
França, 1974.
Christian Vander: Bateria, percussão, piano
e vocais
Jannik Top: Baixo, celo, piano e vocais
Klaus Blasquiz: Vocais e percussão
Gerard Bikialo: Piano, piano elétrico
Fender Rhodes, órgão Farfisa
Michel Graillier: Piano, clavinet Hohner
D6
Brian Godding: Guitarra
Stella Vander: Vocais
1.
Köhntarkösz Part One 15:22
2. Köhntarkösz Part Two 15:56
3. Ork Alarm 5:28
4. Coltrane Sundia 4:11
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Magma
Köhntarkösz
Dados da resenha:
Autor:
Rodrigo
Guabiraba (Guabiraba);
recebida em:
07/03/2004.
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MDK, de 73, sem dúvida
alguma é um pilar absoluto na carreira desta
magnífica banda francesa. O álbum solidificou as
bases melódicas e rítmicas almejadas pelo seu
líder, Christian Vander, além de ter introduzido
para toda uma geração de adoradores de boa
música de vanguarda, altamente experimental, a
estória surreal do planeta Kobaïa e todo seu
enredo absurdo. E o melhor: em uma língua
totalmente própria! Todo o trabalho de Vander e
sua banda, que mudou de formação por talvez uma
dezena de vezes, cresceu e evolui de forma
bastante sólida desde o primeiro álbum até o seu
opus, MDK. Usando o free jazz, passando pelo
psicodelismo, cool jazz, progressivo, musica
ritualística e alguns outros aditivos
inclassificáveis, o Magma talvez tenha aberto
terreno para diversas bandas que, em pouco
tempo, trariam da europa, asia ou américa, sons
etéreos, obscuros e muitas vezes sombrios para
construir um estilo único chamado Zeuhl. Mas
isto é apenas uma classificação para fins de
catalogação.
Este amadurecimento
musical foi sem dúvida um advento da
participação de diversos músicos nestes anos. Em
73 o Magma já tinha um público fiel e certo
reconhecimento no cenário alternativo europeu.
Mesmo se as coisas não estivessem favoráveis,
Vander e cia continuariam sua empreitada
frenética da mesma forma, gravando pelo menos um
álbum ou compacto, o que seja, por ano, como o
foi. As dificuldades desta época já foram
descritas pelo baixista Top e por Vander em
algumas entrevistas, como os problemas para
agendar shows e conseguir dinheiro para
continuar todo este projeto. O resultado sabemos
bem. Graças a esta persistência de outro mundo
(seria de Kobaïa?) Vander, através de várias
formações conseguiu empurrar o Magma para vários
ouvintes, em algumas gerações. Hhaï, gravado ao
vivo em 75, foi o primeiro disco a chegar
estourando no mercado americano, tendo várias
edições por lá. Nada top 100 Billboard, mas o
suficiente para instigar o mercado local a
lançar os discos da banda.
Mas antes disso, em 74, Vander já gravava um dos
seus melhores trabalhos: Köhntarkösz. Com alguns
dos integrantes do line-up do MDK (seu fiel
escudeiro Blasquiz, a esposa Stella e
principalmente o raivoso baixista Top), Vander
modifica um pouco o estilo central da banda, e
até mesmo a temática, passando a narrar uma
outra estória, ligada à um tema egípcio, sobre
um determinado faraó e alguma coisa também sobre
imortalidade. Em termos musicais, Könhtarkösz é
anestésico e relaxante em relação ao MDK. Um
album muito mais minimalista, com progressões
jazzísticas camufladas por um clima muito mais
dark. Os vocais passam a ser puxados pelos temas
instrumentais e não o contrário, como ocorria em
MDK. Não existem muitos vocais na verdade, e sim
grandes passagens altamente repetitivas de
órgão, piano, bateria e baixo, formando um
mantra altamente hipnótico. O álbum está
centrado em um grande tema de 30 minutos
dividido em duas partes devido às restrições do
vinil. As duas partes seguem o mesmo mantra
hipnótico, mas diferem entre si nos temas
vocais, nos solos e também na finalização, que
na verdade é o grande destaque para as duas
partes. Bem, elas são diferentes entre si ! A
Parte I, a mais lenta e introspectiva, brinca
com o ouvinte, fazendo-o acreditar que aquele
tema com alguns poucos acordes no órgão, aquele
baixo rosnando gravemente (característica do
baixo de Jannik Top, marcante em MDK) e Vander
desferindo viradas MUITO rápidas, não vai acabar
nunca ! O tema entra em um espiral, se repete,
se expande até suavizar-se em um tema calmo,
relaxante, para dar permissão de entrada aos
vocais graves de Vander, Blasquiz e Top. A
guitarra de Godding soa como um sax barítono, e
o tema é realmente muito impressionante. Lento,
muito lento, e altamente hipnótico. A aceleração
é iniciada alguns minutos depois, acompanhada
por vocais e viradas de bateria muito rápidos.
