
Inglaterra, 1974.
Renaissance é:
Annie Haslam: vocais
Michael Dunford: violão e vocais
John Tout: piano, harpischord e órgão
John Camp: baixo e vocais
Terry Sullivan: bateria, percussão e
vocais.
1. Running Hard (9:37)
2. I Think of You (3:07)
3. Things I Don't Understand (9:29)
4. Black Flame (6:23)
5. Cold Is Being (3:00)
6. Mother Russia (9:18)
|
Renaissance
Turn Of The
Cards
Autor:
Agnaldo Francisco
(Novalis);
Este é o 5º trabalho do
Renaissance e segue a mesma linha sonora dos
discos anteriores, belas composições, arranjos e
melodias, apoiados no excelente vocal de Annie
Haslam, trabalho orquestral sob medida,
inclusive mais acentuado que em "Ashes are
Burning" e perfeita interação entre piano,
bateria, baixo, e violão. Um clássico do
progressivo britânico para qualquer roqueiro que
se preze. Infelizmente não foi lançado no Brasil
nem em vinil quanto em cd. Pode ser achado em cd
pela Repertoire. O disco possui algumas
adaptações da música clássica, como pode ser
notado em "Cold is Being". Um clássico do rock
sinfônico, e altamente recomendável!!!
Dados da resenha:
Autor:
Rômulo Garcia (Blackflame);
recebida em:
13/09/2004.
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Pessoalmente eu pensava
que orquestras em bandas de rock eram sinônimo
de fracasso e de excesso de erudição, no qual o
resultado era único: a sonoridade e o talento da
banda sendo colocados de lado em favor do
trabalho orquestral; isso é nítido em álbuns
como o Concerto For Group & Orchestra, do Deep
Purple de 1970, por exemplo. Porém, há certo
casos em que realmente a orquestra se encontra
em seu devido lugar, dando uma "pincelada" legal
no som produzido por determinada banda, como é
no caso de Time and A Word, do Yes, também de
1970; e ...Di Terra, do Banco Del Mutuo Soccorso,
de 1978. E também se inclui aí os álbuns do
Renaissance que, na minha modesta opinião, é uma
das melhores bandas de rock progressivo do
gênero sinfônico, cujo som se resulta em uma
simbiose interessante entre música clássica
(mais especificamente a música romântica e
renascentista), folk rock e boas pitadas de
influência indiana. Confesso que foi essa banda
que me incentivou a ver com outros olhos o
progressivo sinfônico orquestrado, o que me fez
um fã incondicional do som produzido por ela.
E um dos álbuns da banda que pode significar um
exemplo disso é este Turn Of The Cards. Sobre
ele, consideremos ele como sendo uma continuação
daquilo que foi elaborado no álbum anterior,
Ashes Are Burning (1973), ou seja, a
consolidação desse estilo sinfônico-acústico que
marcaria a banda durante os anos seguintes; uma
espécie de preparação madura, ou até mesmo um
"vestibular", para a realização da grande
experiência sonora que seria o Scheherazade &
Other Stories (1975). Como o próprio título do
álbum sugere, eles realmente mudaram o jogo,
viraram as cartas. Eles viram o quanto a mudança
feita com a experiência anterior funcionou e
agradou a seus fãs, ao buscar uma alternativa
diferente , ou seja, mais folk e clássico, da
proposta anterior feita nos três primeiros
álbuns (Renaissance, de 1969; Illusion, de 1970;
e Prologue, de 1972); porém sempre mantendo a
famosa influência indiana que sempre cercou as
músicas do grupo. Assim nesse trabalho seria um
desenvolvimento mais consciente e maduro desse
novo estilo, definindo realmente o que a banda
queria com sua música: melodias bem elaboradas e
de grande impacto, com várias passagens
sedutoras e marcantes capazes de seduzir o
ouvinte na primeira audição, coisa feita por
outras bandas progressivas sinfônicas como o
Genesis e o Yes.
