Alemanha, 1971.


Músicos:
Edgar Froese - Guitarra, baixo, orgão, Osciladores.
Christoph Franke - Percussão, bateria, flauta, piano elétrico, zither, VCS 3.
Steve Schroeder - Orgão Farfisa, hammond.
Udo Dennenbourg - Flauta, letras e voz.
Roland Paulick - VCS 3
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Faixas:
1- Sunrise In The Third System (4:21)
2- Fly And Collision Of Comas Sola (13:33)
3- Alpha Centauri (22:04)


Tangerine Dream   

Alpha Centauri

 
Dados da resenha:
Autor: Marcelo (Fantômas); recebida em: 07/04/2005.
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Como você pode por em palavras sua paixão incondicional por um disco? Árdua tarefa, somente pra corajosos. Precisa haver o cuidado, tens que deixar claro que esse disco é da melhor qualidade, mas sem expor isso por toda resenha. Deveria deixar essa tarefa pros mestres resenhistas, mas não! Eu preciso, ao menos, tentar. Tangerine Dream, Ah, Tangerine Dream. Todos sabem que essa é a maior banda de Space Rock, se não a melhor, foi a mais representativa. Seus trabalhos são sempre climáticos e calmos, dando a sensação de estar flutuando ao fundo de paisagens espaciais. Se o universo tivesse música, soaria como o Alpha Centauri! Na época, o genial Klaus Schulze havia deixado o Tangerine Dream pra formar o Ash Ra Tempel com Manuel Göttsching, onde participaria apenas do primeiro disco da banda (depois voltaria pra gravar o também excelente Join Inn) antes de seguir numa genial carreira solo. Foi então que a brilhante e insana mente de Edgar Froese assumiu a banda de vez. Para o lugar de Schulze, foi chamado o jovem Chris Franke. Nesse vai e vem, a banda gravaria o que é, pra mim, seu melhor álbum.

A viagem começa com "Sunrise In The Third System". Ouvindo essa música junto com o Electronic Meditation observa-se o quanto a banda mudou de um trabalho pro outro. Não tem mais aquela agressividade encontrada no primeirão... O que se ouve aqui são efeitos eletrônicos ecoando, até a entrada do órgão (Nota: Sem duplo sentido aqui, por favor!), levando a calmaria ao limite da sanidade. Mais toques eletrônicos, agora fazendo um som bizarro, contraposto pelas simples "pontuadas" de flauta. A música ganha ares drásticos quando vai se aproximando do final, dando a impressão que a música não caberá nos seus quatro minutos de duração. Incrível como conseguiram resumir em uma faixa de curta duração toda a viagem espacial que a maioria das bandas nunca chegou perto.

"Fly And Collision Of Comas Sola" segue o disco, sendo ainda mais viajada que a primeira! Instrumentos eletrônicos dominam altamente relaxantes, até a nova entrada do órgão (Nota: Sem duplo sentido aqui também, por favor!), que soa tão bem quanto soou na primeira, mas de uma forma diferente... Diferentemente da primeira, aqui a flauta está em primeiro plano, o que dá um clima mais calmo. Ao final, a música cresce numa intensa jam, onde se ouve pela única vez no disco a bateria de Franke. Sensacional!

A longa "Alpha Centauri" é o ápice do som espacial (pensando bem, o disco inteiro é!). Sons de um tipo de vento, muita flauta e estranhos instrumentos eletrônicos. A música se intensifica, mas logo volta ao quase silêncio. Que segue até a única parte com voz do disco. Uma fala em alemão ("Der Geist Der Liebe Erfuellt den Kosmos, und der das All zusammenhaelt kennt jeden Laut. Der Geist steht auf, und seine Feine zerstieben. Und die Ihn hassen, fliehen vor seinem Angesicht. Sende aus Deinen Geist, und Leben entsteht, und also... Komm, Geist, und erfuelle die herzen Deiner Menschen, Und entzuende in jedem das Feuer Deines ewigen Lebens!", traduzindo seria algo como: ""O espírito do amor completa o cosmo. E ele que mantem o universo junto, sabe todos os sons. O espírito se mostra, e seus inimigos se desintegram. E aqueles que o odeio saem de sua vista. Libere seu espírito, e a vida começará a se formar. E assim... Venha, espírito, e encha o coração das pessoas, e ligue em todos o fogo de sua vida eterna") dá o clima mais assustador que já ouvi... Distorcida e colocada sobre um teclado sinistro. Não consigo descrever o que essa fala me provoca, mas não é pouca coisa. E, dessa maneira, o disco se encerra.

