 em "Vrooom" (1.994), mas a decisão partiu de
Fripp convidar novamente recrutando o
profissionalismo de Bruford em "Discipline" que
durante sua ausência esteve em bandas como o
"Genesis" (participa do "Seconds out" (1.977),
mesma banda que tem a participação de Fripp na
estréia do fundador do "Genesis", Peter Gabriel,
gravando "Peter Gabriel I" (1.977)), "Gong",
posteriomente inicia sua então carreira solo
estreiando no album "Feels good to me" (1.977) e
fundando o "UK" em 1.978 junto com outro
ex-crimsoniano presente também no album "Red", o
vocalista e baixista, John Wetton, o guitarrista
Allan Holdsworth e o tecladista/violinista Eddie
Jobson.
Bruford se identificou com o jazz-fusion o que
mais tardar adotaria o estilo de vez com a banda
"Bill Bruford´s Earthworks" na metade dos anos
80 após a segunda dissolução do King Crimson em
1.984. Com o King Crimson dos anos 80 o
baterista soube perfeitamente mesclar as
baterias e percussão eletrônica (que estão
fortissímamente presentes) com a acústica. O
mais curioso é que durante a boa parte desse
tempo se dedicando com outras atividades as
baterias e percussão eletrônicas estão quase que
praticamente ausentes.
Buscando ao andamento da formação Fripp chega a
convidar o ex-crimsoniano John Wetton, mas
naquela época no início dos anos 80 o músico se
engaja num projeto muito ambicioso fundando o "Asia"
junto com outros profissionais renomados na
formação com Steve Howe, nas guitarras e
Geoffery Downes, nos teclados e ambos do "Yes"
que também originaram o "fim" da banda na época
no início de 1.981 tendo o último album gravado
"Drama" (1.980) e associados os três com o
excelentíssimo baterista e percussionista Carl
Palmer que era fundador e integrante do
"Emerson, Lake & Palmer" finalizando a banda
numa etapa no ano de 1.980. Wetton é substituído
por Adrian Belew que já tinha gravado com "Talking
Heads", "David Bowie" e os jazzista de fusion
Frank Zappa e Herbie Hancock substituindo também
um segundo integrante em "Red" que no caso seria
Richard Palmer-James e se encarregaria de fazer
as guitarras, efeitos sonoros e seria o novo
letrista da banda agora com letras hilárias e
bizarras. Belew não surgiu por acaso, ele
possuia uma banda que se chamava "Gaga" e fez
pelo menos 5 apresentações junto com a banda de
apoio de Fripp "The League of Gentlemen" que
excursionaram no ano de 1.980 e Belew era muito
versátil na guitarra além de ser jovem e estando
com uma geração nova de músicos como era o caso
dos "Talking Heads".
Antes que surgissem como King Crimson, se
denominaram "Discipline" e até então faltava o
baixista sendo o primeiro nome a ser indicado
foi Jeff Berlin sugerido por Bruford já que este
havia estado com o baterista em seus trabalhos
solo, Fripp se entusiamou com o mesmo mas o seu
estilo não era o que Fripp ainda desejava; ele
queria se certificar de ter uma qualidade
certeira pessoal com relação ao baixista
escolhido e daí no terceiro dia de audiências da
escolha do profissional, surgiu Tony Levin.
Levin era um ativo músico de estúdio e sessões e
um de seus últimos trabalhos na época era do
ex-The Beatles, John Lennon junto com a
companheira Yoko Ono em "Double Fantasy" gravado
em 1.980 e o último por sinal da carreira de
Lennon antes que ele sofresse o atentado de um
fanático que lhe causou sua morte em dezembro
daquele ano nos Estados Unidos. O baixista
também não era desconhecido por Fripp porque
curiosamente estreiou no mesmo trabalho de
estréia de Peter Gabriel em 1.977 e no solo de
Fripp "Exposure" e sua experiência ainda contava
com músicos muito conhecidos desde o jazz até o
pop como Judy Collins, Deodato, Herbie Mann,
Carly Simon, Paul Simon e Alice Cooper, uma
experiência sem fronteiras para muitos.
