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Zé
Ramalho – Viola, violão, guitarra,
percussão, coral. Lula
Cortês – Violão, Citara Marroquina,
Tricórdio, viola. Robertinho de recife – Violão,
viola, guitarra, percussão. Alceu Valença –
Violão, Pandeiro, zabumba, triangulo, coral.
Geraldo Azevedo - Violão, coral. Ivson
Wanderley "Ivinho" - Guitarra, Violão.
Zé da Flauta - Sax soprano, flauta. Paulo
Rafael – Guitarra, Violão. Lailson – Viola
12 cordas. Israel Semente - Bateria, percussão.
Faixas:
1. Trilha de Sumé
2. Culto à Terra
3. Bailado das Muscarias
4. Harpa dos Ares
5. Não Existe Molhado Igual ao Pranto
6. O M M
7. Raga dos Raios
8. Nas Paredes da Pedra Encantada
9. Marácas de Fogo
10. Louvação a Iemanjá
11. Regato da Montanha
12. Beira Mar
13. Pedra Templo Animal
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Lula
Cortes e Zé Ramalho - Paêbirú (1975) Por
Cavalo
Alado
Calma ! Se você está espantado de ver aqui o
nome do musico popular Zé Ramalho e se
perguntando “O que esse cara tem a ver com
progressivo ?”, você já deveria saber que
antes que Zé Ramalho lança-se seu disco de estréia,
inclusive com participação especial do Ex-Yes
Patrick Moraz em uma das faixas, ele foi um dos
responsáveis por um dos registros fonográficos
mais instigante e obscuro da musica brasileira,
disco esse que se destacou dentre os grandes
"classicos" do pscodelismo mundial ,
sendo muito elogiado na Europa e EUA, considerado
uma verdadeira “jóia rara” da musica. Tudo
isso, sem ter ate hoje um relançamento digno e a
altura de sua importância. E pensar que o sol
quente e a terra seca do nordeste daqueles tempos
difíceis, foram capazes de gerar uma relíquia de
valor inestimável para o mundo da musica. !
Em meio a explosão do rock progressivo na
primeira metade dos anos 70, um jovem Zé Ramalho
em inicio de carreira, já estava carregando
alguma bagagem musical, pois chegou a transitar
por bandas de rock com influencia da jovem guarda
no final dos anos 60 e inicio dos 70 como
guitarrista fazendo cover dos Beatles entre outras
bandas, porem as coisas eram muito difíceis
naquela antiga cidade de João Pessoa, para obter
algum reconhecimento, ainda mais para um estudante
de medicina que não largava do seu instrumento e
sonhava em viver de musica. Com muita vontade de
mudar, resolve desistir do curso e partir para
onde o meio musical realmente acontecia no Brasil,
o eixo Rio-São Paulo, porem ao chegar nas Metrópolis
não conseguiu obter alguma oportunidade o que o
fez voltar desiludido para Recife.
Quase paralelo a isso, mas precisamente em Outubro
de 72, um musico com conhecimento profundo em
musica Árabe, chamado Lula Cortês e que tocava
Citara Marroquina , conheceria numa Feira
Experimental de Música de Nova Jerusalém,
Lailson que tocava viola de 12 cordas no Trio
Phetus (formado por Lailson, Zé da Flauta e Paulo
Rafael, e terminou em 1973, sem deixar nada
gravado), e que hoje em dia é um grande produtor
gráfico, e ousaram gravar , de acordo com
pesquisadores o primeiro disco independente do
Brasil. O nome deste trabalho se chamava Satwa,
nome em sânscrito que significa Harmonia, feito
em janeiro de 1973 nos estúdios da Rozemblit, em
apenas dois canais. O disco ainda tinha a
participação de um iniciante guitarrista na época,
Robertinho do Recife e seu som era basicamente
pscodelia nordestina misturada com ritmos
regionais e alguma coisa de tropicalismo. Hoje uma
raridade e uma ousadia para a época ao lado de
“Não fale com parede” do grupo carioca Modulo
1000. Ao que consta o som deste disco não era
muito bom, mas tinha um conteúdo excelente, como
se não baste-se, ainda foi proibido pela censura.
Essa turma toda de musicos, incluindo os
integrantes do grupo Tamarineira Village foi
apelidado pela imprensa como a Turma do Beco do
Barato, por causa do bar onde costumavam tocar,
fazendo uma brincadeira baseado nos mineiros do
Clube da Esquina.
O que aconteceu é que em um desses encontros
entre músicos, na época Zé Ramalho que tocava
guitarra na banda de Alceu Valença, é
apresentado a Lula Cortes, e após longas
conversas sobre a profundidade da musica num
sentido quase espiritual, logo notam que tinham
uma identificação parecida, ao mesmo tempo em
que Alceu apresentava Geraldo Azevedo músico em
ascensão e já quase consolidado na musica
regional, ambos Alceu Valença e Geraldo Azevedo,
se lançaram na industria fonografica lançando um
disco em dupla em 1972. Assim, eles se encontravam
para tocar temas instrumentais com uma parafernália
de instrumentos exóticos, e como as idéias
pareciam mais interessantes a medida em que ia
fluindo, resolveram gravar em um pequeno estúdio
chamado Rozenblit do selo Mocambo e que ficava na
beira do rio Capiberibe na Estrada dos Remédios,
por sinal só havia ele e mais dois naquele tempo
na cidade. O disco teve todo um cuidado para ser
trabalhado, tanto em conceito interno como em estética
externa já que o encarte era bem trabalhado em
policromia “na época, uma ousadia”, e no
final acabou mesmo sendo creditado a Zé Ramalho e
Lula Cortes como autores do disco intitulado
"Paêbirú", que na linguagem dos incas
quer dizer "o caminho do sol". Há uma
história não confirmada de que este disco só
teve o nome dos dois, pois Alceu e Geraldo já
tinha se lançado juntos e resolveram ser
generosos com os companheiros optando por não
colocar seus nomes na capa do disco. É até muito
dificil de dizer qual a medida de contribuição
de cada integrante, fora o fato de que não se
sabe ao certo quais seria as outras pessoas que
teriam participado do disco.
