
EUA, 1975.
Banda:
- Chick Corea: Piano elétrico, grand piano,
órgão Hammond, clavinete, moog, percussão, vocais
- Stanley Clarke: Baixo elétrico e
acústico, órgão Hammond, vocais
- Lenny White: Bateria, percussão, marimba,
congas
- Al Di Meola: Guitarras, violão
Faixas:
1. Dayride (3:25)
2. Jungle Waterfall (3:03)
3. Flight Of The Newborn (7:23)
4. Sofistifunk (3:51)
5. Excerpt From The First Movement Of Heavy Metal
(2:45)
6. No Mystery (6:10)
7. Interplay (2:15)
Celebration Suite:
...8. Part I (8:27)
...9. Part II (5:32)
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Return to Forever
No Mystery
Dados da resenha:
Autor:
Rodrigo
Guabiraba (R.
Guabiraba);
recebida em:
14/01/2006.
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aqui.
Já tendo resenhado o
matador "Where
Have I Known you Before" neste fórum,
retorno a falar sobre sequência magnífica de
albums que estabeleceu definitivamente o
fusion
latino virtuose do
Return to
Forever (RTF), quarteto liderado pelo
pianista Chick Corea.
Em 1974 o RTF já havia se consolidado como uma
banda de
fusion, em parte devido às ambições
eletrônicas de Chick, convencido de que poderia
extrapolar sua música além do piano, passando
assim a montar um grande
set de
teclados tanto no palco como em estúdio. Outro
ponto decisivo foi a aquisição do solista Al di
Meola, garoto prodígio, que aos dezenove anos,
egresso da escola de música e de uma pequena
banda de
fusion local, revolucionou o cenário com
um vibrato, velocidade e técnica
impressionantes. "Hymn of the Seventh Galaxy",
1973, album de poderio maciço, ainda com Bill
Connors na guitarra, já mostrava para que lado o
fusion
do RTF apontava, o que se consolidou com "Where
Have I...", sendo que este último entrou com
elegância no TOP 40 americano ao final de 74.
Stanley Clarke e Lenny White, filhos do
proto-fusion
de Miles, e virtuoses de renome,
contribuíram para maquinaria monstruosa do RTF,
sendo Clarke, baixista monumental, um dos
responsáveis pela coesão definitiva de estilos
dentro do RTF (do qual foi membro desde o
início, onde Chick ainda buscava um rumo entre a
bossa-nova e o
electro-jazz, contando com Airto Moreira
e Flora Purim, fase de muito bom gosto),
empregando um suingue totalmente peculiar ao som
de Chick, engajando também uma levada
funk
visceral, retirada de seu baixo com
drive
no máximo. Todos os elementos ficaram óbvios em
"Where Have I...", e o caminho do RTF dentro do
fusion
estava aberto.
Entrando em estúdio para gravar mais um album
para a Polydor (o último pela gravadora, já que
"Romantic Warrior", de 1976, o maior sucesso da
banda, viria a ser gravado pela Columbia, sendo
que Chick permaneceria como artista solo dentro
da Polydor) o RTF se dispôs a produzir um
fusion mais hermético, talvez dentro da
proposta de concentrar o trabalho em um
perfeccionismo técnico, em detrimento de
improviso e poderio individual. A política de
Chick em estúdio sempre foi calcada em
disciplina e rigor, mesmo que pelo formato
latinizado e baseado em arranjos beirando o
flamenco, a banda tivesse espaço para incursões
solo,
improvisadas, bem proeminentes. De qualquer
forma, o trabalho foi concluído com certa
rapidez (visto que entre 74 e 76 o RTF soltou 3
petardos, ambos de grande competência técnica),
e "No Mystery" acabou por figurar entre os
melhores albums do quarteto, se diferenciando em
aspectos bem interessantes: um album com nove
músicas, a maioria relativamente curta; solos
curtos mas de alta precisão; muito
groove
e diversas passagens altamente ritmadas, se
distanciando do
fusion
devastador, como de praxe. O album gerou uma
turnê de grandes proporções para a banda,
estabelecendo o RTF como grupo de ponta no
fusion
mundial e, obviamente, queiram os puristas ou
não, no jazz em vigência. O resultado disso tudo
foi um TOP 40 bastante honroso, o segundo na
sequência, e um Grammy notável, como "Melhor
album de Jazz instrumental". Chick e cia.
agradeceram e permaneceram, pelo menos por mais
um ano, como A BANDA de
fusion
em atividade, visto que Mahavishnu, Soft Machine,
e mesmo novatos como o Brand X e outros tantos
de menor calibre, estavam descendo a ladeira, e
nada até o momento soava tão novo e genuíno como
a metralhadora sonora de Di Meola, o caminhão
gorduroso de Clarke, a destreza harmônica de
Chick e o suingue de White. Importante lembrar
que Di Meola em muito pouco tempo gravaria
algumas pérolas solo (algumas aos 21 anos de
idade!), se estabelecendo como guitarrista mór
no cenário
late 70´s, conquistando Grammy´s e alguns
number one
na Guitar Magazine, além de que Clarke,
White e Chick, mais do que nunca, carimbariam
sua marca em trabalhos solo e em parcerias
bombásticas.
