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Lou Reed
- guitarra rítmica. John Cale - órgão
elétrico, viola. Sterling Morrison -
guitarra rítmica. 'Mo' Tucker - bateria.
Nico - guitarra
lap top,
percussão.
67 minutos,
P&B
Direção: Andy Warhol
Fotografia: Paul Morrissey
Música: Velvet Underground
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[DVD] The Velvet Underground and Nico - A Symphony
of Sound (1966) Por
Lindhorst
Encontrei este obscenamente caro mas fantástico
DVD, em edição limitadíssima pela
Andy Warhol
Foundation, numa viagem que fiz a Londres
em 1999; quero agora compartilhar as insanidades
magníficas desta obra-prima!
O cinema de Andy Warhol se distingue, pelo menos
em sua fase experimental no início dos anos 60,
por uma radical estética da imobilidade: planos
fixos, câmera estática, edição imperceptível,
roteiro quase inexistente. Geralmente mudos e com
fotografia em B&W, seus filmes são relatos
letárgicos sobre o que está acontecendo fora do
espectro cênico enquadrado, como se a presença
incidental de um fato, congelado ao acaso no tempo
e no espaço, fosse apenas o indício de algo muito
maior. Nesses ensaios sobre a ausência, o que está
em foco não é importante, mas sim o que o
espectador pressente estar acontecendo ao redor da
cena. Em "Kiss" (1963), casais se beijam em
close-up durante 58 minutos. A sensação de
movimento é mínima, mas ele ainda se faz presente
no campo visual do espectador. Warhol, entretanto,
conceberia no mesmo ano experiências ainda mais
insólitas, inclusive em termos de duração. "Eat"
exibe, em 38 minutos, o pintor Robert Indiana
comendo um cogumelo; em "Sleep", a câmera observa
6 horas de sono do poeta John Giorno. Em 1964, com
"Empire", o pintor/cineasta apresenta a realização
máxima de seu cinema estático, sobretudo no plano
da despersonalização narrativa e de uma calculada
vacuidade dramática: uma câmera insuportavelmente
imóvel examina, durante 8 horas, sob o mesmo
ângulo, a calçada em frente ao Empire State
Building.
É um cinema hiperrealista, posto que nenhuma
reestruturação narrativa do mundo é admitida, mas
é também, do mesmo modo, um cinema extremamente
artificial, pois no movimento reside a própria
substância da realidade percebida pelo homem.
Warhol consegue enredar o público num sortilégio
angustiante, um estado de animação suspensa que
provoca a expectativa, frustrada já de antemão,
mas ainda assim presente, de que alguma coisa está
prestes a acontecer. Essas obras não são
exatamente grande cinema (e talvez tampouco o
pretendam ser), mas formulam uma hipótese
inquietante: o essencial nunca está em cena, mas
oculto numa dimensão paralela, que se desvela na
transcendência do já visto; deve ser construído na
mente do espectador, que precisa abstrair-se da
ilusão, subtilmente entretecida por Warhol, de que
possui todo o tempo do mundo para apreender todas
as dimensões de um fato. Curioso paradoxo: a
possibilidade de uma visão essencial na negação
simbólica da visão real, a verdade encoberta nos
meandros do verdadeiro...
Em 1966, todavia, com " The Velvet Underground and
Nico: a Symphony of Sound" (67 minutos, B&W),
Warhol inverte totalmente sua perspectiva
cinematográfica: ao invés de êxtase contemplativo,
movimento incessante, um ciclone desenfreado de
energia cinética explodindo em velocidade warp na
tela. É talvez seu melhor filme, intenso e
envolvente, com a colaboração providencial de um
Velvet Underground atroz, disposto a incinerar o
suporte formal edificado por seu
mentor,
granadas sonoras estilhaçando fotogramas,
celulóide posto em combustão elétrica pelo
espectro de Antonin Artaud fragmentado pelos
macabros sortilégios de quatro anjos negros, 'Not
a bloodied country All covered with sleep Where
the black angel did weep (...) And if Epiphany’s
terror reduced you to shame Have your head bobbed
and weaved Choose a side to be on...'