Com a formação completa esses quatro músicos se
apresentam como "Discipline" mas ainda entre
eles estavam um tanto incomodados com este nome
porque Belew e Levin sendo americanos não se
sentiam bem com um nome destes no país de
nascença e Bruford ainda tinha a emoção da época
quando estava na banda nos anos 70 com o que
tocava naquela banda; por outro lado Fripp (o
"chefe" do grupo) batia os pés no chão para ter
algo inovador em sua nova fase de carreira que
não fosse o nome de King Crimson, mas atende ao
pedido dos outros companheiros e eis que então
surge a imprensa e ao público na metade de 1.981
o esperado grupo depois de anos de ausência
separado por duas palavras: King Crimson.
Em setembro de 1.981 o nome da "ex-banda", o
"Discipline" se torna título do album da
trilogia e se torna em 1.993 o nome de uma banda
americana de estilo Neo-prog lembrando "Marillion"
e "IQ". O album conta com a participação do
produtor Rhett Davies que trabalhou com diversos
artistas como "Roxy Music", "Camel", "Brian Eno"
e na época com "The B-52´s", teve auxílio de
Nigel Mills.
A capa foi feita pela coordenação do artista
plástico Peter Saville que trabalhou muito com
músicos dos anos 80 especialmente como "New
Order", "Joy Division" e outros como "Roxy Music",
"Pulp" e "Suede". Mesmo sendo com a EG Records,
o desenho da capa que no caso um emaranhado de
cordões serviu futuramente como um símbolo de
elaboração da gravadora DGM, além de é claro o
próprio nome do album neste caso (Discipline
Global Mobile, sendo Robert Fripp inclusive um
dos fundadores). Outro detalhe da capa, a cor,
pois o último album de estúdio da banda era "Red",
que significa "vermelho" e neste trabalho a cor
é totalmente em vermelho, e o mais curioso ainda
é que na trilogia dos 3 albums dos anos 80 do
King Crimson, as capas foram projetadas
completamente com simples desenhos frontais e
com frentes e versos de cores vermelho, azul e
amarelo respectivamente, ou seja as cores
primárias utilizadas na arte de colorir algo.
O King Crimson fez certeiramente uma música que
retrata o que seria os anos 80, graças a
filosofia pensada por Robert Fripp durante a
época em que manteve a banda ociosa ocupado com
sua carreira solo. Este trabalho inicia uma das
formações mais respeitadas e admiridas pelos fãs
do King Crimson que inclusive consideram uma das
melhores até então feita desde o album de
estréia "In the court..." por mais que este
citado anteriormente tem uma das formações mais
marcantes de uma outra época, mas "Discipline" é
de fato uma marca registrada de música inovadora
que em alguns casos de pessoas que até são
adeptos da música punk se cativam pelo King
Crimson neste período sem ter um conhecimento
sequer do que a banda fora nos anos 70 o que com
o tempo esses admiradores acabam adorando a
banda mesmo no início de carreira, mas tendo
centralizado a época desta trilogia sendo a
melhor impreterivelmente pois a sonoridade está
muito relacionada entre um período após o punk e
o new wave.
Apesar de possuir apenas pouco mais de 35
minutos de duração com músicas simples, são
muito bem estruturadas, elaboradas, criativas,
interessantes e dançantes. Para aquelas pessoas
que conhecem o termo rock progressivo
estranharia serem dançantes, mas realmente é
possível em quase todas as faixas assimilar o
que acontecerá na trilha inteira durante os
primeiros 30 segundos o que praticamente a
sonoridade permanecerá até o encerramento da
mesma razoalvelmente repetitiva e justamente o
que faz tornar o King Crimson é a inovação
especialmente da percussão de Bruford, um dos
pontos fortes dos anos 80 no King Crimson pois o
baterista foi um dos primeiros bateristas de
bandas progressivas sinfônicas da época a
utilizar o kit de baterias e percussão
eletrônica e deve ser ressaltado que esses
instrumentos não são o mesmo que percussão
eletrônica que existem em samplers e teclados
sintetizadores pois neste caso algum músico (que
é no caso Bruford) toca os instrumentos (e ainda
assim tem sonoridade ao fundo das faixas com a
presença de baterias e percussão acústicas,
embora fortemente presente as do tipo
eletrônicas) e não simplesmente alguém que
aciona botoeiras e não exista fisicamente um
baterista.
