
Alain Ballaud
- contrabaixo, baixo elétrico. Ann Stewart
- vocais. Franck Coulaud - bateria.
Franck W. Fromy - guitarra elétrica.
Jean-Luc Hervé - piano, órgão, acordeom.
Michel Kervinio - percussão. Véronique
Verdier - trombone.
Faixas:
1. Incipit tragaedia - 16:39
2. Cabine 67 - 6:16
3. Yog sothoth - 13:07
4. La ballade de Lénore - 9:30
5. Delear prius - 4:12
6. J'ai vu naguère en peinture les Harpies
ravissant le repas de Phynée - 4:17
|
Shub Niggurath - Les Morts Vont Vite
(1986) Por
Lindhorst
Cá estou eu, em auto-imposto desafio, no âmbito de
uma tarefa das mais árduas: fazer uma resenha acerca
do Shub Niggurath, ou melhor, uma tentativa de
evocar em palavras a miríade de sensações que uma
audição deste magnífico, inigualável conjunto
francês provoca...
Poderia, sem dúvida, seguir pelo caminho alegórico e
vos cumular de metáforas: dizer, como já o fiz
noutro espaço deste site, que a música do Shub
Niggurath é
lovecraftiana; que é opressiva, esmagadora,
sufocante, claustrofóbica; poderia vos falar sobre o
notável contraste entre a voz ameaçadora e sombria,
mas ao mesmo tempo diabolicamente angelical, de Ann
Stewart, e o instrumental do grupo: o rugido
demoníaco do baixo trovejante de Alain Ballaud, os
rítmos tribais e insanos de Franck Coulaud, os
sopros tonitruantes e sepulcrais de Véronique
Verdier, os urros torturados da guitarra de Frank
Fromy e os monstruosamente góticos teclados de
Jean-Luc Hervé; dizer-vos que o disco em pauta,
Les Morts Vont Vite
(1986, Gazul records), chega a ser indescritível em
sua conjuração de sombras e miasmas infernais; que é
uma espécie de Univers Zero fase
Heresie ainda
mais ominoso e espectral; comunicar-vos, por fim,
que conhecê-lo é mais do que simplesmente escutar
uma peça musical: é vivenciar uma experiência
espiritual que atinge o de que mais obscuro e
profundo existe em nosso âmago. Todavia, como em
pouco tempo minha capacidade de urdir sortilégios
verbais seria sobrepujada pela cornucópia de estados
d´alma que esta banda conjurar, poderia então vos
oferecer, seguindo por uma vereda mais convencional,
uma descrição do álbum música a música: os
instrumentos que se destacam em cada uma, a maestria
com que os músicos manejam a arte da composição e do
arranjo, as quebras abruptas de andamento, as
soturnas intervenções orquestrais, as atmosferas
entretecidas pela produção, etc.
Decidi, contudo, enveredar por um caminho distinto e
sobremaneira mais temerário: o conto fantástico; e o
que é ainda mais inusitado: não um conto fantástico
lapidado pelo estro poético de um E.T.A Hoffmann, um
E.A.Poe, um J.L.Borges, mas um miserável pedaço
d'escrita de minha própria lavra.
Esta é, pois, minha modesta homenagem a esta banda
inolvidável.
MÚSICA DAS ESFERAS
Numa das mais antigas galerias comerciais da cidade
de Ooth-Nargai, uma imponente estrutura em pórfiro,
adornada por magníficos vitrais purpúreos,
representando seres vagamente semelhantes aos
sibilantes simurgs da sulfurosa Shandelarash,
pavimentada por lajes de mármore negro e azul, e
encimada por um teto rendilhado em hipnóticas
abstrações geométricas que, de certo modo, evocavam
as evanescentes muralhas de Evantarek, havia,
segundo me disseram, uma fabulosa loja de discos,
especializada em obras raras, e que possuía em seu
acervo gravações de peças jamais lançadas, e até
mesmo, especulava-se, registros de músicas
imaginárias... Morando nos arredores da cidade, cujo
centro parecia estar a cada ano mais distante,
era-me custoso ir até a galeria, uma vez que para
nós, criaturas periféricas, tornava-se difícil a
orientação nos meandros labirínticos de uma
arquitetura lúgubre e ominosa; a necessidade,
contudo, haveria de resolver a questão: um antigo
pagamento, já há muito prometido, finalmente estava
à minha disposição. A sensação de poder gerada pelo
dinheiro (uma quantia bastante razoável,
asseguro-lhes) encorajou-me a procurar a famosa
loja; para minha grata surpresa, não foi uma tarefa
das mais árduas. O majestoso edifício rubro era uma
construção única, distinguindo-se facilmente na
monotonia cinzenta da paisagem urbana.