Na época, devido a uma forte enchente, a maioria
das cópias da prensagem do disco, se perderam em
meio uma enxurrada em um dos depósito da
gravadora e somente umas 300 cópias estiveram em
bom estado para manter viva as gravações que
hoje são peças raras e muito re-gravado por
pesquisadores amante de musica que aguardam há
muito pelo seu relançamento em CD. Esse episódio
seria cômico se não fosse trágico. Por causa
disso, somente, até hoje esses são os únicos
originais de "Paêbirú", que ainda estão
nas mãos de felizardos que só vedem se for por
uma boa bagatela. Mais cult
que isso impossivel.
O álbum é conceitual em todos os sentidos, saiu
como um LP duplo, e foi divido em quatro partes
“cada lado do LP”, em analogia com os
elementos mágicos: terra, ar, fogo e água. O
disco é uma mistura impressionante Ravi Shankar,
Pink Floyd num mesmo caldeirão com Luiz Gonzaga e
Jackson do Pandeiro, alem de coisas que só
existem nesse disco e que fica difícil buscar
outras referencias, mas a única certeza é que não
se trata de um álbum nada previsível.
A temática do disco é sobre a lendas comentadas
em Ingá do Bacamarte, na Paraíba que fala sobre
desvendar os segredos de Sumé, um feiticeiro que
teria descido das estrelas em longínquas eras
para passar ensinamentos aos índios. Até pouco
tempo se debatiam sobre essas lendas como as das
inscrições rupestres encontradas nas grutas de lá
e que seriam autoria de seres extra-terrenos.
Historiadores dizem que foram os fenícios os
responsáveis pelos desenhos.
Talvez o maior idealizador do disco seja Lula Cortês
que sempre foi um musico ligado a musica do
oriente-médio, e que alem de trazer os mesmos músicos
de seu projeto anterior para a gravação deste,
foi o que melhor soube extrair dos outros a essência
da mistura rítmica e fundir de uma maneira
excepcional neste trabalho, obviamente somados aos
talentosos músicos que dispunha. Depois ele
partiu para uma carreira solo e gravou 4 discos, e
acabou se dedicando mesmo as outras artes como a
pintura.
Pode-se dizer também que o disco mostra algo da
riqueza pouco explorada pela musica ocidental, que
é os ritmos nordestinos: Frevo, Maracatu, Baião,
etc aliada a musica milenar do oriente médio.
Alias, não é por menos que o baião e o frevo do
nordeste tem forte influencia da musica árabe
devido aos mercadores que apareceram e se fixaram
naquela região, fazendo com que muitos músicos
aprende-sem sem ter teoria alguma a escala musical
que define muito esse espírito, como o Mixolidio
4# que é a muito usado por músicos consagrados
como Heraldo do Monte, Hermeto Pascoal e Sivuca.
O violão virtuoso que se ouve em todo o disco, é
fruto de um duelo entre três grandes guitarristas
brasileiros, já antes mesmo que aparece-se o
grupo D'Àlma, que inspiraria Al Di Meola, Paco e
MacLaughin, o "Trio virtuoso de Paêbirú"
formado por Robertinho de Recife, Paulo Rafael e
Ivinho davam o molho necessario para que a quimica
funciona-se. Paulo Rafael e Ivinho tinham vindo,
juntamente com o baterista deste disco, Israel
Semente, de uma grande banda chamadaAve
Sangria, que um ano antes escandalizou a
midia com suas letras barradas pela censura, e
deixaram apenas um disco gravado em 74, hoje em
dia cultuados. Na verdade, o nome Ave Sangria foi
um novo nome dado a banda Tamarineira Village que
cansou de explicar o significado deste nome. Paulo
Rafael se tornaria o fiel escudeiro de Alceu Valença
até hoje, e Robertinho depois de gravar discos
excelentes na linha "guita-hero",
preferiu se tornar um produtor e Ivinho chegou a
gravar um disco "ao vivo" no Festival de
Montreaux.
Ouvir o disco é se espantar a cada momento e se
sentir hipnotizado pela seqüência poderosa de
improvisos num clima que não se iguala a quase
nenhum outro disco gravado antes. Um dos destaques
é a faixa “Nas
Paredes da Pedra Encantada”, chamado de
progressivo no melhor estilos das batidas
alagoanas e que chegou a ser regravada com outro
arranjo com o nome de "Os Segredos de Sumé"
no LP "Força Verde de Zé Ramalho. Porem, há
outros momentos fantásticos com toda uma ousadia
do sertão, com seus desfechos surpreendentes que
merecem atenção a todo momento, pela gama de
informação poderosa de improvisos ricos, num
ritmo ora muito frenético mas também fascinante.
Quando alguém se surpreender com o fato de que
algum desses músicos que consolidaram suas
carreiras na musica popular, baseado no formato
padrão de canções letradas, é sempre bom
frisar que há ali entre eles um prazer com o lado
mais puro das canções que é o instrumental,
como na musica instrumental gravada anos depois
num disco de Zé Ramalho em parceria com Geraldo
Azevedo, “Bicho de sete cabeças” , de ótimo
bom gosto. "Paêbirú" mostra que nem só
de repentes, baião e forró se vive o nordeste,
mas também, de toda a pscodélia spacial
proveniente dos céus !
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