Oliviero Lacagnina, teclados. Alfio Vitanza, baixo. Marcello Giancarlo Dellacasa, guitarra, vocal.


Faixas:
1. Introduzione 2:16 
2. Il Giornio Degli Azzimi 1:26 
3. Ultima Cena 1:48 
4. Getzemani 4:14 
5. Il Processo 1:29 
6. I Testimoni(PartI) 6:02 
7. I Testimoni(PartII) 2:12 
8. Il Pianto 1:48 
9. Giuda 0:43 
10. Il Re Dei Giudei 1:40 
11. Il Calvario 7:04 
12. Il Dono Della Vito 3:43 
13. Mese Di Maggio(Bonus Track) 4:24 


Latte e Miele  - Passio Secundum Mattheum (1972)

Por Rael

Há cerca de trinta anos, os Latte e Miele iniciaram-se na produção discográfica com a realização de um álbum que se viria a tornar num marco incontestado do progressivo. Na verdade, Passio Secundum Mattheum constitui um álbum notável, comovente, pela temática e pela atmosfera criada. A traição e a salvação da Humanidade alcançada através do sacrifício da própria vida, com base em textos retirados do Evangelho de S. Mateus para os recitativos e noutros da autoria do guitarrista e baixista do grupo, Marcello Giancarlo Dellacasa. Temática muita arrojada, convenhamos, para um grupo de três jovens rockers do início dos anos 70 - o baterista Alfio Vitanza não teria então mais do que dezassete anos. Notável também ao nível musical. O álbum inspira-se ambiciosamente nas “Paixões” barrocas da Alemanha do Norte, adoptando a sua ‘estrutura’: coro, recitativo, coral e ária. Adopção muito livre diga-se. Por exemplo, os recitativos, que correspondem à narração do Evangelista, são simplesmente declamados, sem qualquer entoação melódica (à excepção do intitulado recitativo “Il Re dei Giudei”), mas curiosamente com acompanhamento ‘orquestral’, ao contrário dos de Bach, o mais famoso compositor de “Paixões”, que são secos (os instrumentos limitam-se a acordes de pontuação) e salmodiados. Toda a composição, atribuída ao teclista Olivero Lacagnina, revela grande imaginação e algum conhecimento da música dita erudita. Apenas o coral para órgão incluído no início de "Il Calvario" parece citar obra semelhante do grande Bach. O espirito inventivo surge muito evidente em "Giuda", uma pequena peça com a parte cantada, onde a voz se ouve acompanhada por piano e bateria muito sincopados, jazzísticos, contrasta com partes intrumentais mais pesadas de guitarra e bateria que quase pre-anunciam o "punk" (duplo carácter de Judas?). Outro exemplo será o referido "Il Calvario" onde o canto pungente do coro avança ao ritmo militar/fúnebre dos timpani. No seu todo Passio consiste num trabalho dominado pelas teclados de Olivero, órgão Hammond, Mellotron, piano, sintetizador, cravo e outros. Todavia as partes mais complexas são as corais, algumas com belas polifonias, nas quais intervém um coro não creditado no álbum mas de altíssimo nível. Afinidades com álbuns de outros grupos coevos, especialmente italianos, podem encontrar-se várias. A começar com o coro introduzido um ano mais tarde na peça L'Isola di Niente do álbum homónimo da Premiata ("Passio" apareceu em 1972!). Com vagar outra se descobriram em algumas obras dos Banco, ou no Zarathustra dos Museo Rosembach, ou ainda, ousemos arriscar, nos Ciclos dos Canarios. Para finalizar, apenas uma referência a um equívoco que alguns críticos têm cometido a propósito de Passio dos Latte e Miele. Dois deles, Paolo Barotto e Dag Erik Asbjornsen passaram-no mesmo à letra de forma, respectivamente em The Return of Italian Pop e Scented Gardens of the Mind. O erro, grosseiro diga-se, consiste na referência à "Messa Requiem" de Bach como a principal fonte de inspiração musical de Passio. Acontece que Bach nunca escreveu um "Requiem". Apenas compôs uma peça de ritual católico (Bach assumia-se como um luterano convicto), a grandiosa "Missa em Si menor", BWV 232. As únicas obras relacionadas com a morte (de Cristo) que deixou foram algumas "Paixões", das quais sobreviveram duas, a de S. Mateus e a de S. João, e recentemente reconstitui-se conjecturalmente a de S. Marcos. Ora, a "paixão" constitui uma forma musical completamente diferente da "missa" (esta não possui recitativos, por exemplo).


Rui Frederico