Christian Vander: Bateria, Percussão, Piano, Sintetizadores, Vocais
Jannik Top: Baixo (1, 3-6), Sintetizadores, Fret Cello, Vocais
Klaus Blasquiz: Vocais, Percussão
Bernard Paganotti: Baixo e Vocais (2)
Michel Graillier: Piano (1)
Patrick Gauthier: Piano e Sintetizadores (2)
Alain Hatot: Saxofones e Flauta
Pierre Dutour: Trompete (1)
Stella Vander: Vocais (1)
Lucille Cullaz: Vocais (1)
Lisa Deluxe: Vocais (1)
Catherine Szpira: Vocais (1)


Faixas:

1. Üdü Wüdü - C.Vander 4:10
2. Weidorje - B.Paganotti, K.Blasquiz 4:30
3. Troller Tanz (Ghost Dance) - C.Vander 4:30
4. Soleil D'Ork (Ork's Sun) - J.Top 3:50
5. Zombies - C.Vander 4:10
6. De Futura - J. Top 18:00


Magma - Üdü Wüdü (1976)
 
Por Guabiraba
 
Após a gravação do minimalista, hipnótico e denso Köntharkösz em 74 o Magma fez um sucessão de shows principalmente na Europa, mais notadamente França e Inglaterra. Como resultado saiu o excelente Hhaï/Live ou Könthark, em 75. O album não conta com a mesma formação que gravou Köntharkösz, e que por sinal gravou o excelente material na BBC em 74 (disponível em CD). Alguns músicos foram e voltaram em menos de 3 anos, mas podemos destacar pelo menos duas formações bastante sólidas. A de Köntharkösz, com a poderosa cozinha Top/Vander e a cama de teclados Graillier/Bikialo, e a formação 74-76, menos brutal mas um pouco mais técnica, com o solista quase adolescente Didier Lockwood e seu violino absurdo, o excelente e muito habilidoso baixista Bernard Paganotti e também a excelente cama de teclados que parece hipnotizar o ouvinte de Hhäi/Live, composta por Benoit Wiedemann e Jean-Pierre Asseline. Após muitos shows na França e arredores, os músicos estavam cansados e precisando alçar vôo para outro lugar. Não que a fórmula do Magma estivesse esgotada, mas o próprio Vander precisava parar um pouco e reconstruir algumas idéias que estavam se perdendo no meio de tantas formações, tantos músicos altamente complexos e virtuosos, tantos shows e composições longas, altamente improvisadas.

Didier Lockwood saiu em 76 para tocar no Surya e no Zao, ao mesmo tempo Paganotti e Gauthier (que já havia substituído Wiedemann) estavam saindo para montar a Weidorje. Stella Vander também queria parar um pouco e buscar novos formatos. Gabriel Federow, guitarrista desde 74, partiu igualmente no começo de 76. Vander se viu praticamente sozinho, em uma ruptura que, naquele momento, estava sendo amigável e bastante natural. Apenas Blasquiz estava junto a Vander, e o Magma não estava em condições de trabalhar ao vivo, com formação tão reduzida. De qualquer forma, neste intervalo entre saídas e chegadas, Vander e cia. acabaram por gravar algum material que já estava pronto. Jannik Top, que estava em carreira solo, volta ao estúdio para gravar com Vander, trazendo algumas composições e idéias. A mesma coisa ocorre com Graillier, que não tocava com a banda desde 74. Mais ou menos assim ocorreram as gravações de Üdü Wüdü, em 76, álbum que acabou sendo grande fracasso comercial (justamente o que a banda não queria naquele momento) mas que contém alguns dos melhores momentos da banda em estúdio e uma composição memorável de Jannik Top: De Futura.

Se MDK e Köntharkösz são albums referenciais e absolutos para o Magma, Üdü Wüdü é daqueles álbuns que você demora um pouco a aceitar. Ele se assemelha a uma colcha de retalhos, com composições que pouco se conectam, apresentando formatos muito diferentes e pouca coesão. Isto obviamente se deve ao fato de que não há uma banda fixa que gravou 100% das músicas. Não houve um estudo, um ensaio completo, que permitiria uma "unidade" entre as gravações. Alguns músicos participam de uma ou duas faixa apenas, e o eixo principal de Üdü Wüdü é formado por Vander/Top/Blasquiz. Estes três sim mostram um entrosamento muito grande, normal para quem tocou junto em outros álbuns e fizeram grandes shows outrora. Sim, você vai dizer que o álbum tenta ser comercial, e eu concordo. Este era o interesse de Vander e cia. Manter o Magma em alta no mercado europeu durante esta fase de transição. Difícil é competir com bandas cantando em inglês quando se canta em Kobaïa! Além do mais, as harmonias e estruturas das composições neste álbum são em demasia alternativas, e, para o período, talvez um pouco inacessíveis.

O álbum logicamente fracassou.

A importância histórica de Üdü Wüdü para o Magma se justifica em alguns pontos: Mostra um fase de transição dentro da banda, com uma diversidade de estilos muito grande. É um álbum não conceitual e bastante acessível em relação aos trabalhos anteriores. As faixas são curtas e bastante melódicas. Vale citar a presença de Jannik Top no trabalho. Ele e Vander são os responsáveis pela produção final de Üdü Wüdü. Sem Top o álbum talvez não saísse. Isto é fato. Dizem ser um álbum "solo" de Top ! As composições oscilam entre bons, médios e "não tão maus" momentos.

