
Brasil,
1970/2000.
Banda:
Arnaldo Baptista –
Teclado e Vocais
Rita Lee
– Teclado, Flautas e Vocais
Sérgio Dias
– Guitarras e Vocais
Arnolpho Lima
Filho (Liminha) – Baixo
Ronaldo Leme
(Dinho) – Bateria e Percussão
Faixas:
1. Panis et Circences
(Caetano Veloso / Gilberto Gil –
letra em inglês: Mutantes) 2:12
2. Bat Macumba
(Gilberto Gil / Caetano Veloso) 3:16
3. Virgínia
(Arnaldo Batista / Rita Lee / Sérgio Dias –
letra em inglês: Mutantes) 3:23
4. She's my
Shoo Shoo (Minha Menina) (Jorge Ben –
letra em inglês: Mutantes) 2:52
5. I Fell a
Little Spaced Out (Ando Meio Desligado)
(Arnaldo Batista / Rita Lee / Sérgio Dias –
letra em inglês: Mutantes) 2:51
6. Baby
(Caetano Veloso – letra em inglês: Mutantes)
3:36
7. Tecnicolor
(Arnaldo Batista / Rita Lee / Sérgio Dias) 3:54
8. El
Justiciero (Arnaldo Batista / Rita Lee /
Sérgio Dias) 3:52
9. I'm Sorry
Babe (Desculpe Baby) (Arnaldo Batista /
Rita Lee – letra em inglês: Mutantes) 2:42
10. Adeus Maria
Fulô (Humberto Teixeira / Sivuca) 2:39
11. Le Premier
Bonheur Du Jour (Jean Renard / Frank
Gerald) 2:46
12. Saravah (Saravá)
(Arnaldo Batista / Rita Lee / Sérgio Dias –
letra em inglês: Mutantes) 2:59
13. Panis et
Circences (Reprise) (Caetano Veloso /
Gilberto Gil – letra em inglês: Mutantes) 1:23
|
Mutantes
Tecnicolor
Dados da resenha:
Autor:
Paulo
Cezar Vaz de Mello Gouvêa
(Vaizé);
recebida em:
24/10/2004.
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aqui.
O lendário álbum
Tecnicolor,
dos Mutantes,
gravado em 1970,
prometido para julho de
1999, foi
finalmente lançado
abril do ano
2000 – quase trinta anos depois de
gravado! - sem o destaque que mereceria,
coroando assim uma das maiores injustiças da
história da indústria musical brasileira.
Finalmente deixou de ser uma lenda, um objeto do
desejo, para transformar-se em mais um clássico
do rock nacional e mundial.
O cd é apresentado com uma sobrecapa em papel
grosso branco, com o nome do cd recortado,
permitindo ver através do recorte as cores da
frente do encarte interno (abaixo), que traz
todas as letras das músicas, com os títulos
manuscritos por Sean Lennon.
O design de
Paulo Pelá Rosado e
Gê Alves Pinto
tem estética questionável. A gravura da
contracapa - da qual um detalhe ampliado é
visível no fundo do cd, através do plástico
transparente - leva o peso do nome de
Sean Lennon,
famoso entusiasta do grupo (Sean tocou com
Arnaldo Baptista
a versão em inglês de "Panis
et Circencis" no Free Jazz Festival, no
Rio) mas poderia bem ter sido adotado um dos
desenhos do próprio
Arnaldo Baptista,
que atualmente mais desenha do que toca.
Capa interna
Capa inglesa
(Universal UK)
A gravação
, que capta o grupo no auge de sua
primeira fase, foi realizada em uma semana no
estúdio Des
Dames em Paris, em novembro de 1970, com
produção do inglês
Carlos Olmes
(tb citado como Carlos Olms, Carl Holms,
Carl Holmes...), então gerente da
Polydor
de Londres, aproveitando a temporada de shows da
banda no prestigioso
teatro Olympia.
Aquela foi a segunda estadia da banda em
território francês (a primeira foi em janeiro de
1969, quando os "Mutantes"
foram convidados para tocar em
Cannes,
na França, no famoso
Midem -
Mercado Internacional de Discos e Editores
Musicais).
Ao gravar um disco fora do país depois de alguns
anos habituados com o estúdio, os
Mutantes
tiveram a oportunidade de reescrever sua
história a partir do zero, pescando os melhores
títulos e adaptando-os para o inglês e para sua
sonoridade de então.