O cenário é a lendária Factory, o atelier/QG do
artista novaiorquino: um imenso e desordenado
galpão, cujos limites se dissolvem na refração
luminosa de suas superfícies argentinas. Em
flashes rápidos e descontínuos, podemos entrever,
espalhados pelo chão, alguns membros do famigerado
séquito de Warhol: Gerard Malanga, Billy Name,
Edie Sedgwick, Stephen Shore, talvez Mary Woronov,
Ultra Violet, Ingrid Super Star; um pouco mais
adiante, destacada do grupo, vemos Nico, a glacial
valquíria junkie, sentada num banquinho com um
pandeiro nas mãos; ao fundo, de óculos escuros e
trajes negros, os Velvet Underground improvisam
furiosamente uma espécie de "Sister Ray"
avant la lettre,
ainda mais caótica e desarticulada que sua ilustre
herdeira.
Em giros cada vez mais rápidos, a câmera de Warhol
voa desordenadamente pelo local, recortando a cena
em desconcertantes fragmentos visuais. A muralha
de white noise que flui dos amplificadores
funde-se ao tiroteio pontilhista dos fotogramas de
tal modo que podemos, sem exagero, falar num
fenômeno de transubstanciação: estamos vendo a
música e ouvindo as imagens. Aliás, este filme
pode ser encarado como um magnífico tratado sobre
a interconexão entre som e imagem na linguagem
cinematográfica. De fato, Warhol e os Velvets
entram em simbiose: as imagens se desmancham
velozmente numa tempestade fotoelétrica, enquanto
“Mo” Tucker acelera o compasso insidioso de sua
bateria, as guitarras de Reed e Morrison rosnam
microfonia, e as nervosas teclas do órgão de Cale
emitem ondas eletromagnéticas. O bailado
supersônico de fragmentos cênicos e acordes
dissonantes explode as perspectivas formais do
filme em crescente desorientação mental.
Avalanches trovejantes de ruído arrojando cascatas
fluorescentes de signos gráficos voláteis, a
hipercinesia levada ao extremo despejando
pulsações corticais que paralisam o movimento numa
onda estática de vibração luminosa,
Who’s that
knocking,Who’s that knocking on my chamber door,
Could it be the police? They come and take me for
a ride ride, But I haven’t got the time time,
apoteosedopesadelodespertandoosín
cubosadormecidosnoventreímpiodoDragão,quedeslizamsilenciosospeloslabi
rintosdmadrugadametálica,'youshouldn'tdothat,she’sbusysuckingonmyding
dong,desliguem!!!!!,éprecisodesmontaromaquináriosagradodoinfernoque
transmiteosurrostonitruantesdeLúcifer,porfavor,MrWarhol,compreenda,es
tamosaquicomooficiantesherméticosdeumritualsagradoparaexorcizaratene
brosaMissaNegradoRuídoBranconaFábricadoCaos.....................................
.......SCRÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉEEEiiiinch..................
Observações finais: "A Symphony of Sound" deve ser
visto num quarto hermeticamente fechado, com o
espectador solitário e imerso na mais profunda
escuridão. Como complemento, no maior volume
possível, competindo em insanidade com a trilha do
filme, um bom e velho bootleg dos Velvets, talvez
o "EPI/66" (1996), edição japonesa de um dos
melhores shows do VU em sua fase pré-histórica, ou
então, o que seria ainda mais apropriado, o
extraordinário pirata belga "Sweet Sister Ray’s
Murder Mystery" (1993), gravação de um show de
1968 que traz uma aterradora versão de "Sister
Ray" com 40 minutos de duração; discos raros, no
entanto, dificilmente encontráveis; caso não
possam ser obtidos, recomenda-se a seguinte
seleção, pela ordem: "White Light/White Heat", Hey
Mr. Rain", I heard her call my name", "Black
Angel’s Death Song", "European Son to Delmore
Schwartz" e, é claro, "Sister Ray". Tenham todos
um bom divertimento.
Alfredo RR de Sousa |