Itália, 1974.


Músicos:

- Alfredo Tisocco / Composição, Piano e teclados
- Donella Del Monaco / Canto e voz

- Luciano Tavella / flauta
- Enrico Professione / violino
- Pieregidio Spiller / violino
- Riccardo Perraro / cello
- Pierdino Tisato / bateria
- Tony Esposito / percussão, instrumentos, efeitos 


Peças Musicais:

1. Introspezione
2. Les Plaisirs Sont Doux
3. La Marmellata
4. L'altalena
5. Monologo
6. Il Pavone
7. Ah, Douleur
8. Deliee
9. Oro
10. Rituale
11. Introspezione (Integral) (Bonus)


Opus Avantra    

Introspezione

 
Dados da resenha:
Autor: Rui Deus (Rael); recebida em: 15/08/2004.
Comente e veja outras opiniões aqui.
 
Opus Avantra... Opus (ópera - produção) Avan (vanguardista - inovadora) e Tra (tradição - folk) – Ensemble que arquitecta uma simbiose híbrida entre as raízes da musica tradicional e vanguardismo (não falo daquele vanguardismo e experimentalismo a-qualquer-custo, que vale só por ser diferente e dissemelhante, que parte de lugar nenhum para lugar algum, frequentemente terminando em mero despesismo ou de criações pseudo-vanguardistas que englobam uma colagem absolutista e sem sentimentos de vários géneros do passado) - aplicado na construção de música realmente consistente. Entre estas duas grandes “linhas mestras” (musica tradicional e vanguardista), aparecem-nos outras influências e elementos patentes na sonoridade dos Opus Avantra...: entre elas o progressivo neoclássico, chamber rock, música clássica... romântica... contemporânea... operática... electrónica... concreta... étnica... jazz.... opera... etc. Elementos diversos, mas tendo sempre como pontos de referência “de onde vimos” e “para onde vamos”... ou seja, música vanguardista fortemente embebido no conhecimento e regresso há tradição e compositores eruditos - movimento ideológico - Opus Avantra.

Os fundadores e lideres deste movimento (e da ensemble) são: Alfredo Tisocco – músico graduado em 1971 pelo conservatório de Venice, é o pianista, compositor e director de orquestra (elementos supremo desta ensemble), grande admirador e apaixonado pela obra se Erik Satie (sujeito excêntrico, atrevido e místico; inventor da música ambiente; precursor do minimalismo; escritor; inventor; vanguardista irreverente; etc.) e pela música dos Gentle Giant, de Chopin e Debussy; Donella Del Monaco - soprano (operática) detentora de uma voz majestática é filha de Marcello del Monaco e sobrinha do famosíssimo tenor Italiano Mario dell Monaco, com uma voz multiforme em todos os sentidos, Donella é, a meu ver, a melhor voz ao serviço da Musica Progressiva; Giorgio Bisotto – não como o músico mas como o filósofo, vanguardista e escritor, amante da obra de Stockhausen, Ligeti, Cage e Varese, etc; nos espectáculos ao vivo dos Opus Avantra, costumava apresentar-se vestido de mágico...

Contudo, nos idos anos 70, a soprano é que parece ter sido a figura de proa do grupo, não sei se pela sua presença (possuía então um perfil invejável) e uma voz notável, se pelo peso que o nome del Monaco tinha na música italiana daquele tempo, pois Donella assumia-se como a criadora dos Opus Avantra este álbum ostenta o seu nome na capa por baixo do grupo. Mas, claro, para nós, a décadas de distância, a importância de Tisocco na definição do "som característico" dos Opus Avantra é inegável e ultrapassa a da voz da própria Donella (pelo menos para aqueles que entendem que no acto criativo o primado é o da composição, e não o da interpretação).

Houveram diversos outros músicos, que iam variando ano após ano, já que ao todo eram cerca de 10 ou mais elementos. Entre eles nomes notáveis, como é o caso do flautista Luciano Tavella; os violinistas Erico Professione e Pieregidio Spiller e o violoncelista Riccardo Perraro.. entre outros. Contudo, os descritos sempre foram verdadeiros ao espírito da idéia original, o espírito Opus Avantra – que ainda hoje existe.

Há cerca de 30 anos os Opus Avantra lançam-se com este belíssimo Introspezione (1974). A cena da Musica Progressiva Italiana era maioritariamente composta por bandas pertencentes ao subgénero “Sinfónico”, em Itália apelidado de POP Italiano, fase de esplendore ou dos grandes festivais (como o de Villa Pamphili ou de Sanreno). Contudo, os Opus Avantra eram diferentes, desde logo nota-se uma certa distinção da banda relativamente ao seu meio musical...

“Opus Avantra - Donella Del Monaco” (vulgarmente apelidado por Introspezione, nome da primeira peça musical da obra) foi lançado originalmente pela Trident, uma editora que lançou diversas bandas, como é o caso dos “Dedalus” (banda de fusão-vanguardista), os “Un Biglietto per Inferno”, Semiramis e The Trip. Este seu primeiro trabalho, costuma ser considerado como o mais acessível da ensemble, e aquele que deve ser ouvido primeiro. Um álbum inspiradíssimo, pleno de atonalismo, polirritmia, contraponto, dodecafonismo... uma riqueza tímbrica fora do comum (diversos violinos, piano, fagote, oboé, canto e voz, flauta, teclados, bateria, cravo, violoncelo, fortes e insanas percussões... etc.. etc..) unida à sofisticação e complexidade das composições, fazem desta obra uma prioridade para qualquer entusiasta de Musica Progressiva, especialmente do italiano ou subgénero “Avant-Prog”.

Sobre a obra... não vale a pena destacar peças, já que são toda de elevado nível, começando pela caótica “Introspezione” (a edição da Akarma, conta com esta peça em versão integral – tema bónus) em que é criada uma massa sonora sem igual... passando pela belíssima “Les Plaisirs Sont Doux”, uma espécie de poema musicado em que pode ouvir-se a belíssima voz da soprano - na minha opinião a melhor voz na Musica Progressiva. Peças como a L´altalena, Il Pavone, Deliee, Oro e Rituale... dão corpo à obra, sendo cada peça uma autentica viagem, viagem essa por locais nunca antes visitados!

Tanto ao nível da composição como ao da interpretação, o trabalho está num notável patamar qualitativo.. Alfredo Tisocco a nível das composições e Donella Del Monaco na interpretação colocam a fasquia altíssima.

Rui Deus