Sem a penetrância magmática de "Where Have I..."
ou sem o deleite progressivo de "Romantic
Warrior", "No Mystery" poderia passar
desapercebido, mas seu formato redondo e
valorizando o coletivo faz com que o album seja
o presente ideal para se iniciar na discografia
do RTF. Extensão da latinidade polirítmica de
Chick e cia., aqui o RTF começa a dar espaço a
Di Meola e Clarke, mesmo que a predominância de
qualquer músico não seja deveras evidente. O
Grammy presenteou o grupo pelo seu notável
entrosamento e capacidade de combustão em
detalhes mínimos, incluindo belos e complexos
duetos de teclado e guitarra, além de um
dinamismo sobrenatural, o que permitia a Clarke
e White desdobrarem o tempo em pelo menos 2
compassos sem desconstruir a harmonia rígida de
Chick ou de Di Meola (mesmo que o contrário
também ocorresse, onde Chick engrena diversos
ritmos polimodais, formulando bases concretas no
piano elétrico, dando espaço para White,
inclusive, criar pequenas passagens solo, dentro
de uma melodia em andamento. Precisão absoluta.)
"Dayride" é uma pérola dentro de "No Mystery".
Faixa bastante complexa, com ritmo intrincado,
lembrando o
fusion dos trabalhos anteriores, mas com
uma harmonia bastante peculiar e agitada.
Notável o trabalho de baixo e bateria, que
constróem o ritmo com uma solidez invejável,
mesmo que, muitas vezes, o ouvinte seja levado a
acreditar que a faixa se desmanchará. Ponto para
o moog setentista de Chick e para os vocalises
um pouco estranhos. Excelente.
"Jungle Waterfall" funciona como uma extensão de
"Dayride" e aqui é bem evidente a preocupação
com a sessão rítmica, como citado no texto
introdutório. Batida frouxa,
groove
com slap
e wah-wah bolinando uma ou outra incursão
tecladística. Tende ao
pop-fusion
setentista e engana um pouco quem
esperava por um
dark fusion.
O solo de Di Meola, pra variar, ganha a faixa.
"Flight of the Newborn" é a primeira bomba do
album e sem dúvida marcante. Um
black funk
legítimo, acomodado por piano elétrico e
wah-wah, que se estende a um belo solo de
guitarra de di Meola, com
fuzz
exagerado. Aqui a banda soa como seus trabalhos
anteriores, o que dá um certo vigor para puxar
as outras faixas. Nota 10. Clarke presenteia o
ouvinte, ao final, com um excelente solo,
capitaneado por viradas monstruosas de White.
Chick conclui com moogs e mais moogs paranóicos.
Invejável.
"Sofistifunk" é das faixas mais curiosas. De
altíssima complexidade, Chick constrói uma base
avassaladora de sintetizadores dentro de um
turbilhão Baixo/Bateria grandioso. O
funk é
predominate, e di Meola e Chick descontróem o
ritmo completamente. Mais uma pérola. Ponto para
a sessão percussiva.
"Excerpt From The First Movement Of Heavy
Metal", pelo título, soa como uma piada. A
abertura ao piano de cauda é somente um gancho
para a levada maciça de baixo, bateria e
guitarra. O
funk frenesi do RTF, recheado de breaks
complexos e peso, deixa di Meola realizar um de
seus solos mais pesados dentro do RTF. Curiosa.
"No mistery" é uma das faixas mais bonitas do
album. De grande complexidade, e essencialmente
acústica, lembra temas diversos criados
principalmente por Di Meola e Chick em alguns de
seus trabalhos solos. Lindas passagens de piano
e violão, em uma atmosfera jazzística
low-fi.
Excelente pedida. Conta com um belo solo de
Clarke, utilizando, desta vez, arco.
"Interplay" é uma extensão de "No Mystery".
Acústica, curta e bastante gentil. Chick e
Clarke duetam com precisão e técnica.
"Celebration Suite part I" resgata o virtuosismo
do RTF com primor. Bombástica, conta com
diversas incursões tecladísticas e se envereda
pelo fusion
latino, com pitadas flamencas, onde Chick dá um
show a parte ao moog. O ritmo é seguro e carrega
o padrão de qualidade do RTF, vide as
constrangedoras quebras de ritmo na segunda
metade da faixa.
"Celebration Suite part II" fecha "No mistery"
com excelência. Um tapete de piano elétrico
permite a Chick e Clarke moldarem um
fusion
bastante característico, pesado e complexo. Di
Meola ressurge com o seu melhor solo no album,
duetando com Chick por alguns minutos,
relembrando os momentos
dark fusion
de "Where Have I...". A parte final da
faixa é extremamente complexa e muito rápida,
impressionando o ouvinte desatento. Essencial.
"No Mystery" é logo de cara uma obra obrigatória
para amantes de fusion e/ou instrumental
complexo. A obra pega o RTF em seu auge e conta
com alguns de seus melhores momentos, sem contar
que é o retrato de um passado onde o
fusion
era a bola da vez na música pop, além de ter
escancarado para o mundo musical e para a mídia
a obra talentosa destes quatro músicos, mais
notadamente Al di Meola, visto que os outros
membros já possuíam
know-how
mais do que suficiente.
abraços
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