Porém, muitas vezes esse disco não é citado
entre os grandes trabalhos feitos pela banda
devido esse fato dele se localizar entre dois
ótimos trabalhos que projetaram a banda a nível
internacional (que são justamente o Ashes Are
Burning e o Scheherazade), mesmo com duas
músicas tiradas desse álbum, "Running Hard" e "Mother
Russia", terem feito um sucesso relativo entre
os admiradores da banda principalmente nos
shows, sendo até uma das mais pedidas nessas
apresentações. Vale lembrar que o disco anterior
a este, Ashes Are Burning, lançou a banda a um
nível de grande popularidade principalmente nos
EUA, cujo hit "Carpet of The Sun", ficou entre
as melhores de 1973 daquele país. Pra melhor
entendermos, basta comparar Turn of The Cards
com o que aconteceu com Wish You Were Here
(1974) do Pink Floyd, em que o sucesso do álbum
anterior, Dark Side of The Moon (1973), fez com
que esse não fosse percebido na época como um
dos grandes momentos da banda, coisa que só
ocorreu anos depois. Em suma, infelizmente é um
disco considerado de valor menor e transitório,
muito pouco mencionado a não ser devido às
canções citadas.
Esse álbum do Renaissance registra a última
participação de Jim MacCarthy. Mesmo com a
primeira formação da qual ele fez parte como
baterista dissolvida, ele ainda permaneceu na
banda, mas somente como compositor, auxiliando
Michael Dunford a elaborar as letras e a parte
musical. Mesmo não creditado na contracapa do
disco, sua participação como compositor na
música "Things I Don't Understand" está
registrada no bolachão propriamente dito. Marca
também o auge do entrosamento entre Dunford, o
"líder" da banda desde Illusion, e a poetisa
inglesa Betty Thatcher, com quem Dunford já
vinha compondo as letras desde Prologue. Um fato
curioso: eles só se conheciam por
correspondência e elaboravam as músicas desse
mesmo jeito! Era assim: Dunford mandava à Betty
a fita demo contendo a melodia elaborado por ele
ao violão; à ela então cabia encaixar os versos
que ela fazia dentro dessa melodia, e se tivesse
algo a mais para acrescentar à música, ela
avisava. E nesse troca-troca constante de
correspondências nasciam as canções; claro,
depois modificadas pelos membros do grupo, tendo
em vista que eles também participavam do
processo de composição das canções apenas na
parte musical/instrumental. Também representa a
mudança de gravadora, partindo do selo
experimental Harvest para a Sire Records, que
fazia parte da Warner Music (mais tarde, os
discos seriam distribuídos diretamente pelo selo
Warner, do Novella, de 1977, até o último da
fase áurea, Azure D'Or, de 1980).
Com a parte orquestral sendo conduzida de forma
competente por Jimmy Horowitz, no quesito
instrumental o disco está impecável, com grande
destaque, claro, nos vocais de fada de Haslam,
nas improvisações e "vôos" loucos do baixo de
Camp e nos pianos e órgãos recheados de eco e
reverb de Tout. Dunford ainda evoluiria muito
como músico; ainda nesse álbum seu violão atua
na "retaguarda", apenas para acompanhar os
outros músicos e dar um clima acústico às
canções; seus momentos como verdadeiro
violonista, fazendo solos e arpejos inspirados,
viriam à tona nos álbuns Novella (vide as
músicas "The Sisters" e "Midas Man") e A Song
For All Seasons, de 1978 (aqui ele finalmente
toca guitarra elétrica, como se vê nas músicas "Opening
Out", "Kindness (At The End)" e a faixa-título).
Já na bateria, Terry quebra um bom galho, dando
ritmo e dinamismo à música da banda; há certos
momentos em que ele se comporta como um
eficiente baterista de hard rock, dando viradas
até interessantes.