O Tangerine Dream conseguiu com esse disco recriar o gênero Space Rock. A banda seguiu lançando excelentes álbuns e fazendo por merecer o título de "A" banda de rock espacial. Edgar Froese ainda teria tempo pra se lançar numa excelente carreira solo, que inclui o que pra muito é o melhor disco eletrônico de todos os tempos, “Epsilon In Malaysian Pale”. Mas esse é para um outro momento. Nem todos conseguiram "captar" esse álbum, mas todos deveriam dar uma checada.
 

Autor: Rodrigo Guabiraba (Guabiraba);

Após gravar um krautrock psicodélico em Electronic Meditation, o primeiro disco da banda, o líder Edgar Froese se viu sozinho e com idéais cada vez mais etéreas, interessado em buscar um som mais espacial e climático. Interessantemente, na mesma época, bandas como Pink Floyd e Amon Dull II faziam incursões por um território onde, em muito pouco tempo, o Tangerine Dream cravaria bandeira, se afirmando como a banda mais significativa no quesito "som espacial". 
Chris Franke, baterista bastante experiente e adepto de parafernálias eletrônicas se juntou à Froese ainda em 70. O garoto Steve Schroyder (que largaria a banda ainda neste album, envolvido com drogas), chamou bastante a atenção de Froese em uma audição, onde retirou sons simplesmente impressionantes em um simples órgão Farfisa. Foi rapidamente convidado a se juntar ao Tangerine Dream. Como um trio, a banda gravou seu primeiro disco realmente espacial, o interessante Alpha centauri, em janeiro de 71, em poucas sessões, no estúdio Dierks, em Cologne, Alemanha.
Alpha Centauri conta com várias restrições técnicas, na mixagem, ou na edição final, que prejudicam um pouco a textura espacial que o disco merecia. Mas é importante frisar que de forma alguma o album é mal gravado ou pouco significativo. 
Com seus musicos passeando por vários instrumento eletrônicos, modificando equalizações nos órgãos Hammond, abusando nos osciladores, experimentando viagens no VCS3 synth, o mini moog dos ingleses, Alpha Centauri se torna um passeio à dimensões ocultas escondidas em hemisférios artificiais do cérebro humano. A idéia básica é um colchão sonoro de órgãos, VCS3 e osciladores, com pequenas intervenções de flautas e ruídos mecanicos, além de guitarras com timbragens atonais. Sunrise in the Third System funciona como uma introdução, com uma massa de órgãos e escalas bem disarmônicas construidas solidamente no VCS3. Um abuso... Ela leva o ouvinte diretamente à Fly and Collision of Comas Sola, a faixa mais impressionante do album. Com uma introdução incômoda, ruidosa e VCS3 exageradamente utilizado, chegamos ao tema principal, com uma delicada base de órgãos e pequenos sons sintéticos, até a entrada da flauta de Franke e Dunnenbourg conduzindo o tema à uma explosão kraut-jazz de bateria e flauta, realmente impressionante. No fundo, Schroyder e Froese constroem uma parede de órgãos extremamente intensa... perfeita... A faixa acaba subitamente, por uma falha técnica de mixagem. Mas a viagem foi mais que suficientemente intensa...
A faixa título é uma continuação do tema central de Fly and Collision, mas pela sua longa duração esperava-se um pouco mais, que acaba não vindo. mesmo assim, os temas são consistentes, muitas vezes assustadores, com bons efeitos de equalização, e utilização precisa da parafernália eletrônica ainda rudimentar na época. É interessante observar as intervenções da flauta extremamente bem tocada, como um tema grego, junto à tantos osciladores, VCS3 e órgãos, as melodias se tornam sobrenaturais, um convite ao êxtase...uma trilha sonora para interlúdios interplanetares... O final conta com um coral grave, mas gentil, e fecha em um tapete de órgãos extremamente minimalista.
Alpha Centauri é o precursor do trabalho muito competente que o Tangerine Dream viria a gravar após 71, e merece algumas audições. O trabalho posterior, Zeit, de 72, segue a mesma linha, mas um pouco mais erudito, sinistro, inacessível e bem produzido. O detalhe principal foi a entrada de Peter Baumann, em Zeit, que trouxe novos ares para o TD.