Ao atingir os majestosos portais de ônix que
guarneciam sua entrada, percebi o profundo silêncio
que emanava da galeria, em flagrante contraste com o
ruído que se poderia esperar de um centro comercial.
Um oceano iridescente de radiações cintilantes, que
jorravam em sucessivas rajadas dos vitrais
escarlates, envolvia o longo e largo corredor num
tiroteio de reflexos flamejantes, fornalha infernal
de nácares sangüíneos; as lojas, todas de igual
tamanho, e com seus nomes cravejados em letras de
bronze de feitio similar, estavam fechadas, o que
não era de se esperar na manhã de um dia de semana.
Decepcionado, e, em certa medida, um pouco aturdido,
continuei percorrendo a galeria, apenas para me
certificar de ser esta a correta localização da
loja. Alguns passos depois, estava diante de um
letreiro que dizia:
MÚSICA DAS ESFERAS; não podia haver qualquer
dúvida. Todavia, à diferença dos demais
estabelecimentos, um delgado feixe de luz escapava
pelo vão das portas de jade que a encerravam; além
disso, uma inexplicável sensação de movimento
parecia indicar que a loja estava funcionando.
Convencido por estes indícios, animei-me a entrar.
No mesmo instante, a tênue luminosidade deu lugar a
uma penumbra indistinta, e o movimento evaporou-se
em uma sala vazia, desprovida de móveis ou quaisquer
outros objetos. Era-me custoso acreditar no que
estava vendo: não havia nada, qualquer vestígio de
um ambiente ocupado por um ser vivo, mas apenas um
deserto de rudes paredes de granito há muito
esquecidas; todavia, a curiosidade me impelia,
precisava descobrir algo que me dissesse o que
ocorrera. Até que, em meio às sombras, esbarrei em
uma pequena tabuleta pendurada na parede dos fundos.
Aproximando-a dos olhos, pude ler os seguintes
dizeres:
Em virtude da
realização de obras para ampliação da loja,
com o objetivo de proporcionar mais conforto aos
nossos
fregueses, estamos funcionando provisoriamente no
subsolo
da galeria.
Agradecendo antecipadamente vossa compreensão,
A Gerência
Apalpando mais detidamente, descobri tratar-se não
de uma parede, mas de uma porta; e então pensei, com
revigorada, embora não muita sincera disposição, que
o desejo de conhecer o legendário estabelecimento
não me seria afinal negado...
O que vinha a seguir era um longo, escuro e estreito
corredor, bafejado por lufadas sucessivas de um mofo
ancestral, o que parecia indicar um abandono
secular; no fim do caminho, deparei-me com o início
de uma escada em espiral. A diáfana claridade,
entrevista depois do sexto ou sétimo degrau, dava-me
direito a acreditar que meu destino estava próximo;
expectativa que, no entanto, desapareceu assim que
transpus o oitavo degrau. Continuei descendo e, para
meu espanto, os reflexos de luz periodicamente
surgiam e desapareciam, num ritmo ditado por um
mecanismo misterioso, cujo compasso, em sua insólita
intermitência, escapava à mais sutil das lógicas.
Dezenas de degraus mais tarde, desembarquei em uma
pequena sala retangular, decorada apenas por um
imenso candelabro de prata, engastado com minúsculas
safiras, esmeraldas e rubis formando singulares
mosaicos; a visão do conjunto despertava sensações
de um sarcasmo cruel e inaudito; meditei, por alguns
instantes, a respeito do eventual significado que
tais engastes poderiam encerrar, mas não logrei
encontrar uma resposta razoável. O impulso da seguir
adiante, contudo, ainda predominava sobre a profunda
inquietação que a enigmática peça suscitava;
prosseguir era, portanto, imperativo. O local
conduzia a uma outra escadaria, esta mais ampla e
ventilada, iluminada fracamente por archotes
dispersos em suas paredes de pedra; um murmúrio, a
princípio indefinível, chegava a meus ouvidos.