Apesar de bem feito e executado, esse álbum
possui apenas um defeito: é curto demais, com
apenas seis canções, o que deixa muita gente que
aprecia a banda com gostinho de "quero mais", de
que podia ter colocado mais canções. Porém, isso
é de costume entre os excelentes discos de
grandes bandas do rock progressivo como o
Trespass (1970) do Genesis e o Pawn Hearts
(1971) do Van Der Graaf Generator, em que a
qualidade das músicas sacia, ao menos, a
carência no quesito quantidade. Porém, sem mais
delongas, vai aí um pequeno resumo das músicas
que compõem este fabuloso álbum:
Running Hard: um solo de piano furioso, mas que
aos poucos vai adquirindo uma tonalidade mais
calma e suave inicia o álbum. Assim que o solo
está próximo de terminar entra o baixo e depois,
com impacto, vem a bateria, o violão e a
orquestra definindo a linha melódica que seria
cantada por Annie nas partes de refrão, porém em
outro ritmo. Por toda a música pode ser
percebida uma sensação gostosa de estar viajando
naqueles trens tipo "Maria Fumaça" devido ao
ritmo da bateria que vai conduzindo os outros
instrumentos. E nisso tudo, Annie vai cantando
as letras da canção que fala sobre devaneios
musicais, pelas estradas desconhecidas e
fantásticas que a música pode levar uma pessoa,
coisas próprias da poesia "açucarada" e
surrealista de Thatcher. Grandes momentos da
música são quando Annie dá seus conhecidos
solfejos, junto com o excelente trabalho de
backing vocal de Dunford, Sullivan e Camp,
demonstrando influência da música
medieval-renascentista; e quando, em
praticamente uma só nota (com algumas variações)
o piano e o harpischord (uma espécie de cravo
elétrico) executam um solo dinâmico e preciso,
ainda contando com a companhia da orquestra que
ia junto a cada nota dada, isso executada duas
vezes antes de fechar essa parte e Annie cantar
pela última vez, em outro tom e em ritmo mais
lento, o refrão da música e a orquestra
encerrá-la definitivamente, seguindo as mesmas
notas do refrão.
I Think Of You: assim como "Let It Grow", do
álbum anterior Ashes Are Burning, é uma balada
romântica e suave, conduzida pelo violão de
Dunford e o harpischord de Tout. Uma canção de
amor simples, porém envolvente e cativante. Uma
ótima trilha sonora para casais apaixonados, bem
"melosa".
Things I Don't Understand: essa música poderia
muito bem figurar dentre os grandes momentos da
banda, estando à altura de composições de força
maior como "Ocean Gypsy" e "Can't You Understand?".
Ela é muito bem feita, um resumo sobre as
principais influências da banda. As partes de
refrão são todas em uma nota só, reforçando o
lado "indiano" do som deles. Muitas variações e
viradas inesperadas, a alternância entre climas
mais sombrios, dramáticos, românticos e calmos e
o virtuosismo de Tout em um piano com muito eco
e de Haslam e seus famosos agudos compõem essa
música encantadora, ainda mais com uma letra que
parece que foi feita por Jon Anderson: as
incertezas que revelam as coisas que não
entendemos direito, como o nosso futuro e o do
mundo cheio de dúvidas e contradições que nos
cerca; mas que, porém, não devemos nos ater em
buscar as respostas para essas coisas, e que o
importante a ser feito é nos amarmos uns aos
outros como irmãos para que então tudo se defina
e um mundo de paz seja possível. Muito viajante!
Black Flame: uma música boa, porém sem grandes
demonstrações de virtuosismo e variações. É uma
música simples, constando apenas de um refrão de
grande destaque, sendo que no meio da música há
uma evolução interessante, com a sonoridade do
órgão e do coral feito por Haslam e demais vozes
masculinas darem um clima camerístico para Tout
solar no piano; eis a parte mais interessante da
música em se tratando da parte instrumental. Não
é um grande solo, mas compensa a simplicidade
que a música tem. A letra dessa música é um
tanto confusa, fala sobre o ser humano em sua
natureza incompleta e inquieta, preparado e apto
para vivenciar novas emoções e preencher o vazio
ocupado pela escuridão de seu ser. Por outro
lado, a expressão "uma chama negra queimando
minha mente enegrecida" pode levar a várias
interpretações além desta aqui proposta,
levando-se em conta que, às vezes, o som do
órgão ao fundo nas partes de refrão dava um
clima até macabro. Realmente, é uma música muito
bem feita e executada.
Cold Is Being: apenas um órgão e a interpretação
comovente de Annie Haslam compõem essa música de
caráter religioso, cuja letra de Thatcher é uma
prece a Deus a favor de todos os desolados e
desamparados desse mundo de escuridão e frieza.