O que ajudou a música se tornar dançante também
foi Levin que quase sempre pela experiência
vivida antes da banda possuia uma complexa
capacidade competente de fazer ritmos dançantes
de uma forma muito discreta especialmente nas
apresentações com seu baixo e Chapman Stick (é
um instrumento elétrico com 5 cordas superiores
tocadas pela mão direita e 5 cordas inferiores
tocadas com a mão esquerda envolvendo técnicas
que envolvem elementos de sonoridade tanto de
guitarra e teclados quando os dedos do músico
direcionam contato com as cordas fazendo notas
dobradas, osciladas como da técnica de um violão
sendo capaz de produzir uma ordem extensa e
ampla de timbres).
Isso sem mencionar Belew que parece resguardar
aquilo que a banda "Talking Heads" teve em sua
colaboração em "Remain in light" (1.980) num dos
últimos albums do qual participa.
E quanto a Fripp? O ouvinte confirmará que as
tentativas de mudanças na música do King Crimson
sempre lhe valeram a intenção. Apenas imagine
alguém que conheceu a música na época que a
banda estreiava em 1.969 e outro alguém que só
conheceu a música na época que o King Crimson
ressurgiu em 1.981.
"Elephant talk" - em 1.968, Fripp gravou uma
faixa com o GGF no album "The cheerful insanity
of Giles, Giles & Fripp" chamada "Elephant song"
e o mais curioso o nome das faixas retratarem o
animal elefante no caso do GGF é o trombone que
induz o ruído do animal; aqui Belew é o
responsável que retrata ruídos com efeitos
sonoros lembrando também um elefante. Diferente
da música sim daquela ocasião que obviamente era
muito acústica e esta já em seus primeiros
segundos de duração o ouvinte pode começar a
acostumar com a estréia da música do King
Crimson que irá começar uma outra era, um novo
tempo, uma nova marca registrada da banda é só
reparar no baixo de Levin e a bateria de Bruford.
A letra de Belew é interessante pois ele cria
vários sinômimos da palavra "talk" e em cada
refrão (que no caso são 5) ele recita palavras
que no primeiro refrão iniciam com a letra "A",
no segundo refrão iniciam com a letra "B" até o
quinto e último que iniciam com a letra "E",
isso sem contar que parece que ele dita as
letras como se estivesse conversando normalmente
em 5 situações diferentes. Destaque para os
acordes da guitarra de Fripp, são muito
bizarros.
"Frame by frame" - se tornou o nome da caixa de
uma coletânea da banda em 1.991. Robert Fripp
não abriu mão de trazer algo que foi feito em
seus trabalhos solos e os rápidos acordes (que
parecem ter sido de uma forma programada) são
quase os mesmos que estão na faixa "The Zero of
the signified" no album "God save..." (1.980) e
regravado em "God save the King" (1.985) como a
faixa-título pelo "The League of Gentlemen" e os
ritmos simultâneos e a constante mudança de
notas da guitarra de Fripp entre 6 e 7 tempos
com os acordes tocados em 7/8 de Belew além de
se alterarem, crescem a cada compasso. Alguns
críticos técnicos da arte da guitarra consideram
que Fripp se incentivou com a experimentação da
arte feita por Robert Reisch. Detalhe: o
guitarrista Steve Hillage (ex-Gong) também
gravou uma faixa com este mesmo nome no album
"For to next and not or" (1.983) embora seje
também gravada numa sonoridade eletrônicamente,
mas um tanto diferente desta que possui
minúsculas letras e tem o apoio dos vocais de
Levin.
"Matte Kudasai" - além de ser a menor faixa do
trabalho com pouco menos de 4 minutos, é a
"balada" do album, muito bela e bonita, com uma
melodia também suave e tranquila ao longo da
faixa inteiramente num estilo bem blues e
geralmente na grande maioria das apresentações
não fica de fora do set-list. Os arranjos e a
sonridade desta faixa foram descaradamente
baseados na faixa "North star" do album solo de
Fripp em "Exposure" (1.979), mas até ai que é
que vai se incomodar com este detalhe? Para quem
não sabe o nome da faixa quer dizer "Por favor,
espere" em japonês. A guitarra de Fripp parece
mais do que "celestial" e "flutuante" enquanto
que o vocal pop de Belew procura se "enganchar"
nos ouvidos dos ouvintes como por exemplo, na
frase "she waits in the air, matte kudasai" algo
jamais até então naquele momento feito pelo King
Crimson (e olhe que isso já é nos anos 80
!!!!!). Belew fez inclusive as letras
especialmente se baseando numa composição
poética com intenção de ser recitada para a sua
esposa. A edição em CD possui uma outra versão.