Assim se sucedem vários temas sem fugir tanto do
tema central. O órgão ao fundo dançando sobre o
mantra vocal e o baixo rosnento de Top. Há
também belas passagens clássicas de piano e
vocal, todas muito estranhas, como uma ópera de
algum planeta qualquer. Em Hhaï Live, de 75,
este tema está mais rápido e intenso, com o
órgão substituído pelo violino de Didier
Lockwood. Vale a pena conferir. No geral, a
versão de estúdio é magnífica. Densa ao extremo,
mostrando um belo exercício musical entre os
membros, de como se manter um ritmo, variar
sobre o mesmo tema sem alterações óbvias, e
construir um tapete místico e complexo com
instrumentos absolutamente comuns ao rock
progressivo e afins, só que passeando por uma
música muito mais atípica do que conhecemos
normalmente. O final sutil e muito harmonioso ao
piano solo quebra o macabro e abre as portas
para a parte II.
Desta vez a banda busca um tema inicial muito
mais acessível e melódico. Aproveitando o gancho
da parte final anteriormente citada, os músicos
desenvolvem um belo tema ao piano, tanto
elétrico como acústico. Vander pronunciando
coisas anormais, evocando o ouvinte a participar
da massa musical sombria que em breve chegará.
Em poucos minutos o tema se modifica, o piano
puxa acordes menores, o baixo e a bateria fazem
curtas revoluções até a entrada do mantra
novamente. Eis que, igualmente hipnótica, a
faixa se constrói. desta vez muito mais sólida
do que na Parte I. O tema é mais voraz. Stella
faz alguns belos vocais sobre o mantra e
subitamente, após os 6 minutos, Blasquiz e seu
vocal agonizante puxam a banda e os músicos
acompanham o chamado com uma aceleração
impressionante. A faixa cai em um ritmo denso,
cadenciado, repetitivo mas muito mais
eletrificado. Top parece domar seu baixo furioso
com alguma coleira ou algo assim. Sim, ele soa
como um animal. Não falo de virtuosismo e sim de
um som grave, até atonal. A partir daí temos
solos muito peculiares de Godding e Bikialo. Os
instrumentos cantam e brincam sobre o fundo
raivoso de Vander e sua bateria pesada, precisa.
A faixa nos domina até os 11 minutos aonde há um
quebra brusca de ritmo e Vander recita vários
chamados, alternando entre o mantra e pequenos
trechos onde há somente bateria e piano. No
final, quando pensávamos fugir desta grande
massa musical absurda, a banda nos presenteia
com um tema sombrio, onde há apenas baixo,
bateria e piano, com Top entoando um chamado
gutural simplesmente assustador. A faixa se
arrasta assim por alguns poucos minutos, até
somente ouvirmos a voz gutural de Top. Por Deus,
que impressionante...
Os destaques do álbum sem dúvida são as partes I
e II da suite Köhntarkösz, e merecem a audição
cuidadosa dos apreciadores de rock experimental
obscuro, Zeuhl e progressivo diferente.
Ork Alarm e Coltrane Sundia são duas faixas
curtas e bem distintas dentro do álbum. Elas não
se ligam ao conceito de Könhtarkösz em nenhum
aspecto, e parecem ter sido encaixadas ali para
completar o álbum. de qualquer forma são faixas
bem compostas, sólidas e instigantes. Ork Alarm
é um ritual brutal composto e cantado por Top,
que comanda aqui a banda no celo e no baixo,
instrumentos dominantes na faixa. Se não me
engano Top toca todos os instrumentos
praticamente. A faixa também parece um mantra,
mas não tão cativante como a longa suite. Ela é
estranha demais, e deveras agonizante. Ao final
Stella e Blasquiz cantam de forma sombria, como
um grunhido ou um chamado bizarro. Top solta
algumas risadas discretas e ouvimos sons
metálicos como pancadas e pequenas incursões
guitarrísticas distorcidas de Godding. Estranha
mas curiosa.
Coltrane Sundia é uma homenagem prestada por
Vander ao seu grande ídolo John Coltrane (que
aliás sempre esteve presente em vários temas,
trechos e idéias contidos no som do Magma). A
faixa é extremamente bela. Lindo piano, na
verdade várias camadas de piano. Uma ao fundo,
como um tapete de dedilhados, uma tocando o tema
central e outra acompanhando a guitarra de
Godding. Lenta e harmoniosa, Coltrane Sundia,
apesar de não ter nada a ver com o restante do
álbum, deixa o ouvinte em estado de êxtase após
tantas repeticões, mantras, vozes guturais e
climas sombrios. Essencial.
No mesmo ano, o line-up
Vander-Blasquiz-Top-Stella gravaria o fantástico
e aí sim muito mais próximo do MDK, Wurdäh Itäh,
que seria trilha sonora para um filme
experimental chamado Tristão e Isolda. O disco é
muito interessante e bem mais simples, com
apenas piano, baixo, bateria e voz. Logo depois
viriam somente coisas boas para a banda, e o
Magma estava cada vez mais conquistando
ouvintes pelo mundo.
Invista nessa boa banda. Se você já conhece
Magma, vale estudar com calma Köhntarkösz, se
não, aposte em 1001 ou MDK, que são mais
cativantes à primeira audição.
Magma na BBC, 1974: Esq. para Dir. : Gerard
Bikialo, Jannik Top, Claude Olmos (que saiu
pouco depois da gravação de Köhtarkösz, sendo
também substituído em estúdio pelo guitarrista
do Blossom Toes Godding), Klaus Blasquiz,
Christian Vander e Michel Graillier.
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