EUA, 1977.


Músicos:
Joe Zawinul
- Piano e Sintetizadores
Wayne Shorter - Saxofones
Jaco Pastorius - Baixo e bateria (em "Teen Town")
Alex Acuña - Bateria
Manolo Badrena - Percussão


Faixas:
1 - Birdland
2 - A Remark you Made
3 - Teen Town
4 - Harlequin
5 - Rumba Mama
6 - Palladium
7 - The Juggler
8 - Havona


Weather Report

Heavy Weather

 
Dados da resenha:
Autor: Rodrigo Guabiraba (Guabiraba); recebida em: 05/12/2004.
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Formado ao final dos anos sessenta pelo pianista futurista Joe Zawinul e pelo magistral saxofonista egresso do Miles Davis quintet Wayne Shorter, o Weather Report agregou uma boa variedade de influências, do Free jazz ao Progressivo, contribuindo decisivamente para o estabelecimento do Jazz Fusion nos anos 70. Concorrendo com bandas como o Return to Forever, de Chick Corea, e o Mahavishnu Orchestra, de John McLaughlin, supergrupos com membros altamente técnicos, o Weather Report precisava sim de um diferencial. O resultado foi que Zawinul e Shorter, junto a vários, e também gabaritados, membros que compuseram a banda até o seu final no início dos anos 80, moldaram o Weather Report sobre uma maleável estrutura jazzística recheada de sintetizadores e elementos latinos, algumas incursões pela psicodelia, principalmente nos três primeiros álbuns, e um ou outro elemento de jazz espacial, porque falar em musica espacial para o Weather Report é desaconselhável e talvez soe errôneo.
No final das contas, se o WR não tinha o peso do Mahavishnu Orchestra nem o suingue virtuosístico do Return to Forever, a banda contava com melodias altamente cativantes, acessíveis e cantaroláveis logo à primeira audição. A variedade rítmica e a necessidade intrínseca de colocar o ouvinte para dançar, associadas à grande densidade criativa de Shorter e Zawinul, proporcionaram marcos como os álbuns "I Sing the Body Electric", de 72, e "Black Market", de 76.
A maioria dos ouvintes de fusion renegam parte do trabalho do WR, dizendo que a banda soava pop demais. Concordo. Ao final dos anos setenta, principalmente, Zawinul, talvez o grande responsável por este "trágico" destino, incorporou dezenas de teclados altamente oitentinstas ao som da banda. Brilhante ao piano elétrico em "Bitches Brew", Zawinul desencanta o ouvinte do bom e velho jazz fusion quando este pega "Heavy Weather", de 77, e ouve "A Remark you Made". Shit ! Lamenta o coitado do ouvinte.
A história de "Heavy Weather" não se limita à uma transição de sonoridade.
O álbum, na verdade, conta com excelentes composições, pelo menos 4 clássicos do grupo e também com o definitivo estabelecimento de uma figura histórica: Jaco Pastorius.
Integrado à banda em "Black Market", mas apenas participando de 2 faixas, Pastorius trouxe muito mais suingue, ritmo e técnica ao som do WR. Já apontado neste ano como a maior revelação do baixo nos últimos tempos, Pastorius é um capítulo a parte na música contemporânea, merecedor de uma resenha exclusiva.
Em "Heavy Weather" traz duas excelentes composições, "Teen Town" e "Havona", de longe entre as melhores do álbum. Com seu baixo fretless matador, Pastorius e Acuña criam uma seção rítmica deliciosa em quase todo o álbum.

"Heavy Weather" é campeão de vendagem, é também o álbum mais conhecido do WR, e merece uma audição por parte do público de fusion deste Fórum.

"Birdland" é "O" clássico do WR. Com seu ritmo levado por estalar de dedos, a melodia gruda na cabeça e não sai mais. Zawinul sola solto e desinibido pela faixa, Shorter compõe o lado "Big Band", por sinal o que mais chama atenção, e Pastorius simplesmente dá uma aula de baixo fretless. Clássico instantâneo e highlight do álbum. A segunda metade da faixa tem uma quebra de ritmo decisiva, e os teclados de Zawinul duelam com Shorter violentamente. Interlúdio curto mas certeiro!

"A Remark you Made" é polêmica. Uma linda melodia estragada por teclados e bateria oitentistas ? Altamente audível, Shorter traz um dos mais belos temas já gravados no fusion. Acompanhado por uma linda linha de baixo, o saxofonista constrói o tema de forma memorável. Dê uma chance a Shorter que a faixa desce. No mais, percebemos para que lado a banda apontava.

"Teen Town" é perfeita. Percussão e bateria colados ao baixo de Pastorius, rápido e preciso. No final uma faixa solo de Pastorius com intervenções de Zawinul e Shorter no tema principal, o "gancho" da faixa. Detalhe: Jaco toca bateria na faixa. Era baterista antes de descobrir o baixo. Coisa de louco...

"Harlequim" sofre do mesmo mal que "A Remark you Made", o plastic sound está lá estragando quase tudo, se não fosse por Pastorius e pela estranha e interessante harmonia da composição de Shorter. O WR tem disso: Quando tudo soa previsível, Zawinul ou Shorter aparecem e mudam esse tudo. Ainda havia, ou há, jazz na veia desses caras, convenhamos. No final o saldo é bem positivo.

"Rumba Mama" é uma faixa curta e ultra-latinizada, contribuição de Badrena principalmente, com sua percussão agressiva. Ela serve como gancho para "Palladium", onde as coisas voltam a ficar MUITO boas. O ritmo latino é matador. Pastorius desliza ao fundo, acompanhado pela excelente percussão de Badrena e pela bateria técnica de Acuña, que aqui mostra que nada deixa a dever a Michel-Walden e Thompson, bateristas anteriores do WR. Shorter e Zawinul fazem uma grande dobradinha sobre o tema principal, e ainda sobra espaço para Zawinul utilizar, pelo que consegui contar, uns 5 sons de sintetizadores diferentes. Cara incansável... Outra grande faixa do álbum.

"The Juggler" lembra o WR do começo da década de 70, acrescido de um ou outro sintetizador aqui e ali. A faixa é altamente climática, com momentos agressivos alternados por um tema lúdico, baseado em uma percussão quase indígena. A base central é fusion puro, mas aquele diferencial já citado fazem da sonoridade do WR algo bastante peculiar. Zawinul talvez seja a peça chave desta faixa, pois todos os temas principais estão representados por teclados.

"Havona" fecha o álbum com primor. Fusion da melhor qualidade. Com belas quebras de ritmo e sintetizadores virtuosos. Pastorius deixa o recado, mostrando definitivamente a que veio. Conduz TODOS os músicos por cerca de 6 minutos, liderando uma melodia rica em instrumentos e temas. Acuña é o motor da faixa e não deixa o baixista na mão. Faixa mais que recomendada.

Para fãs de fusion sem muito preconceito com teclados, para fãs de Pastorius, e principalmente para quem ainda não entrou de cabeça no Fusion por causa das excentricidades técnicas.

Ps: Pastorius foi indicado neste mesmo ano para o Grammy de melhor solista de jazz.