"Üdü Wüdü", composição de Vander, abre o álbum com um "quê" caribenho no planeta Kobaïa. A faixa é muito estranha e demorei algumas ouvidas para aceitá-la (e talvez não a aceite até hoje!). Não, ela não é Magma para tocar em rádio latina. Acho que Vander pirou um pouco em algo latino, isso sim, e colocou o seu mini-coral feminino para cantar frases incompreensíveis e dançantes em sua língua estranha. Blasquiz puxa o coral, que lhe responde de forma empolgante. Ao fundo atabaques e um piano, sax, trompete e tudo que uma rumba precisa. Acredite, é Magma. Interessante...

"Weidorje", composta por Paganotti e Blasquiz, têm o nome da banda que Gauthier e Paganotti viriam a montar logo depois. A faixa quebra completamente o clima caribenho. Dramática e recheada de sintetizadores, abre com Paganotti e Blasquiz entoando "Weidorje !" e tudo mais em um vocal grave e acentuado. O resto da composição gira em alguns "loops" no mini-moog e uma marcação bem ritmada e gordurosa (ponto para Paganotti e Vander). Faixa muito boa, nada parecido com algo já gravado pelo Magma, exceto pelos vocais, claro. Diferentemente da faixa título, aqui a banda soa mais.. digamos... digna.

"Troller Tanz" é uma pequena música que me lembra uma animação com assombrações e fantasmas, talvez pelos efeitos sutis de sintetizadores e a marcação acentuada, com jeito de marcha. Há boas passagens, como a entrada dos vocais de Vander: assombrosa! Há uma repetição de acordes ao piano (característica da banda) e o baixo de Top "subindo e descendo" o tempo inteiro. Excelente faixa, realmente divertida.

"Soleil D'Ork", faixa composta por Top, pode ser relacionada diretamente com "Ork Alarm", do album Köntharkösz. Há um clima de ritual com percussões variadas e alguns vocais indígenas que se repetem continuamente. O baixo de Top se guia por uma levada funkeada e alguns efeitos wah-wah. Que a faixa soa repetitiva é verdade. Ao contrário de sua faixa irmã, o clima é mais ameno e não tão sombrio. Instigante.

"Zombies" talvez seja a melhor faixa até o momento. Percebemos aqui que as faixas anteriores em nada combinam e que não há uma linha mestra no álbum. Em "Zombies" o vocal marcial e grave, acentuado por uma bateria variadíssima e intensa e por um baixo muito complexo funcionam como um gancho para a faixa seguinte, a magnífica "De Futura". Como muita coisa no Magma há uma repetição exaustiva de acordes ao piano acompanhadas por uma levada dura de baixo. A faixa é muito boa e lembra o Magma sombrio presente em certos trechos do Köntharkösz.

"De Futura" é a obra prima do álbum e talvez a faixa que mais valha a pena se ouvir. Composta por Top, que já vinha trabalhando nela há algum tempo, "De Futura" é agressiva, repetitiva e lembra um futuro tecnológico decadente habitado por escravos orcs. Top e Vander dominam a faixa por inteiro, só há os dois tocando. Top comanda o seu baixo poderoso com afinação de Cello, uivando cada com o maior peso possível. Também domina os sintetizadores com primor, criando a linha melódica central e variando em alguns efeitos mais estranhos, como um "synth bass", ou baixo com efeitos gerados eletronicamente. Confira. Vander cuida da bateria e do piano elétrico, desferindo pancadas e mais pancadas por aproximadamente 18 minutos. Realmente é de tirar o fôlego. "De Futura" é longa e MUITO repetitiva, mas transmite um clima realmente impressionante. Há variações, entre partes lentas e grandes subidas rumo aos vocais grandiosos de Vander e Top, comandando uma grande marcha de seres estranhos e obscuros. Top rosna e manipula seu instrumento como nunca antes no Magma, pelo menos em estúdio. Ao vivo as apresentações da banda sempre foram muito mais complexas e quando Top comandava o baixo em turnê as coisas ficavam realmente quentes ! Há um registro não oficial desta música com o título de "De Futura Hiroshima", título um tanto quanto apropriado, pelo caráter apocalíptico da composição. A faixa tem 25 minutos aproximadamente e foi gravada ao vivo em 76, nas poucas apresentações de Top com Vander após Üdü Wüdü. Está entre as coisas mais complexas e absurdas que já ouvi no rock progressivo! A partir daí, Top partiu para uma sólida carreira como arranjador, produtor e músico de estúdio, nunca mais retornando ao Magma.

Com algumas críticas a favor e outras brutalmente negativas, Üdü Wüdü foi lançado no mercado americano e também na Inglaterra, sendo um dos discos mais fáceis de serem encontrados, inclusive em CD. Após as gravações a banda realmente se dissolveu, alguns shows foram realizados até o começo de 77, shows realmente muito bons, com Top e Wiedemann no baixo e teclados respectivamente. Em 77 Vander reformula o Magma quase que completamente para iniciar uma nova fase mais ligada ao fusion e ao soul, com o excelente Atthak.

Üdü Wüdü é fragmentado e confuso, possui muita coisa interessante no meio de coisas que passam desapercebidas, principalmente em se tratado de Magma, banda de sonoridade muito marcante. Vale pela ousadia, pela presença de excelentes músicos, por "Troller Tanz", "Zombies" e a clássica e absoluta "De Futura".

Para os já iniciados em Magma ou para aqueles que gostam da banda mas não suportam o MDK !


A esquerda, Christian Vander, à direita, Jannik Top. Foto provavelmente tirada entre 73 e 74.