Inglaterra, 1997.


Banda:

Robert Fripp: Guitarra
Tony Levin: Baixo, Sintetizadores, Stick
Trey Gunn: Warr touch guitar
Bill Bruford: Bateria e Percussão


Faixas:

1 - 4i1
2 - 4ii1
3 - 1ii2
4 - 4ii4
5 - 2ii3
6 - 3i2
7 - 3ii2
8 - 2ii4
9 - 4i3


King Crimson    

ProjeKct One: Live at the Jazz Cafe

 
Dados da resenha:
Autor: Rodrigo Guabiraba (Guabiraba); recebida em: 01/05/2004.
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Que o Crimson pode soar absolutamente inacessível e indigesto, convenhamos, é verdade. Após a fase clássica, setentista, do proto-prog ao hard-prog, recheado de Mellotrons e guitarras altamente ácidas, Fripp e cia. migraram para um "Crimson-Pop" incompreensível para a maioria dos fãs setentistas, que decepcionados, rejeitam pérolas como Discipline, de 81. Independente disso, a longa ausência da banda no restante dos anos 80 foi justificada pelo excelente trabalho solo de Fripp, reinventando a guitarra com texturas altamente novas pelo mundo afora. O retorno da banda nos anos 90 com álbuns de sonoridade industrial, mascarando um progressivo mecânico, não agradou a totalidade dos fãs, apesar da indiscutível qualidade de algumas músicas contidas em álbuns como Vroom, The ConstruKction of Light e o novíssimo The Power to Believe, para mim o melhor da "nova era". Sim, Fripp, apesar da enorme experiência e irrestrita criatividade consegue soar repetitivo em muitos trechos dos trabalhos atuais da banda. O restante da banda segue o mesmo rumo, mesmo que Adrian Belew contribua com um "quê" diferenciado, tanto nos vocais como em sua excelente habilidade guitarrística. Bill Bruford não gravou muita coisa no final dos anos 90 com a banda, e Pat Mastelotto, seu sucessor, por sinal bom baterista, soa em demasia eletrônico, até artificial, na maioria de seus trabalhos.

Como uma oficina de estudos para o aprimoramento do som desta fenomenal banda, Fripp criou uma série de "ProjeKcts", ou seja, projetos com diferentes formações da banda (revezando os 6 membros mais atuais). Gravados ao vivo a partir de 97, totalizando 4 projetos, o que mais me agrada talvez seja este primeiro, gravado ao vivo no Jazz Cafe, em Londres, entre 1 e 4 de dezembro de 1997.

A formação é impecável. O mestre Robert Fripp empunha sua guitarra Gibson com a qualidade de sempre. Manipula um ou outro pedal e tira algumas notas que, segundo alguns, podem causar orgamos ou mesmo azia. Tony Levin, lenda viva do baixo no rock, conduz a seção rítmica junto a Bill Bruford, com um som rude e bastante grave no baixo. Sem contar as várias passagens etéreas criadas pelos sintetizadores e pelo stick (instrumento bizarro que parece um "tôco" com cordas). Bruford é um mago da percussão. Em nenhuma das faixas, que por sinal estão conectadas, ele se repete, criando compassos absolutamente anormais e quebras de ritmo desconcertantes. O som da bateria esta excelente, límpido, e detalhe: puramente acústica. Estes dois fatores fazem uma diferença grande quando se compara seu som ao de Mastelotto. Trey Gunn é um jovem guitarrista e baixista que trouxe ao Crimson uma novidade bem estranha: as guitarras Warr. Guitarras com afinação grave, um meio termo entre o baixo e a guitarra convencional, com mais cordas que o normal. Se tem um cara no rock que domina essas guitarras com excelência é Trey Gunn, e, para nosso deleite, ele faz isso no Crimson !

Todos estes músicos proporcionam nesta gravação um poderoso encontro entre improvisação e técnica apurada, aliada a boas doses de esquizofrenia e falta de limites precisos entre o lógico e o absurdo, marcas registradas de Robert Fripp. O som de cada faixa está muito claro e o pequeno ambiente contribui decisivamente.

Todas as faixas são instrumentais, sendo as duas primeiras bons rocks industriais grooveados de excelente qualidade, nada comparado ao que o Crimson gravou nesta ultima década. Fripp com dedilhado veloz, super distorção, e Bruford desferindo baquetadas em um tempo que, até agora, não consegui calcular. Nas duas faixas, Gunn e Levin criam uma sobreposição baixo-touch guitar que deixa a seção rítmica com um som grave raivoso interessantíssimo.

As duas faixas seguintes (perdão por não citar o nome delas e de outras do álbum, em demasia anormais) são temas mais etéreos, com pelas passagens de Fripp e Levin nos sintetizadores. A quarta faixa é Tony Levin ao extremo: baixo hipnótico, técnico e poderoso...

Insisto em frisar: Bill Bruford é de destreza notável e faz, junto a Levin, a grande diferença entre esta e as formações posteriores do King Crimson.

As faixas restantes, pelo caráter experimental e instrumental, apresentam características muito diferentes, mas a temática central, os efeitos, as levadas e os tempos atípicos estão diretamente ligados às características intrínsecas de cada músico, já bastante conhecidas no cenário. O álbum é um exemplo típico do King Crimson fazendo o som que bem entende, com talvez sua formação (pelo menos instrumental) mais poderosa. Algumas faixas se aproximam muito do que Fripp fez no Soundscapes e também com o Brian Eno, principalmente ao final do álbum, para quem conhece fica melhor imaginar a sonoridade.

Agressividade e sutileza (quase "new age", em um formato mais sombrio, claro...) na dose certa.

Os trabalhos de guitarra de Fripp, talvez pelo fato também do material ser totalmente inédito e instrumental, estão entre os melhores da sua carreira, fato que deve ser aqui exposto.

Trabalho essencial para fãs da banda que se perderam um pouco nos anos 90 com tantos discos estranhos, bootlegs e afins. Este álbum é um pouco difícil de se obter, mas compensa o esforço.

Outros trabalhos da série Projeckts merecem uma audição pelo menos curiosa, como o Projeckt Two, com o trio Belew, Fripp e Gunn, álbum estranhíssimo pela sua natureza essencialmente eletrônica e guitarrística.