Nos créditos, não é citado o nome de Tomaso
Albinoni, o real autor da parte musical, de quem
Dunford tomou "emprestado" o conceito de sua
música, "Adágio". Essa música também foi
utilizada pela banda The Doors para o fundo
musical de "Several Garden", uma poesia de Jim
Morrison contida no disco "An American Prayer",
na qual o poema era declamado por Morrison
enquanto o restante da banda fazia a parte
instrumental ambiente. Voltando ao Renaissance,
apesar do suposto "plágio", a música é mesmo
muito bonita e tocante, valendo a pena ser
escutada, principalmente para os que se
impressionam com a voz de Annie. Porém, ouvir
essa música também vale pela experiência
auditiva, visto que a impressão de que você está
naquelas imensas catedrais ou nos jardins de uma
igreja ou cemitério é presente o tempo todo.
Mother Russia: um piano tenebroso, acompanhado
de um baixo silencioso, dá início a uma das
músicas mais cativantes desse álbum (não é à toa
que ela encerra o disco com chave de ouro). E
não é só isso: é um dos grandes momentos da
banda, em que ela demonstra seu virtuosismo na
construção de melodias e passagens viajantes e
inesperadas. Vale também falar da belíssima
interpretação de Haslam, que, por meio de sua
voz, expressa realmente o sentimento das pessoas
que sofreram todo aquele período conturbado de
perseguições do regime totalitarista-comunista
de Stalin durante o período da antiga União
Soviética, que é do que fala a letra da canção
("Mãe Rússia, eles choram por você"; "Sangue
vermelho em neve branca, eles sabem que os rios
congelados não fluem" ). Segundo algumas lendas
dizem, parece que Annie participou muito mais
efetivamente do que os outros membros da banda
durante o processo de composição da canção até
nas letras, com muitos também dizendo que essa
música é um presente de Thatcher à Haslam de tão
excelente que ficou devido ao seu trabalho com a
voz e na composição das letras (ainda segundo os
boatos, ela não queria os créditos no disco por
ser muito tímida e não se considerar boa
compositora!). O trabalho instrumental com a
orquestra junto com a banda é primoroso, em que
um vem para somar e complementar o outro.
Grandes momentos da música: quando Annie solta
seus agudos poderosos na parte do meio da música
utilizando a linha melódica do solo de piano e
orquestra contida na introdução da música (após
o citado solo de piano inicial); e quando, quase
no final da música, antes de voltar ao refrão,
acontece o diálogo entre a orquestra e a
vocalização feita por Haslam, Camp, Dunford e
Sullivan (o famoso "ta-ra-ta-ta"). Ótima música,
porém ela surte um efeito mais devastador quando
executada ao vivo pela banda, com direito a
improvisações vocais (vide os álbuns Live At
Carneggie Hall e King Biscuit Flower Hour Vol.
02). O mesmo também vale para "Running Hard",
que recebia esse mesmo tratamento nos shows.
Turn Of The Cards pode ser considerado um
excelente álbum e um dos grandes álbuns tanto da
fase áurea da banda quanto do rock progressivo
em geral. É um bom começo para aqueles que
querem conhecer melhor o trabalho da banda em
sua formação mais famosa (além desse, é
recomendável também para fins de conhecimento
Prologue e Ashes Are Burning, os álbuns mais
famosos e acessíveis quando se fala em
Renaissance), além de uma interessante
experiência musical para os veteranos em
progressivo e para os admiradores da banda em
particular. Muito mais do que uma banda que
conta com excelentes músicos virtuosos como John
Tout, Jon Camp e Annie Haslam, são músicos que
possuem uma inteligência melódica-instrumental
fora do comum, além de saberem usar corretamente
os recursos sonoros disponíveis. E esse álbum é
realmente a prova viva desse talento em fazer um
progressivo sinfônico cativante e diferente do
que muitas bandas desse gênero vinham fazendo
naquela época. É a resposta da banda na busca
por uma nova sonoridade, estabelecendo
definitivamente sua originalidade.
Rômulo Garcia (Blackflame)
10/09/2004
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