"Indiscipline" - é a faixa que mais se
diferencia de todas as demais. Diferencia porque
como citado anteriormente, o ouvinte não
consegue ter noção de adivinhar no que ocorrerá
por 30 segundos porque a faixa está dividida em
outros temas. É uma das faixas mais agressivas
inclusive do trabalho e novamente tem alguns
momentos que foram retirdados também do album "Exposure"
de Fripp em faixas como "Breathless", "Disengage"
ou "NY3" e facilmente chama atenção daquelas
pessoas que gostam de uma sonoridade hard-rock
em especial, claro que baseado com a tecnologia
que o King Crimson investiu naquele início de
anos 80 e por outro lado mostra o lado um tanto
"dramático" da sonoridade como um todo e
especialmente a de Belew ao recitar as letras;
no que será que ele estava preocupado conforme
citava as letras? Claro que tem algumas etapas
da faixa que são muito tranquilas, mas
repentinamente se tornam muito selvagens. Alguns
fãs do King Crimson também não entendem porque
esta faixa até está neste album e não no "Three
of the perfect pair" (1.984) que tem um pouco a
ver, além de ser posteriormente da faixa "Matte
Kudasai" que é mil vezes mais tranquila do que
esta, mas isto são coisas mesmo de músico quando
gravam e deixam seus "rastros" de mistérios e
polêmicas. A resposta fica por conta da opinião
do ouvinte que não conhece esta música e encerra
repentinamente a faixa de vez com uma seguinte
frase sendo citada: "I like it".
"Thela Hun Ginjeet" - esta é talvez considerada
uma das faixas mais "dançantes" e com a melodia
exclusivamente repetitiva do início ao fim com
aproximadamente 6:30 de duração e um destaque
sem sobra de dúvida para Bruford que mesmo sendo
editada pela percussão eletrônica dá uma leve
impressão que existem 2 bateristas tocando. Para
aquelas pessoas que só adoram dançar em
disco-clubs sem se preocupar quem é o artista
que toca no momento, provavelmente iriam adorar
uma faixa que no fundo tem ainda o seu lado
acústico como música, sem ter noção inclusive de
uma banda que é no caso o King Crimson, e que
fez adeptos entregarem seus ouvidos desde o
final dos anos 60 dando uma atenção muito grande
com o grupo. Esta faixa também foi baseada
certamente quando Robert Fripp lançou na época
em 1.981 o album com a banda new wave, "The
League of Gentlemen" em faixas como "Heptaparaparshinokh"
ou "Eye needless" e foi baseada num anagrama de
"Calor na selva", mas de uma maneira geral a
música tem bem um estilo étnico. Belew canta
letras muito sem significado e a parte do qual
durante o trecho solo da faixa as letras são
citadas de maneira em forma de conversação
normal que aparenta dizer uma anedota estranha
sobre a sua própria gravação dos sons numa rua e
um policial o prende por um movimento suspeito.
Durante a parte solo Fripp faz efeitos sonoros
com a guitarra que lembram os idênticos feitos
na faixa "Lead a nomral life" do vocalista Peter
Gabriel em "Peter Gabriel III" (1.980).
"The sheltering sky" - é a maior faixa do album
com quase 8:30 minutos de duração e a maior
inclusive da trilogia dos anos 80 do King
Crimson. Instrumental, é considerada uma das
mais tranquilas melodias deste trabalho e muito
difícil de encontrar alguma banda que gravou uma
melodia do tipo parecida. Alguns fãs do King
Crimson acredita que esta faixa tem mais a ver
com o album seguinte, "Beat" (1.982). O King
Crimson cria um ambiente sonoro muito bonito e
por outro lado um tanto misterioso como se
parecesse que é um passeio numa canoa passeando
num rio muito calmo e silencioso. Bruford se
manteve o mais discreto possível para que faixa
saisse da maneira como foi finalmente editada e
o que está presente é mais a percussão do que as
baterias. Levin também cria impressionantes
melodias sonoras com o Stick ao longo da faixa
sendo que se não bastasse temos Fripp que
curiosamente com sua guitarra cria uma melodia
que lembra muito o som feito por um trompete e
fazendo a música tornar-se mesmo com toda a sua
tranquilidade desde o início ao fim tendo uma
sonoridade também jazzística.
