
Japão, 1991.
Músicos:
Takashi Mizutani / vocais, guitarra
elétrica solo
Takeshi Nakamura / guitarra elétrica
Shoda Hiroshi / baixo elétrico
Toshiro Mimaki / bateria
Faixas:
1) Enter the Mirror (11:30)
2) Yoru Ansatsu (12:04)
3) Koori no Hon (16:12)
4) Kioku wa Too (11:35)
1) Yoru Yori Fu (15:32)
2) Untitled (8:30)
3) The Last One (25:24)
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Les Rallizes Dénudés
'77 Live
Dados da resenha:
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A
garage
hermetique transpsicodélica do
arquipélago do Sol Nascente é uma cornucópia
aparentemente infindável de deleite e
perplexidade para os cultores do
avant rock
em seu estágio mais supremo de desorientação
sônica. Formações tais como Fushitsusha, Taj
Mahal Travellers, Flower Travellin’ Band, High
Rise, AMT, Musica Transonic, Mainliner, Boris,
etc. são sublimes exercícios de puro delírio sem
quaisquer concessões e recuos, explorando com
máxima audácia todos os desvãos da psicodelia,
da plácida hipnose dos devaneios de
folk
psicoativo até colossais maremotos elétricos
transbordantes de
white noise
e brutalismo percussivo. E na raiz de todo este
estraçalhamento psíquico de garagem,
influenciando de forma decisiva toda a
siderurgia sonora japonesa ulterior, está a
mitológica banda que ora iremos abordar: Les
Rallizes Dénudés.
Como todo lost
classic que se preza, não seria possível
falar em LRD sem referir sua acidentada
trajetória. Pois muito bem: a banda formou-se em
novembro de 1967 na Universidade de Kioto, tendo
como eixo criativo e existencial precípuo a
críptica e mefistofélica figura de Takashi
Mizutani, um misantropo nosferatu neogótico
envolto em eterno couro preto e óculos escuros
impenetráveis. Entre 1968-69 o grupo tocou
bastante ao vivo, mormente em festivais
universitários,
happenings
políticos e também em parceria com um trupe
local de teatro
avant garde,
tornando-se conhecido pelos teores
excruciantemente altos de microfonia e distorção
de suas maciças
jams
psico-sônicas. Desde o começo Mizutani e sua
gang
estavam intimimamente ligados à esquerda
revolucionária japonesa, tendo participado de
numerosas demonstrações estudantis contra a
Guerra do Vietnã e da ocupação da Univ. de Kioto
em 1969, como protesto contra a presença militar
imperialista dos EUA no arquipélago japonês. Em
1970, um dos integrantes da formação original,
Wakabayashi, seria preso em virtude de sua
participação no chamado ‘incidente Yodo-Go’,
quando membros do movimento guerrilheiro
Sekigun
(Exército Vermelho Japonês) seqüestraram um
avião comercial e o desviaram para a Coréia
Popular. Mizutani também estava envolvido com o
Sekigun,
de modo que os concertos de seu grupo em larga
medida logo se tornariam eventos clandestinos;
conta-se que num deles, por exemplo, a banda
tocou numa escola secundária, distribuindo para
a platéia de estudantes cópias mimeografadas de
textos de Hegel, Lenin, Che Guevara, Cervantes,
Nietzsche e Ed Sanders. Malgrado o Les Rallizes
Dénudés tenha continuado a apresentar-se com
regularidade no decorrer das décadas de 70 e 80,
nenhum registro fonográfico seria lançado neste
longo período, e as sessões de gravação em
estúdio tampouco foram algo freqüente na rotina
do grupo. Em 1991, quando quase ninguém mais
sequer lembrava de sua existência, o grupo, numa
inesperada reviravolta, criou um selo (Sixe) e
lançou 3 álbuns simultaneamente:
'67-'69 Studio
and Live,
Mizutani - Les
Rallizes Dénudés e
'77 Live,
todos em limitadíssimas edições que logo se
tornariam raridade e passariam a ser disputadas
a tapas e preços exorbitantes por legiões de
ansiosos arquivistas do
underground.
A banda voltaria à obscuridade após este
surpreendente surto de atividade, encerrando
definitivamente suas atividades em 1996.
Dos três álbuns oficiais lançados em 91 (pois há
toneladas de
bootlegs em vinil, CD e CD-R, sobretudo
nos últimos 3 anos),
'77 Live
é indubitavelmente o melhor, apresentando o Les
Rallizes Dénudés em seu melhor
habitat,
o palco, quando a banda escancarava as portas de
percepção em tonitruantes
workouts
de noise rock
demencial, com patente destaque para o gerador
hellraiser
de alucinações psicodélicas seriais em que
Mizutani converte sua guitarra elétrica, em
fascinante contraste com o tom
old fashion
e alicerçado nas tradições de
rock singing
de seus vocais; e se nas gravações de estúdio os
camaradas costumavam praticar um
acid/psych
rock relativamente ‘estruturado’, ao vivo
a coisa realmente muda de figura, e como...!
Imaginai, pois, um Velvet Underground marciano
com transtorno de personalidade
borderline,
integrado por
pinheads viciados em benzedrina e munidos
de instrumentos de enésima categoria, tocando
uma interminável
Sister
Ray dentro de um pântano radioativo, com
o som saindo por uma vitrolinha mono defeituosa
mas amplificada por 1000 PA’s, e tereis uma vaga
idéia do que vós encontrareis pela frente neste
álbum...
Go for it,
acidheads!

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