"Abrimos
a porta do estúdio, quando fomos gravar em
Paris, e demos de cara com todos os equipamentos
com que sonhávamos. Estávamos competindo com os
Beatles e com os Stones! Ficamos orgulhosos de
ter feito tudo daquele jeito. Se não tocar no
rádio hoje em dia, tudo bem. Não tenho
expectativas." (Arnaldo-abril/2000).
Entre as faixas gravadas estavam versões em
inglês de "Minha
Menina", "Panis Et Circensis", "Baby", "Ando
Meio Desligado", "Desculpe, Babe" e as inéditas
"El Justiciero", "Saravá" "Tecnicolor " e
"Virgínia", além de
"Bat Macumba",
"Adeus Maria Fulô" e "Le Premier Bonheur du Jour",
com suas letras originais.
Mas o disco não foi lançado naquele ano. Sem
muitas explicações a
Polydor
britânica, que tinha planos de lançar o
grupo no exterior acabou desistindo do projeto.
Engavetada por misteriosas razões, uma cópia da
fita foi descoberta em
1994 -
após longa hibernação - pelo jornalista, crítico
musical e escritor paulistano
Carlos Calado.
Um longo calvário precedeu o relançamento.
Somente após longa hibernação até o excelente
trabalho de remasterização digital conduzido em
3 meses por
Carlos Freitas, a partir de fita 7 1/2
ips na Cia do
Áudio, o disco finalmente veio à luz, em
setembro de 1999,
apadrinhado – dentre outros - por
Sean Ono Lennon,
que inclusive assina as ilustrações...
A falta de cuidado da produção da
Universal Music
ao não submeter os créditos e ficha
técnica do disco à verificação da
Polydor
britânica, ocasionou alguns erros como
mudar o nome original do disco de
Technicolor
para
Tecnicolor, sem h, a grafia aportuguesada
possivelmente escolhida pelo grupo.
Arnaldo Dias
Baptista, que hoje vive recolhido entre
desenhos e música em sua chácara em
Juiz de Fora,
chorou ao ouvir pela primeira vez a gravação
recuperada. O mentor intelectual do grupo
declarou um pouco antes de seu lançamento em CD:
"Tecnicolor
é o melhor trabalho dos Mutantes em relação às
técnicas de gravação e ao nível de estúdio, por
causa do produtor Carlos Olmes (também produtor
dos Bee Gees e que também inventou o efeito
sonoro chamado phasing). Além de que, foi feito
para ser o disco internacional dos Mutantes. Por
isso estou ansioso para ele saia. Quem ouvir
saberá. Mutantes tarde do que nunca."
As criativas combinações de rock psicodélico,
bossa nova, baião, samba e ritmos latinos são de
impressionar qualquer estrangeiro.
"Tecnicolor
era para inglês ver", justifica
Rita Lee.
"Mas
tem um frescor absolutamente intacto."
Sérgio Dias
concorda com ela: "Os
Mutantes são atemporais", diz.
Tecnicolor
teria mudado o rumo do grupo se tivesse sido
lançado em 1971,
imaginam Dias e Calado. Ambos acreditam também
que o disco pode, enfim, recuperar o tempo
perdido e levar os Mutantes a estourar nos
Estados Unidos
e na
Europa, onde são cultuados pela nova
geração de roqueiros.
Desde que deixou a empoeirada gaveta do Mr Olmes
até seu lançamento,
Tecnicolor
deixou pegadas no território da pirataria
mundial sofisticada e no power pop americano,
para o prazer de alguns poucos privilegiados que
tiveram acesso ao álbum em formato cdr, o que
contribuiu para influenciar muita gente - do
finado Kurt
Kobain, Hole, até o pessoal dos grupos
Posies,
Wondermints
e, mais recentemente,
Beck,
entre outros.
É um disco idiomaticamente eclético, com a
mistura de inglês, português, espanhol (ou
portunhol) e francês. Aliás, dizem que Olmes
prendeu o disco porque era cantado em muitas
línguas...
A "brasilidade"
imposta pelo produtor mesclada com a então
recente influência puntual de grupos como
Yes, Deep Purple,
Led Zeppelin e mesmo do
Santana e
dos Beatles
dão ao trabalho uma personalidade própria,
potencializada nas versões em inglês que
preservam o humor sempre presente nas obras do
grupo.
