
Japão, 1995.
Músicos:
Asahito Nanjo / baixo elétrico, vocais Makoto Kawabata / guitarra elétrica Hajime Koizumi / bateria
Faixas:
1) Cockamamie (01:51) 2) Black Sky (15:17) 3) M (18:37)
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Mainliner
Mellow Out
Dados da resenha:
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Confusão, exagero e indulgência.Tais seriam, não seria desarrazoado
cavilar, os aspectos mais evidentes num primeiro contato com as
walpúrgicas emanações de maximum overdrive ultimate carnage fuzz noise destruction da psicodelia hellraiser nipônica; e malgrado as propriedades supracitadas decerto façam parte da garage hermétique
das Ilhas do Sol Nascente, um olhar mais atento poderá desvelar duas
características deveras insuspeitas a princípio, mas igualmente
importantes nesta brutal alquimia: 1) uma obsessiva demanda pela pureza
formal, depurando radicalmente o rock'n'roll de seus elementos circunstanciais e/ou contingentes, no intuito de atingir seu âmago mais primevo e catártico; 2) o ostinato rigore (apud da Vinci / Valéry) com que tal intento é perseguido.
A estréia do Mainliner, imaculado power trio da maçonaria psico-sônica japonesa, inner sanctum
supino da descerebração elétrica, urdido pelos notórios Asahito Nanjo
(High Rise) e Makoto Kawabata (AMT), é porventura o álbum onde os
excelsos desígnios acima esboçados logram atingir sua mais consumada
realização estética. Mellow Out é, portanto, o mais blasfemo grimoire,
o luciferino Graal de toda uma insigne linhagem, iniciada pelos míticos
Hadaka no Rallizes, e dedicada às lides da obliteração sônica via
muralhas rutilantes de ruído terminal e maremotos percussivos. Há
também que louvar a determinação e coragem necessárias à criação de uma
obra como essa, cuja espartana, monocromática unidimensionalidade, não
permite o recurso a quaisquer expedientes diversionários de
aliciamento, tal como sói ocorrer mesmo com os mais temerários
argonautas do delírio übber-rockist: o que temos aqui, sem disfarces, adornos ou estratégias de sedução, é toda a selvageria primordial do rock'n'roll, desde o primeiro uivo lancinante de shoutin' blues a trovejar nos algodoais do deep south, concentrada / sublimada em inolvidáveis 35 minutos de êxtase elétrico .
Cockamamie, breve descarga de desvario protopunk à la
Stooges, é sem dúvida um belo cartão de visita, mas funciona apenas
como prelúdio aos inclementes exercícios de devastação psicodélica in extremis que completam o álbum.
Black Sky é, a meu ver, a mais irretocável demonstração do genial modus operandi
da banda: a pulsação hipnótica instaurada por Nanjo e Koizumi
proporciona ao ouvinte uma conveniente ilusão de continuidade rítmica,
enquanto Kawabata paulatinamente vai conjurando suas brumas de feedback púrpura... e então, de súbito, tudo se desmancha numa inaudita tempestade de white noise
sulfuroso, avalanche abstrata de ruído desenhando espirais de caos
eletromagnético; o pulso rítmico adrede erigido então retorna, mas o
ouvinte já não mais consegue se sentir 'amparado'... e com toda razão,
diga-se de passagem, posto que os minutos finais da peça irão
precipitá-lo, sem dó nem piedade, no vero báratro tonitruante de uma
supernova de esmerilhação guitarrística em search & destroy full hate mode ON.
M, por seu turno, é Albert Ayler meets High Rise in the land of sonic evisceration. Assim sendo, muito embora a estrutura forjada por Black Sky seja mantida, temos o trio num registro mais jammin', com a bateria de Koizumi abrindo os trabalhos em compasso free
antes de estabilizar o compasso; em seguida, Nanjo entra em cena,
novamente tentando nos mesmerizar com a densa hipnose de seu baixo e
vocais ecoantes; e a Kawabata cabe, uma vez mais, dilacerar a fugaz
promessa de devaneio opiáceo oferecida por seus confrades, dessa feita
com rajadas e mais rajadas de wah wah's alucinados em combustão instantânea. A duras penas, Nanjo e Koizumi restabelecem o beat
inicial, numa derradeira quimera de 'normalidade' musical, que será,
enfim, pulverizada pela feroz motosserra lisérgica de Kawabata,
implacável lança-chamas sonoro em razzias sucessivas de microfonia over the top, bem como por um aterrador terremoto de fuzz bass a cargo de um Asahito Nanjo absolutamente on fire.
Chapeau, meus caros confrades, e uma última observação: Mellow Out é "só para raros, só para loucos" (apud Hermann Hesse), 'teatro do Lobo da Estepe' larger than life para acidheads
irrecuperáveis, vagando através dos labirintos siderais do alheamento
transpsicodélico. Isto posto, sentencio: que os demais mantenham
distância!
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