"Discipline" - instrumental também, olhe o que
virou essa palavra; a faixa-título do trabalho e
o nome que seria a banda se não fosse com o nome
de King Crimson. Nos anos 90 se tornaria o nome
de uma outra banda de tipo Neo-prog. Fripp já
tinha explorado uma melodia deste tipo em faixas
dos albuns "Let the power fall" (1.981) e "God
save..." (1.980), mas aqui neste caso foi
incluso para "incrementar" a melodia a percussão
de Bruford e os toques de baixo de Levin é só
ouvir atentamente as referências. As guitarras
de Fripp e Belew estão muito emparelhadas sobre
o ritmo de 4/4 e 5/8 e por sinal muito unidas
mas ainda assim percebe-se a complexidade
estrutural do que ela acabou sendo editada na
gravação podendo ser considerado para os
guitarristas um excelente exercício técnico
mesmo com toques dedilhados constantemente muito
repetitivos.
Dados da resenha:
Autor:
Marco Antônio Batalha (marco);
recebida em:
02/02/2005.
Comente e veja outras opiniões
aqui.
Após o fim abrupto do
King Crimson em 1974, quando a banda estava no
auge, Robert Fripp trabalhou com artistas como
Peter Gabriel, Daryl Hall, Brian Eno e David
Bowie. Em 1980, Fripp remontou quase que por
acidente o King Crimson, chamando de volta o
baterista Bill Brufford, que tocara na última
formação da banda, o guitarrista e vocalista
Adrian Belew, que tocara com Frank Zappa e
Talking Heads, e o baixista Tony Levin, um
músico de estúdio com grande experiência. Em
1981, essa formação lançou o primeiro dos seus
três álbuns dos anos 80, "Discipline", em que,
com suas sete faixas, criou e desenvolveu um
novo estilo de progressivo, quase sem paralelo
em sofisticação. A banda buscou inspiração em
fontes tão díspares e improváveis como a música
gamelã da Indonésia, o minimalismo e o
industrialismo. As métricas eram complexas, com
fraseados sobrepostos e não-sincronizados entre
os instrumentos. Havia muitas mudanças de tons:
por exemplo, em "Thela hun ginjeet" – um
anagrama de "Heat in the jungle" – havia quatro
delas; em "Discipline", nove. A principal
contribuição dessa formação do King Crimson,
contudo, veio dos experimentos de Fripp com os
rápidos padrões estacatos, em que as passagens
mais impressionantes eram aquelas em que dois,
três ou quatro músicos tocavam a altíssima
velocidade ostinatos que se entremeavam e se
contrapunham em uma textura pontilhística que
lembrava as orquestras gamelãs indonésias. A
música gamelã envolve uma orquestra com cerca de
30 músicos tocando vários instrumentos de
percussão, e sua característica mais marcante é
o "coteque", ou "entrelaçamento", isto é, o
compartilhamento de uma melodia por vários
instrumentos. Dividindo-se uma melodia em
segmentos entrelaçados, pode-se criar um
andamento rápido. Na música gamelã, diferentes
músicos tocam diferentes padrões curtos
simultaneamente para criar uma frase musical
completa. Tais texturas intricadas levam
inexoravelmente à polimetria e, nesse álbum do
King Crimson, isso pode ser encontrado nas
faixas "Elephant talk", "Frame by frame" e
"Discipline". O conceito do "roque gamelão" foi
menos uma incorporação de timbres exóticos e
mais uma internalização e transformação dos
conceitos texturais e composicionais indonésios.
O conceito e os experimentos feitos pela banda
em "Discipline" continuariam nos outros dois
álbuns que compuseram a trilogia dos anos 80 do
King Crimson, "Beat" e "Three of a perfect pair".
Fontes: "Robert Fripp - from Crimson King to
crafty master", Eric Tamm; "Indonesia: Bali:
Gamelan & Kecak" e "Indonesia: Java: Court
Gamelan vol. 3", CDs lançados pela série
Explorer.
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