LONGO CALVÁRIO
Escoltados pelo produtor inglês
Carlos Olmes
(que insistia na sonoridade brasileira do
grupo), os
Mutantes entraram no
Studios Des
Dames em
Paris em novembro de 1970 e registraram
Technicolor
(com "h"), o disco que lançaria a banda na
Inglaterra e na França. Mas por algum motivo, a
Polydor inglesa
não se interessou pelo álbum, bem como
sua sucursal brasileira, a
Phillips.
A fita foi arquivada num estúdio londrino e
esquecida após algum tempo por todos, até mesmo
pelos Mutantes,
embora trechos do disco fossem conhecidos pela
rede de pirateiros especializados no grupo..
O jornalista, crítico musical e escritor
paulistano
Carlos Calado, ao fazer sua pesquisa para
o livro que estava escrevendo –
A Divina Comédia
dos Mutantes (editora 34), que não
adiciona muito ao enredo já contado por
Thomas
quase dez anos antes – ao entrevistar em 1994 o
artista plástico
Antônio Peticov,
- velho amigo de
Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias
que acompanhou de perto a trajetória da banda -
ficou sabendo da existência do disco perdido e
que ele possuía uma cópia de uma gravação da
banda, feita na Europa.
O jornalista
Carlos Calado no lançamento de seu livro
"Tropicália - A História de Uma Revolução
Musical", em 1997.
Arnaldo Baptista
vibrando com o sucesso dos Mutantes.
Tendo trocado o Brasil pela Inglaterra, no
início de 1970,
Peticov viajou até a França para
encontrar seus velhos amigos ao saber da
temporada de shows no famoso
Olympia de Paris,
proporcionando à banda (já com as participações
do baixista
Liminha e do baterista
Dinho)
durante um passeio à Torre Eiffel, sua primeira
experiência com o LSD, introduzindo os Mutantes,
literalmente, no mundo do psicodelismo.
A cópia da gravação acompanhou
Peticov
em Londres, de início, depois nos anos em que
morou na Itália e, já na década seguinte, nos
EUA, até seu retorno ao Brasil. Em 1994,
finalmente,
Antonio Peticov já nem lembrava muito bem
o que havia naquela velha fita de rolo.
Quando Calado
teve acesso a ela, mal pôde acreditar que
naquela caixa de papelão semi-aberta, enfiada
entre livros e discos de
Peticov,
poderia estar o perdido
'Tecnicolor'.
Uma gravação da qual os próprios
Mutantes
já se lembravam pouco e muito menos tinham
cópia.
Imediatamente,
Calado procurou o músico
Arnaldo Dias
Baptista e sua esposa e empresária
Lucinha.
De posse da cópia de
'Tecnicolor' – o
Disco –,
Lucinha e
Arnaldo a mostraram ao jornalista
Pedro Alexandre
Sanches, do caderno cultural Folha
Ilustrada, do jornal Folha de S.Paulo, que
publicou a crítica tardia mas inédita do disco,
lançando a sugestão à gravadora
PolyGram
(que, pra complicar ainda mais as coisas, foi
vendida para a
Universal - a empresa, não a igreja) para
a busca do master e o lançamento da
preciosidade.
A recente onda de música brasileira no exterior
fez com que o interesse pelo grupo crescesse,
principalmente após a vinda de
David Byrne
ao Brasil, em 1997, para lançar os
Mutantes nos Estados Unidos - uma coletânea do
grupo (Everything
is Possible) - e o selo indie
Tal
reeditar os três primeiros álbuns dos
Mutantes,
a bola de neve cresce de tamanho até o
lançamento de
'Tecnicolor' – uma das sínteses mais
brilhantes da carreira do grupo.
Uma foto dos
Mutantes feita durante a temporada na França:
Da esquerda p/ direita:
Arnaldo,
Sérgio,
Rita,
'Dinho'
e
'Liminha'.
A banda durante
as gravações do álbum "Tecnicolor", em Paris, em
1970:
Da esquerda p/ direita:
Sérgio,
Arnaldo,
Rita,
'Liminha'
e
'Dinho'.
Sérgio
toca a célebre "Guitarra
de Ouro", criada por seu irmão
Claudio Cesar,
que tem gravada em uma placa banhada a ouro na
parte traseira da guitarra a "Conjuração
do Sábado":
"Que todo aquele
que desrespeitar a integridade deste
instrumento, procurar ou conseguir possuí-lo
ilicitamente, ou que dele fizer comentários
difamatórios, construir ou tentar construir uma
cópia sua, não sendo seu legítimo criador,
enfim, que não se mantiver na condição de mero
observador submisso em relação ao mesmo, seja
perseguido pelas forças do Mal até que a elas
pertença total e eternamente. E que o
instrumento retorne intacto a seu legítimo
possuidor, indicado por aquele que o construiu".
