
Christian Vander: Bateria, Percussão e
Vocais
Klaus Blasquiz: Vocais e Percussão
François Cahen: Piano e Piano elétrico
Francis Moze: Baixo elétrico
Teddy Lasry: Clarinete, Sax, Flauta e
Vocais
Jeff Seffer: Sax e Baixo clarinete
Louis Toesca: Trompete
Faixas:
1. Riah
Sahiltaahk 21:51
2. Iss Lansei Doia 11:46
3. Ki Iahl O Liahk 8:20
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Magma - 1001º Centigrades (1971)
Como já resenhado e
bastante comentado por aqui o Magma realmente
não é uma banda muito comum. Em nenhum sentido
na verdade. Formada na França em 69 pelo
baterista Christian Vander (por sinal muito
competente, influenciado por uma gama de bons
bateristas de jazz da década de 50 e 60, tocando
em bares desde muito pequeno) e por outros
músicos amantes de jazz e música experimental da
cena local, o Magma inicialmente focou sua
atenção ao free jazz e elementos afins em
evidência na época. O primeiro álbum, de 70, já
mostrava isso claramente, apesar de estarem
presentes elementos psicodélicos e de rock
sessentista em geral. O detalhe é que, apesar de
serem todos franceses, as letras não eram feitas
em francês, e sim em Kobaïa (!?). Língua absurda
criada por Vander para narrar as aventuras de
uma raça vivente no planeta Kobaïa. A trajetória
deste povo é narrada em MDK, de 73, que já
possui resenha neste site. A cena
psicodélica-pseudo-progressiva europeia ficou
bastante curiosa com tal aberração, nada muito
comum para uma banda iniciante em um cenário
bastante competitivo e efervescente. Acreditem
ou não, Vander criou todo um vocabulário próprio
e nos próximos anos lançaria vários álbuns com
esta banda magnífica nesta língua absolutamente
surreal! Cada um bastante peculiar. Cada álbum
do Magma traz um tipo de informação e estilo
musical diferente. O estilo? Bem, é Magma. Quem
já está inserido nesse universo sabe do que
falo. Para os mais "certinhos" é Zeuhl. Mas é
difícil encaixar bandas Zeuhl dentro de um
padrão, todas são bastante diferentes! Fiquemos
então fora de classificações.
1001º Centigrades veio após o boom que foi
Kobaïa, de 70. Kobaïa era um disco duplo, cheio
de elementos jazzisticos e psicodelia aflorando
em cada faixa. As vozes guturais, vocais
masculinos em coro e passagens variando entre o
sombrio e a fanfarra rechearam este álbum com um
clima MUITO particular. Piano elétrico e metais
em abundância em um álbum ainda não muito coeso.
Kobaïa na verdade só foi reconhecido alguns
poucos anos mais tarde, quando a sonoridade do
Magma se estabeleceu na Europa. De qualquer
forma o álbum abriu portas para Vander e sua
trupe evoluírem esta sonoridade e gravarem
álbums cada vez mais marcantes e seguros.
1001º ainda possui muitos destes elementos
jazzisticos. O disco é dominado por muito piano
e metais, principalmente metais. A diferença é
que o free jazz dá cada vez mais espaço para
grandes trechos vocais, passagens rápidas e
intensas, uma marcação ritualística e crescente
com um fundo instrumental e rico, calcado em
trilhas sonoras de cinema! Vander é a mola
mestre da banda. Atrás de seu drum kit ele
marca, canta e comanda uma banda de 7, que
parece ser de 20 ! Desfere viradas e domina os
pratos com primor.
Riah Sahiltaahk, que ocupa todo o lado A do
vinil é uma faixa típica desta primeira fase do
Magma. Com pelo menos 15 mudanças de ritmo e
belos trechos solo de sax e piano, Vander
constrói uma de suas composições mais
memoráveis. Tudo está perfeitamente
interconectado, como uma grande estória,
crescendo através dos minutos, onde cada hora um
elemento aparece modificando, desconstruindo,
exaltando. Estes elementos são os vocais de
Blasquiz e Lasry, magníficos. Hora assustadores,
hora até engraçados! Cahen e Vander também
sublimam pela faixa. A percussão encaixa motivos
tribais e se encontra com o baixo e o piano em
trechos altamente memoráveis. Na introdução e
nos 10 primeiros minutos isto é bastante
evidente. Claro que não sei do que se trata a
letra, mas os vocais ensandecidos, que crescem e
corrompem o ouvinte a cada audição e parecem
puxar os instrumentos para um dimensão além do
aparelho estereofônico (e não o contrário) são
facilmente traduzidos por um conceito que a
própria banda construiu através de seus álbums,
principalmente nos anos 70: música universal,
inspirada, melódica, sem classificações. A faixa
sem dúvida é parada obrigatória para qualquer
curioso de rock experimental europeu, ou
simplesmente música curiosamente boa. Quanto
fôlego esses músicos precisaram para desenvolver
esta melodia por longos 20 minutos de quebras de
ritmo IMPRESSIONANTES, longos trechos de metais,
percussão voraz, baixo gordurosamente raivoso e
vocais INITERRUPTOS ? O trecho final é um belo
calmante, com um suave piano e um tema
adocicado.
Iss Lansei Doia é a mais jazzistica, com um,
digamos riff, de metais bastante cativamente e
passagens de piano elétrico e bateria
impressionantemente técnicas. A introdução está
entre as coisas mais assutadoras feitas pela
banda. Vocal recitando um mantra, percussão
multivariada, um riff de baixo que vai
crescendo, pratos, bateria, até que o ritmo se
encontra e desenvolve a melodia mestre. Lasry
solta umas palavras estranhas em um vocal
guturalmente terrível e a melodia descamba para
uma confusão muito cativante. Uma grande jam
session de metais, piano, baixo e bateria. Nota
10. A mais estranha do álbum ? Talvez, mas esta
palavra cabe para o Magma ?
Ki Iahl O Liahk fecha o álbum seguindo a mesma
linha. A intro é bastante desconexa, uma melodia
base freneticamente repetida e alguns acordes de
piano aparentemente perdidos, rápidos e em alto
volume. A entrada de vocais épicos é marcada por
uma mudança abrupta e por um tema
cinematográfico, com alguns gritos ao fundo. Os
gritos parecem ser de Vander, comandando uma
massa de habitantes Kobaïa rumo à alguma guerra.
Para variar, a melodia em alguns minutos toma
outra forma e parte para um free jazz Magmático
brutal e bem tocado, com toques sutis, bastante
sutis de cool e rock progressivo canteburiano.
Os vocais? estão lá, em Kobäia, extremamente
melódicos e imcompreensíveis. O trecho final é
jazz fusion ! Acreditem !
1001º é um álbum maravilhoso. Não me recordo de
algo tão peculiar gravado neste mesmo período.
Além de ser bastante representativo para a
banda, foi melhor reconhecido que Kobaïa e forma
um fio conector entre as idéias inicias de
Vander e seu auge, o clássico MDK. Para quem já
conhece Magma ou quer se aprofundar no tema, uma
grande pedida!
Nesta foto está a formação 70-71, com alguns
membros que não chegaram a gravar 1001º. Em
cima: Richard Rault, Ted Lasry, François Cahen,
Francis Moze. Em baixo: Paco Charlery, Christian
Vander, Claude Engel, Klaus Blasquiz.
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