Enquanto descia, o zumbido gradativamente
transformava-se em algo semelhante a vozes humanas.
Intrigado, parei de descer de colei a orelha a uma
das paredes: tive então plena certeza de que se
tratavam de vozes humanas. Porém, quando estava
prestes a extrair alguma palavra da informe massa
sonora, os sons desapareceram subitamente, dando
lugar ao mais impenetrável silêncio, um manto
noturno de silêncio que desvelou-se sobre tudo.
Voltando a descer, notei que a distância entre as
paredes começou a estreitar-se; em poucos instantes,
tornou-se exíguo a ponto de dificultar até mesmo a
passagem de um homem esguio como eu. Todavia, após
longos minutos de aflição, senti uma leve brisa
acariciando-me o rosto. A aragem se intensificou
passos à frente, trazendo algum alento, um sopro de
esperança para meus debilitados sentidos; foi então
que, de súbito, sem o menor alarde, um fortíssimo
jorro de luz inundou-me os olhos.
A impetuosidade coruscante dos trovões brancos de
energia pura que desabavam sobre mim, destruindo
qualquer senso de percepção que eu porventura
houvesse preservado, tornou quase imperceptível o
momento sublime em que, abandonando a sufocante
escadaria, voltei a caminhar livremente. por um
espaço amplo. Após longos minutos de espera, quiçá
mais duradouros que as eternidades que nossas
temerárias almas engendram, a tempestade de luz
começou a suavizar-se, permitindo-me contemplar um
dos mais impressionantes milagres cruéis que as
instâncias supremas permitiram à obscura existência
humana divisar: caminhava agora através de um
colossal salão de mármore nacarado, iluminado por
gigantescos lustres de cristal. A ausência de
paredes, substituídas por imponentes fileiras
paralelas de colunas dóricas, fazia com que os
limites do local (se é que estes existem, fato que
até hoje não pude comprovar) se dissolvessem nos
confins de uma refração luminosa argentina,
inacessível ao olho humano. O teto elevava-se à uma
altura tão incomensurável, que os lustres, cuja
dimensão deveria ser tratada em termos de dezenas de
metros, transformavam-se em pequeninas lâmpadas
bruxuleantes. A luz que emitiam, em contraste com o
turbilhão que há pouco me assaltara a visão,
conferia uma iluminação vaporosa, diáfana ao
grandioso salão, dando ensejo à uma intrincada
geometria de sombras e reflexos.
A medida em que prosseguia, começava a entrar em meu
campo de visão a presença de uma ciclópica coluna
azulada, que se distinguia das demais não apenas por
sua coloração diferente, mas por sua largura
infinitamente maior do que a de qualquer coluna já
concebida pela imaginação humana. Caminhando a
passos rápidos em direção ao monstro silencioso, com
a alma dividida entre a descoberta da redenção e a
iminência da tragédia, comecei a observar algumas
características da satânica estrutura. O topo,
imerso nas sombras indistintas que envolviam o teto
do salão, dava, entretanto, a nítida impressão de
ultrapassá-lo; a base estava circundada por manchas
negras, talvez dejetos acumulados ao longo de anos,
séculos, talvez milênios; e por fim, a
característica mais misteriosa: a coluna era
percorrida de cima a baixo por um incessante ponto
luminoso.
Após algumas horas de angustiosa peregrinação, dois
enigmas estavam solucionados: os detritos que
pejavam a base do monumento nada mais eram do que
dezenas de corpos humanos, espalhados ao seu redor e
em torno de outras colunas; e o anteriormente
pequenino ponto luminoso convertera-se num
monumental elevador de portas de bronze. Aterrado,
aproximei-me dos corpos que emolduravam a coluna
principal. Ali jazia um amontoado de homens e
mulheres de diferentes idades e raças, cujo único
ponto de convergência era o fato de todos estarem
trajados de negro. Chegando mais perto, verifiquei
que não estavam mortos; ao contrário, respiravam com
sofreguidão, e tinham suas faces de máscara de cera
iluminadas por olhos invariavelmente arregalados.