Liminha
toca o
Contrabaixo REGVLVS, criado também por
Claudio Cesar,
utilizado originalmente pelo
Arnaldo.
Comentários sobre as faixas
1. Panis et
Circences
Um dos clássicos dos Mutantes e da Tropicália,
aqui em versão mais curta (2'12), que mostra
certa influência dos Beatles, bem no estilo de "Magical
Mistery Tour". A letra foi vertida para o inglês
mantendo o espírito e sentido originais dentro
do possível, mas a interpretação perde força ao
substituir a parafernália de ruídos por algo
mais brando.
2. Bat Macumba
Com o conhecido arranjo básico de baixo,
guitarra bongôs e pandeiro. Destaque para o solo
de guitarra de Sérgio Dias e o gemido-orgasmo de
Rita Lee. Imagino o que os gringos entendem
desta brincadeira...
3. Virgínia
O arranjo faz uma espécie de homenagem aos
Beatles. Foi lançada mais tarde no álbum "Jardim
Elétrico". Cantada vigorosamente por Serginho,
com back vocals de Rita.
4. She's my Shoo
Shoo (Minha Menina)
Talvez a música que mais se afasta da versão
original, a começar por sua introdução, onde a
antológica guitarra distorcida, que dá a
identidade à música, foi substituída por um
comportado teclado. O final mescla “Ob-La-Di
Ob-La-Da” com “Rain”, dos Beatles. Pena que
Jorge Ben não participou. Com agogô e cuíca fica
ressaltada a "brasilidade", que faz com que a
música passe a se enquadrar como um samba
psicodélico (aliás a palavra "samba" é entoada
varias vezes). Copacabana também é lembrada.
A duração encurtada à metade não permite
comparações. Em suma, o original é muito
superior...
5. I Fell a
Little Spaced Out (Ando Meio Desligado)
Excelente, com o improviso comendo solto entre o
baixo condutor e o teclado e a jam session de
hard blues na parte final da canção. Encerrado
com um patriótico Oh, meu Brazil….
6. Baby
A interpretação sedutora de Rita Lee é o ponto
alto. O clima de bossa nova está presente até na
letra onde é explicitamente citada. Solinho de
piano jazzy ao final.
7. Tecnicolor
O trio hipnotiza. Clara influência dos Beatles,
fase Abbey Road. Vocal preciso, instrumental bem
distribuído, é o ponto alto do disco. Justifica
ter dado nome ao trabalho. Incorpora também algo
de Crosby, Stills, Nash e Young.
8. El Justiciero
Inédita na época, foi lançada mais tarde no
álbum "Jardim Elétrico". A edição está melhor do
que a de Luka Bop original. Basicamente com
violões, bongô e maracas, é um exemplo clássico
do refinado humor dos Mutantes, com sua hilária
letra em portunhol com erros obviamente
propositais, após breve introdução em inglês
meio cantada meio falada por Rita Lee com
curioso sotaque mexicano. A letra impressa no
encarte omite uma pérola do nonsense mutante:
...Besame mucho
Juanita Banana, quando calienta el sol...
9. I'm Sorry
Babe (Desculpe Baby)
Vocal em "vibrato" bastante preciso torna a
versão bem interessante.
10. Adeus Maria
Fulô
Talvez a mais engraçada delas, com letra mantida
em português. O clima havaiano ganha ares de
caixinha de música acompanhada de cuíca e
marimba.
11. Le Premier
Bonheur Du Jour
Le Premier Bonheur Du Jour transformou-se
definitivamente em uma peça tipicamente
francesa, algo como um bolero, com arranjo à la
Vivaldi e flautas quase andinas. Rita assombra,
glamourosa. Os créditos não citam, mas devem ser
dela também as flautas. Bela guitarra...
12. Saravah (Saravá)
Versão crua com tocada rápida, com bom peso de
todos os instrumentos.
13. Panis et
Circences (Reprise)
Uma frase repetida ad infinitum (The
music lighted with the heat of the sun)
com profusão de flautas.
Vaizé - 26/10/2004
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