
Gennady Ilyin
- sintetizadores e outros teclados,
canto. Igor Mihel - guitarras.
Faixas:
1. Porcelain Pavilion [2:57]
2. China Girl [5:40]
3. Nature [5:19]
4. Poet [4:11]
5. Moon on a Sea [3:15]
6. Creative Work [4:17]
7. Laos [5:10]
8. In the Heavens* [6:08]
9. The Way [4:51]
10. Fairytale [4:56]
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Little Tragedies - Porcelain Pavilion
(2001) Por
Rael
Little Tragedies, título de uma obra do poeta russo
Alexander Pushkin, é também designação de um
projecto musical russo, relativamente obscuro,
centrado no compositor e teclista Gennady Ilyin, que
nele conta com a colaboração do guitarrista e
produtor discográfico Igor Mikhel. Foi iniciado em
1999, dando continuidade ao trabalho do grupo
Paradox, outro projecto protagonizado por Gennady.
Diplomado em composição pelo Conservatório Estatal
Rimsky-Korsakov de S. Petersburgo, Gennady é um
entusiasta da música progressiva dos anos 70 e um
apaixonado pela sonoridade dos sintetizadores e
outros teclados típicos dessa década.
Porcelain Pavilion constitui o terceiro álbum
conceptual gravado pelos Little Tragedies, o qual, à
semelhança do segundo, "The Spirit of Sun", se
inspira no conjunto de poemas que o grande escritor
Nikilay Gumilev (1886-1921) publicou com o título
genérico de "Porcelain Pavilion".
Da dezena de peças que compõe o álbum, apenas uma,
"In the Heavens", é totalmente instrumental,
possuindo as restantes partes vocais, nas quais
Gennady canta em russo, a uma ou mais vozes, a
poesia simbolista de Gumilev. Todavia, o disco está
longe de constituir um conjunto de canções, já que
cada peça se afasta da estrutura típica da canção
(estrofe-refrão), apresentando grande
desenvolvimento instrumental.
O início do álbum é até enganador, pois aparenta ser
a introdução de um trabalho de neo-progressivo, com
a definição de linhas melódicas simples pelo moog e
o piano de Gennady, sublinhadas aqui e ali por
acordes bombásticos da guitarra distorcida de
Mikhel. No entanto as linhas não se repetem e
começam a surgir variações, e o talento musical do
compositor desencadeia um processo de revelação de
infindáveis surpresas que apenas se interrompe no
final da quinta faixa - passados 20 minutos! -, no
momento em que o piano recuperando a melodia
introdutória para a concluir com um singelo acorde
no registo mais agudo do piano.
A segunda "parte" deste todo que é Porcelain
Pavilion inicia-se com uma peça sugestivamente
intitulada "Creative Work", retomando a viagem
musical em que Genady nos conduz por diferentes
espaços e tempos, num contínuo de paisagens sonoras
de variadíssimos lugares e eras, de tirar o fôlego
ao viajante mais experiente. As evocações da música
clássica que o compositor tão bem conhecerá
repetem-se aqui: se, por exemplo, na primeira parte,
o ambiente do "Quebra-Nozes" de Tchaikovsky era
perfeitamente recriado, agora cabe a vez, por
exemplo, aos períodos barroco e impressionista - a
citação do "Bolero" de Ravel é inequívoca. A essas
evocações associam-se outras de origem popular,
russa ou oriental. A formação de Gennady em
composição permite-lhe até "justapor de forma
intricada" ritmos tão variados como a valsa vienense
ou a salsa tropical, criando igualmente uma complexa
sequência de harmonias apenas ao alcance dos grandes
criadores da música erudita.
Essa complexidade é suportada por uma técnica de
sobreposição de diferentes camadas de teclados -
piano, sintetizadores, órgão Hammond, cravo e piano
eléctrico -, que dão grande espessura ao som. A
riqueza tímbrica não se fica por aqui e é possível
ouvir, para além das discretas guitarras de Mikhel -
apenas se destacam na peça "In the Heavens" -, oboé,
flautas, glockenspiel e timbales, tocados por
músicos não creditados, ou pelo próprio compositor
através de "samples" de elevada qualidade.
Enquanto executante, a capacidade de Gennady, é
igualmente espantosa, revelando-se um verdadeiro
virtuoso, ao nível de Rick Wakeman, Keith Emerson,
Pär Lindh ou Csaba Vedres. Domina com uma facilidade
surpreendente a técnica dos diferentes teclados, mas
transcendendo-se no Moog de onde retira sons
admiráveis. Mas todo este virtuosismo é colocado ao
serviço da sua criativa escrita musical, nunca a ela
se sobrepondo.
Para concluir: este disco, se bem que evoque estilos
e épocas variadas, revela, através de uma linguagem
progressiva, uma obra de síntese muito original. Em
termos de criatividade, a sua riqueza é tão grande,
que qualquer produtor, menos escrupuloso e ligado a
uma multinacional discográfica, encontrava aqui
ideias musicais suficientes para produzir não um,
mas uma dezena de álbuns diferentes. Um trabalho
absolutamente recomendável.
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