Percorrendo a base da coluna, notei que um deles, um
homem de meia-idade, cujo rosto era adornado por uma
copiosa barba ruiva, ainda conseguia manter-se
sentado e, por instantes, parecia mover lentamente
os olhos. Ajoelhei-me, então, diante dele, e
perguntei: - o que está acontecendo? Percebi que
seus olhos cinzentos me encaravam, mas a boca
escancarada não emitia qualquer vestígio de som.
Exasperado, segurei-o pela gola da camisa e comecei
a sacudi-lo, repetindo a pergunta. De repente, um
balbucio chegou, remoto, a meus ouvidos: - est...
Encostei-me a sua boca e novamente o sacudi. O
fragmento sonoro antes esboçado completou-se: -
estamos esperando... A perspectiva de decifrar
aquele código secreto estimulou-me a insistir. Com
os olhos cada vez mais esbugalhados, o espectro
humano continuou com suas emissões intermitentes: -
estamos esperando o momento... , frase que repetiu
algumas vezes. Depois disso, calou-se novamente.
Furioso, agarrei sua cabeça, batendo-a com toda a
violência contra a superfície da coluna.
Após este absurdo acesso de loucura, em que julguei
tê-lo matado, percebi que continuava vivo,
encarando-me com os mesmos olhos tetricamente
abertos, com a mesma mudez impiedosa no olhar.
Formulei, então, mais uma vez a pergunta; e enfim, o
murmúrio, egresso das profundezas abissais daquele
ser ausente, vinha à tona novamente, desta vez
completo em sua alucinante lógica do inominável: -
estamos esperando o momento de iniciarmos outra
espera... Desistindo de uma vez por todas de todo e
qualquer sentido, larguei aquela massa inerte,
recuei e dirigi meu olhar ao elevador, contemplei,
paralisado, os números de seu enorme mostrador, que
iam de 0 a 1000, estando este último número
iluminado. Por longos minutos, projetado numa
dimensão para além do espaço e do tempo, vislumbrei
aquele inatingível sinal luminoso. Tão absorto
estava naquele transe alucinógeno que mal percebi o
vagaroso, porém contínuo, movimento iniciado pelo
sinal de luz para baixo, acompanhado pelo imponente
ponteiro do mostrador. Após mais alguns instantes de
letargia, reparei que o elevador estava efetivamente
descendo. Um frenesi de excitação incontrolável
atravessou-me as entranhas; ia, enfim, me ver livre
daquela legião de íncubos demoníacos, voltar para a
superfície, para casa, para a periferia, para longe
do centro da terra, do vórtice funéreo... Mas quando
o ponteiro, acompanhado por uma intensa luminosidade
advinda da fresta entre as portas do elevador,
atingiu o número 0, o pesadelo retornou em
velocidade redobrada: os portões de bronze
permaneceram fechados. Desesperado, esmurrei-os de
todas as maneiras possíveis, tentei separa-los até o
limite de minhas já esgotadas energias, num esforço
vão, inútil. Em um espasmo de entendimento,
compreendi em toda extensão de sua terrível e
pavorosa simplicidade, o sentido das palavras
sussurradas pelo espectro ruivo. Poucos minutos
depois, o mefistofélico mecanismo voltou a subir, em
seu ritmo imperturbável de coisa eterna e universal,
presente desde o alvorecer dos tempos...
Nos primeiros dias, e talvez mesmo nas primeiras
semanas, ainda esperei o momento da libertação, a
epifania ansiada; logo, porém, parei de me indignar,
de tentar reverter o irreversível. Gradativamente,
sentei-me junto à coluna, e então, estendi-me,
irresgatável, sobre a glacial superfície de mármore.
Meus olhos não mais se fechavam; a boca, seca,
escancarava-se num lamento sem voz. Nada mais me
restava, para além da noite eterna do Tempo, senão
esperar, continuar esperando pelo momento de
iniciarmos outra...
Conto / resenha de Alfredo RR de Sousa
|